Saúde

O conteúdo viral antivacina assolando o Brasil vem dos EUA

Um único site antivaxx americano responde por quase um terço de toda a desinformação encontrada nas redes sociais brasileiras. Aqui 13% das pessoas não se vacinam nem vacinam os filhos.
13 Novembro 2019, 10:00am
brasil anti-vaxx
AP Photo/Leo CorreaUm profissional de saúde vacina um bebê contra sarampo no Rio de Janeiro, 6 de agosto de 2018. As autoridades de saúde do Brasil estão lançando campanhas nacionais de vacinação contra o sarampo e a poliomielite, doenças que estão começando a aparecer com mais frequência no maior país da América Latina depois de terem sido erradicadas. (AP Photo / Leo Correa.)

Um site americano antivacinação que foi removido do Facebook, Twitter e YouTube no começo do ano encontrou um novo lar para seu conteúdo: o Brasil.

O site Natural News é responsável por quase um terço de toda a desinformação encontrada nas redes sociais e outros sites visando o público brasileiro, segundo um novo estudo feito em conjunto entre a Sociedade Brasileira de Imunizações e a rede de ativismo de direitos humanos sem fins lucrativos Avaaz.

“Da desinformação antivacina que investigamos, que foi refutada pelas agências mais relevantes de fact-checking do Brasil, muito do conteúdo foi originalmente produzido nos EUA e está sendo repostado por contas brasileiras”, diz o relatório, intitulado “As fake news estão nos deixando doentes?”.

O Natural News é um dos sites antivacinação mais conhecidos dos EUA, mas em junho sofreu um golpe significativo quando o Facebook removeu sua conta, que tinha 3 milhões de seguidores. O YouTube e Twitter também removeram as contas ligadas ao site, e o Google derrubou o ranqueamento do site nas listas de pesquisa em 2017.

Mas o relatório da Avaaz mostra que o Natural News e outros sites de teorias da conspiração estão espalhando sua mensagem antivacina sobre os supostos perigos da vacinação através de artigos traduzidos para o português, e compartilhados amplamente nas redes sociais brasileiras, além de em plataformas de mensagens criptografadas como o WhatsApp.

Observando a amostra representativa de apenas 30 posts, os pesquisadores da Avaaz descobriram que desinformação antivacina no Brasil tem um alcance enorme.

Esses 30 artigos e vídeos online foram compartilhados em várias plataformas – YouTube, Facebook e WhatsApp, e repostados em outros sites – alcançando pelo menos 2,4 milhões de visualizações no YouTube. No Facebook, os vídeos foram assistidos 23,5 milhões de vezes e compartilhados 578 mil vezes.

Além de artigos originários do Natural News, os pesquisadores também descobriram conteúdo de vários outros sites americanos, incluindo GreenMedInfo, VacTruth, Conspiracy Club e Stop Mandatory Vaccination. A maioria dos artigos foram traduzidos do inglês para o português sem erros, sugerindo que esse não foi um processo automatizado.

Os pesquisadores também entrevistaram brasileiros sobre suas atitudes com vacinação, e descobriram que 13% dos entrevistados não se vacinavam nem vacinavam as crianças sob seus cuidados.

Quando a pergunta era por que eles não vacinavam, 57% deram razões que eram factualmente incorretas, como a crença de que vacinas aumentam as chances de efeitos colaterais sérios, ou que vacinas não são realmente necessárias. A Organização Mundial de Saúde rotula essas duas alegações como desinformação.

Quase 50% das pessoas disseram que sua principal fonte de informação sobre vacinas são as redes sociais e aplicativos de mensagem como o WhatsApp.

O mercado brasileiro é particularmente aberto para exploração daqueles espalhando desinformação: uma pesquisa da Ipsos anos passado descobriu que os brasileiros são os mais facilmente enganados por fake news. O relatório da Avaaz corroborou essa afirmação, descobrindo que 67% dos brasileiros estavam dispostos a acreditar em pelo menos uma declaração incorreta sobre vacinas.

“O Brasil está experimentando uma epidemia de desinformação sobre vacinas”, disse Nana Queiroz, ativista da Avaaz no Brasil, no relatório. “Esse não é um problema político, é um problema pessoal que arrisca vidas. Grandes plataformas precisam reconhecer conteúdo antivacinação como viral e contagioso – se espalhando de país para país. É por isso que elas precisam começar imediatamente a mostrar correções para pessoas expostas a desinformação sobre vacinas, e ajudar as autoridades a espalhar conteúdo confiável por todo o globo.”

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