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Essa neurocientista usa arte para combater o ódio

Ashley Baccus-Clark do Hyphen-Labs cocriou um projeto em realidade virtual que coloca os usuários no corpo de uma mulher negra.

por Amirah Mercer; fotos por Maroon World; Traduzido por Marina Schnoor
08 Março 2018, 1:00pm

Matéria originalmente publicada na VICE US.

Se feminismo interseccional ainda é uma coisa meio confusa pra você, então não precisa ir além do Hyphen-Labs para entender o conceito. O coletivo internacional de mulheres não brancas está usando arte e tecnologia de ponta para combater a desigualdade. O último projeto delas, NeuroSpeculative AfroFeminism, é uma instalação de realidade virtual que coloca o usuário no corpo de uma mulher negra num salão de cabeleireiro.

A neurocientista e diretora criativa do Brooklyn Ashley Baccus-Clark liderou a pesquisa para o projeto. Dar a alguém o controle de um avatar de outra raça, ela me explicou, pode ajudar a diminuir preconceitos. “Muito do que faço no Hyphen-Labs é pensar especulativamente sobre como encaixar pesquisa nas instalações de larga escala que fazemos”, disse Baccus-Clark. Tendo estudado biologia molecular e marketing, ela usa dados do mundo real para criar experiências interativas que alertam outros sobre seu próprio privilégio.

“Queremos que as pessoas entendam que não pode ser só eu falando sobre desigualdade. Não pode ser só você. Precisamos ser aliados uns dos outros”, disse Baccus-Clark.

Em julho de 2016, dois homens negros, Philando Castile e Alton Sterling, foram baleados e mortos pela polícia dos EUA no espaço de apenas alguns dias. Baccus-Clark voltou para casa de seu trabalho de pesquisa de marketing em Warby Parker e chorou na sala com a então colega de apartamento e cofundadora do Hyphen-Labs Carmen Arguilar Wedge. “É importante ter amigos, mesmo se eles não forem negros, que ainda se sentem impactados por essas mortes extrajudiciais”, disse Baccus-Clark. Junto com a cofundadora Ece Tankal, da Turquia, essas três mulheres estão ajudando a centrar todas as mulheres não brancas numa perspectiva global. “Realidade virtual vem sendo mostrada como essa máquina de empatia”, ela disse. “Prefiro que meu trabalho seja contextualizado no enquadramento de atenção plena: ter atenção plena de uma pessoa como uma experiência e não tentando comercializar isso.”

Me encontrei com Baccus-Clark para saber mais sobre NeuroSpeculative AfroFeminism, que estreou no Sundance ano passado e será exibido no Rutgers.

Ela me falou sobre as maneiras como realidade virtual, biohacking e outras tecnologias emergentes pode ajudar a desaprender preconceitos.

Ashley Baccus-Clark usa calça e top Telfar, jaqueta GmbH e tênis Raf Simons.

VICE: Como você aplica sua base em neurociência ao trabalho que você faz?
Ashley Baccus-Clark: NeuroSpeculative AfroFeminism centra a neurociência como um aparelho narrativo. A história acontece num salão de beleza, que também é um laboratório secreto onde você vai para ter seu cérebro otimizado. Sempre que apresentamos NeuroSpeculative AfroFeminism também estamos fazendo pesquisa. Então testamos o impacto cognitivo para ver se a realidade virtual pode ser uma ferramenta para diminuir o preconceito. Vimos que em vários laboratórios de neurociência que quando você coloca alguém que não é, digamos, uma mulher negra, no corpo de uma mulher negra, e dá à pessoa o controle ou agência sobre o avatar, isso diminui o preconceito contra alguém daquela cor ou nacionalidade.

Como isso se dá em NeuroSpeculative AfroFeminism?
Em NeuroSpeculative AfroFeminism você se senta na cadeira do salão, encarando um espelho, e se vê como uma jovem mulher negra. Quando se vê no espelho, você pode mexer sua cabeça e seu avatar vai mexer a cabeça ao mesmo tempo. Então esse é o ponto de ligação, mostrar que você tem agência sobre aquele corpo. E é tipo “Ah, sou eu”. Há esse nível de reconhecimento.

