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Music by VICE

Uma história oral de 'Black on Both Sides' do Mos Def

Como o álbum lendário ganhou vida, 20 anos depois.

por Jaelani Turner-Williams; Traduzido por Marina Schnoor
22 Outubro 2019, 10:00am

Capa de 'Black on Both Sides' / composição por Equipe VICE.

Um ano depois de lançar Mos Def & Talib Kweli are Black Starr, sua estreia com Talib Kweli, um pré-Yasiin Bey Mos Def soltou outro álbum lendário: o disco solo de 1999 Black on Both Sides. Era uma homenagem ao Brooklyn, onde ele nasceu, que de muitas maneiras foi o último grande álbum da era dourada do hip hop, numa época quando o gênero estava começando a se tornar ainda mais comercial. Def focou em criar um retrato cheio de nuances da vida nas ruas, um que o mostrava contemplando seus próprios sonhos de hip hop (“Love”), a vulnerabilidade de ser punido à vista de todos (“Got”), e corrupção do governo e no fornecimento de água (“New World Water”). Black on Both Sides era um ato de reverência ao lar, da perspectiva negra – um que simultaneamente se familiariza com questões de apropriação e as linhas tênues de gênero na música pop, como na faixa tingida de guitarras “Rock n Roll”.

Sobre samples de soul e batidas pesadas cortesia da equipe de produção de Nova York de curadoria de Def, o dinamismo verbal do rapper ainda ressoa 20 anos depois. A VICE falou com alguns dos principais envolvidos em Black on Both Sides – o coprodutor David Kennedy, o engenheiro de som John Wydrycs e os produtores de música Psycho Les e Ge-ology – que contaram a história da criação do disco e refletiram sobre sua influência duradoura.

David Kennedy (Coprodutor): Começamos gravando no Sony Studios, onde fiz The Love Movement [para A Tribe Called Quest]. Pegamos faixas de produtores como Etch-a-Sketch, Ayatollah e Diamond D. Depois, quando passamos para o Chung King Studios [para continuar a gravação], Ge-ology, 88 Keys, Ali Shaheed e Psycho Les começaram a trazer mais coisas. Alguns produtores acabaram não colando nas sessões de gravação, mas mandaram suas batidas e terminamos a produção nós mesmos. Outros, como Etch e Diamond D, estavam lá quase todo dia na primeira metade, aí o Yasiin entrou e começou a criar suas próprias faixas.

John Wydrycs (Engenheiro): Se me lembro corretamente, quando comecei a trabalhar com Mos, teve alguma confusão com as fitas que gravamos porque estava escrito “Black Star” nelas. Acho que ele já tinha escrito músicas que não entraram naquele álbum, que por sua vez ajudaram a acelerar Black on Both Sides. O que ele não disse em Black Star, ele economizou para seu disco solo.

Psycho Les do The Beatnuts (Produtor de “New World Water” e “Rock n Roll”): [Mos] sempre foi fã do The Beatnuts, e a gente também era fã dele. [Em 1999], também estávamos trabalhando no nosso álbum, Musical Massacre. Estávamos trabalhando com Chung King, e ele sempre aparecia só pra ouvir o que a gente estava fazendo. Um dia ele disse “Olha, se vocês têm batidas – bom, é só trazer”.

Ge-ology (Coprodutor de “Brooklyn”): Tinha uma sinergia muito pura em como as coisas se juntaram. A gente convivia em lugares diferentes. [O produtor] Overtime tinha um estúdio pessoal na Clinton Avenue, e todo mundo colava lá: Mos, Mr. Man Khaliyl do Da Bush Babees, Jean Grae quando ela ainda era conhecida como What? What?, Maseo do De La Soul. Muito do que estava acontecendo no Brooklyn na época fervia no O.T. Shawn J. Period morava na esquina da minha casa, e o Mos estava na casa do Shawn o tempo todo. 88-Keys vinha de Long Island – todo mundo era conectado.

Les: Na época não imaginávamos que, 20 anos depois, o disco seria um clássico. Você pode ouvir ele agora, e o Mos Def estava super a frente de seu tempo. Na época, só estávamos zoando, nos divertindo. Ele sempre foi pontual com suas coisas, sempre consciente do que estava rolando no mundo. Ver o Mos Def enlouquecendo com a minha produção foi tipo “Uau”. Mos Def tinha um flow muito louco. O jeito como ele juntava as palavras era incrível.