Quem é o público-alvo da instalação?
São dois. Primeiro, queremos aumentar a visibilidade de mulheres não brancas dentro da realidade virtual e tecnologias emergentes desde sua origem. Nesse primeiro episódio, queremos contar uma história cheia de nuances centradas no tema da negritude e Afrofuturismo. Então um dos nossos públicos-alvo são mulheres que não se veem representadas na tecnologia, que podem nunca ter pensado numa carreira em tecnologias emergentes.

Quando eu era uma bióloga molecular, quando eu trabalhava no laboratório, passei cinco anos sem ver ninguém que parecesse comigo. Quando você não tem esse nível de visibilidade, você começa a pensar, bom, talvez eu não possa fazer isso. Talvez eu não devesse estar aqui. Mas acho que ter essa ótica onde alguém, mesmo que seja só passando pelo corredor, é tipo “OK, essa pessoa está aqui e está fazendo isso”. Então talvez eu também possa. Queremos ser essa ótica, mesmo que for só para encorajar as pessoas a se interessarem por essas coisas e mostrar a elas o que pode ser feito. Um ano e meio atrás [o Hyphen-Labs] não sabia como fazer nada com realidade virtual. Então fizemos muitas perguntas e tentamos fazer isso acontecer.

Que é diferente de ter essa tecnologia que foi criada por um homem branco e dez anos depois dizer “Ah, estamos alienando mulheres negras ou estamos alienando esse mercado e precisamos preencher as lacunas”.
Nosso diretor técnico, Todd, é um cara branco mas está aqui para dizer “Ei, isso não vai funcionar do ponto de vista técnico”. Porque queríamos saber como fazer isso. Tipo, não quero que toda vez que eu quiser fazer alguma coisa, eu tenha que ir até ele. E o Todd dá aula na NYU. E ele disse: “Tenho muitos estudantes negros e africanos na minha classe e quero que eles se interessem por isso também”. Então ele está ensinando NeuroSpeculative AfroFeminism para sua classe para mostrar o que fazemos aqui. Que você importa. Suas histórias importam. Se ninguém vai construir isso para você, construa sozinho. Mesmo se ninguém ver, você fez, e você pode passar isso por boca a boca. É precisa ter uma massa crítica aqui.

Li uma entrevista onde você falava sobre mudar as tecnologias emergentes para acomodar o cabelo das mulheres negras...
Existe essa tecnologia chamada estimulação transcraniana. E muita gente na comunidade de biohacking acredita que pode usar essa tecnologia para hackear o corpo e transcender a morte. Acho isso um absurdo, mas muitas pessoas têm acesso a certas tecnologias para se otimizarem e dar a elas uma vantagem injusta sobre pessoas que não têm acesso a essa tecnologia. Tem gente usando estimulação transcraniana para hackear sua biologia e aprender mais rápido.

E eu sou uma mulher negra com dreads, então essa tecnologia não está acessível para mim. Se eu quiser descobrir como hackear minha biologia do mesmo jeito, terei que criar meus próprios eletrodos e tudo mais. Então isso começa como uma coisa louca, mas aí percebemos, ei, não é tão difícil de construir assim. Não queremos realmente otimizar o cérebro de ninguém e colocar eletrodos nas pessoas, então vamos usar realidade virtual para contar uma história sobre como algo assim poderia parecer.

Quem é o segundo público-alvo?
O segundo público-alvo são pessoas que não tem diversidade em suas vidas no dia a dia. Muita gente se envolve com outras culturas através da mídia – vendo na TV, nos filmes e ou lendo no jornal. Temos pessoas de Nebraska ou Winsconsin que podem passar meses sem ver alguém que parece diferente delas.

Quando você pensa em realidade virtual, você tem a atenção total de uma pessoa por quatro ou cinco minutos. Você pode colocar um véu sobre suas identidades de um jeito que elas podem se envolver com uma história sem pensar em como se encaixam dentro dessa história.

James Baldwin falou sobre como a América do Norte branca tem o privilégio de não ter que entender o ponto de vista dos outros, porque controla os sistemas e instituições dominantes. Enquanto os negros precisam conhecer pessoas brancas mais intimamente, para sobreviver.
Sim, exatamente. Quando éramos crianças, ligando a TV as histórias com que mais nos identificávamos eram de pessoas que pareciam com a gente – e era uma visão muito estereotipada daquela pessoa e de nós nesse sentido. Então agora estamos começando a ter histórias mais amplas, centradas na comunidade latina e asiática, o que é uma benção.

Estamos tentando fazer as pessoas desaprenderem todos esses estereótipos de que se elas se alimentam há centenas de anos. Com certeza já há preconceitos integrados na nossa tecnologia, mas podemos intervir nisso agora. Podemos ultrapassar algumas das coisas mais desastrosas que podem acontecer.

Como esse trabalho está ajudando pessoas a desaprenderem seus preconceitos?
Estamos contando a história de uma perspectiva global. Minha parceira Carmen é latina de São Francisco. A mãe dela é branca. Ece é turca. Trabalhamos com muitas mulheres de todas as cores, credos, religião e tudo mais. Queremos que as pessoas entendam que não pode ser só eu falando sobre isso. Não pode ser só você. Precisamos ser aliados uns dos outros. Precisamos apoiar e elogiar as culturas e histórias de outras pessoas – e essa é uma questão contrariada agora porque as pessoas estão com medo de apropriação. Tipo “Ah, eu não deveria dizer isso, eu deveria dizer aquilo”. E isso nos deixa empacados e não conseguimos progredir além disso – o que é proposital. Quando você joga uma pessoa contra a outra, você está cortando qualquer tipo de movimento em massa para resolver a situação que estamos agora. E estamos na merda.

Você vê um uso futuro da tecnologia mais benéfico para pessoas não brancas e especialmente mulheres, porque isso nos ajuda a ter uma voz, ou há um elemento de pressentimento de um aumento na vigilância e censura?
Isso é o mais interessante. Tudo neste mundo tem essa dualidade. Tudo pode ser usado para o bem ou para o mal. Acho que são as pessoas no comando do barco é quem vai dirigir para onde essa tecnologia está indo, o que vai ter um impacto real em como nosso futuro vai parecer. É por isso que nosso trabalho no Hyphen-Labs é fazer mais pessoas perceberem que não depende das grandes corporações nos dizerem e nos venderem o que acham que deve e como querem que o futuro pareça. Precisamos ser esse barômetro. E no momento não somos – é o Facebook, o Twitter – esses são os barômetros, e o que eles têm em mente é a base. É fazer dinheiro.

Também precisamos descobrir como construir linguagem e sintaxes para o movimento. Estamos acrescentando um novo elemento de tecnologia, que em sua própria natureza não tem ética. É uma máquina de otimização, e a menos que formos mais fundo e usarmos nossa humanidade para colocar a ética na tecnologia, ela vai nos dominar. Não tenho medo porque acho que somos mais fortes. Mas acho que é por isso que Elon Musk tem tanto medo.

Do que ele tem medo?
Elon tem medo de que vamos chegar num ponto onde nossas máquinas serão tão inteligentes que pode haver a possibilidade real delas dominarem. Mas a pergunta é: quem está programando os robôs e por que não há ética construída no estágio do algoritmo?

Há outro problema que você gostaria de resolver ou só chamar a atenção para através de tecnologia emergente?
Definitivamente. Fico triste quando entro numa conversa sobre ambientalismo onde alguém fala sobre o que fizemos com o nosso meio ambiente, mas não consegue ver o que fizemos uns com os outros. Eles acham que é algo separado. Se você não acredita em interseccionalidade, você não pode acreditar em ambientalismo, porque nosso planeta é um organismo vivo e o danificamos. Essas coisas não podem ser divorciadas. Se você não liga para pessoas negras, então você não se importa nem um pouco com o meio ambiente. Pessoas não brancas, pessoas marginalizadas e nações em desenvolvimento serão as mais impactadas pelas mudanças climáticas, por esses eventos climáticos desastrosos que estão acontecendo.

Quais são seus planos para NeuroSpeculative AfroFeminism?
Vamos fazer uma residência no laboratório Open Doc do MIT, então vamos incubar a segunda interação disso em fevereiro. Vamos fazer protótipos de uma nova linha de objetos, uma nova experiência em RV, e construir outro piloto de pesquisa.

Fotografia e Styling por Maroon World

Maquiagem: Whaty Rayos

Cabelo: Illy Lussiano

Unhas: Eda Levenson do Lady Fancy Nails

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