Kennedy: Tem muito mais coisa na produção que apenas composição. É colocar todos os elementos juntos e fazer funcionar. Como engenheiro num projeto como esse, tem muitas decisões para serem tomadas além de só a engenharia. A gente basicamente derrubava uma faixa a cada dois dias, se não todo dia. Levou quase um ano para terminar o álbum. Gravar e mixar com o Yasiin se mostrou um desafio às vezes, já que nunca é fácil compreender qual é a visão do artista. Você não pode entrar na cabeça dele, então tem que esperar a mágica acontecer.

Wydrycs: Atribuo o som as escolhas que Yasiin fez com Psycho Les e os outros produtores durante a produção – e a mixagem do David [Kennedy]. Sempre que gravava os vocais do Yasiin, eu tentava manter uma consistência com o que eu achava que o David estava usando, e para “Rock n Roll”, gravei a banda com um aspecto punk em mente, cru e enérgico.

[Mos] já tinha gravado o que seria os primeiros dois terços de “Rock n Roll”, e acho que ele queria subir o nível um pouco mais. Entro no estúdio, vejo que eles estão montando a bateria, e ele explica o que ele quer fazer. Como toquei em clubes de rock no meio dos anos 80, me ofereci pra tocar guitarra. Depois de alguns minutos dele tocando a parte que ele queria, fizemos algumas tomadas. A cereja do bolo, claro, é a linha no finalzinho.

Kennedy: [Durante as gravações] Yasiin começou a trazer sua turma de artistas e músicos – como Weldon Irvine, Talib, Vinia Mojica e Will.I.Am – para dar uma mão. Weldon foi uma grande fonte de inspiração e tocou em várias faixas. John [Wydrycs] gravou e mixou quando eu não era necessário. Tínhamos um bom orçamento de gravação, e tinha um fluxo constante de pessoas entrando e saído por várias razões. Alguns vinham comer, só conversar, tocar, e outros vinham trabalhar, mas tudo levava a um fluxo de energias criativas.

Ge-ology: “Brooklyn” originalmente era pra ser um maxi single que a Rawkus [Records] ia lançar. Era pra ser só eu e o Mos. O jeito como gravamos a faixa [originalmente] e como ela entrou no álbum – são duas faixas diferentes, na verdade. A “Brooklyn” original é o Mos cuspindo três versos diferentes com a minha batida. No álbum, ela tem três suítes diferentes. Minha batida é a introdução, mas isso não foi algo que aprovei.

Eu estava na casa do DJ Spinna um dia, e ele recebeu uma cópia adiantada do álbum. Ele disse “Yo, sua faixa é diferente. Eles mudaram algumas coisas”. Então ouvi e fiquei puto [risos]. Mos estava indo pra casa do DJ Spinna naquele dia, então basicamente fiz uma emboscada pra ele. Dante é um amigo meu das antigas, então éramos próximos. Ele podia ter me falado, em vez de eu ter que descobrir desse jeito. No final das contas, ele é um artista; esse era o álbum dele. O que ele queria que acontecesse com as músicas era a prioridade.

Kennedy: Fui uma surpresa pra nós que Yasiin quisessem misturar as três produções diferentes [em “Brooklyn”] numa composição, mas não questiono o gênio. Só segui o Yasiin e fiz as edições. Eu estava usando Pro Tools na época, então era simples colar duas coisas. Acho que o esforço de Ge-ology devia se destacar por si, mas não dependia de nós na verdade.

Ge-ology: Às vezes as pessoas classificam e colocam Mos ou Kweli na categoria “rappers conscientes”, sem entender quem eram essas pessoas e do que elas estavam falando. Muitas vezes as pessoas vão tentar te colocar numa caixa quando não entendem quão diverso você é a amplitude da sua conversa. Eles eram dois tipos diferentes, então as pessoas não estavam realmente entendendo essa conversa – elas podiam não ser tão receptivas pra isso. Em toda arte, você quer ir além e fazer algo diferente, às vezes leva tempo para as pessoas sacarem.

Matéria originalmente publicada na VICE EUA.

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