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Cinco independentes falam como é viver de música no Brasil hoje

Representantes da nova cena indie elencam o que funciona e o que precisa melhorar para quem está fora do circuito das grandes gravadoras.

por Beatriz Moura; fotos por Felipe Larozza
13 Julho 2017, 2:00pm

Foto: Felipe Larozza

Este conteúdo é um oferecimento de Natura Musical.

Durante o mês de julho, aproveitamos a ocasião da abertura do edital de Natura Musical para dar início à coluna Estudando a Cena , onde discutimos a atual cena independente do Brasil e como as drásticas mudanças na indústria fonográfica dos últimos anos reverberaram na base da pirâmide sócio-cultural do país.

Foi-se o tempo que só quem vivia de música autoral no Brasil era quem tinha contrato com grandes gravadoras, conseguia tocar nas rádios e tinha um clipe lançado na MTV. Com o advento das redes sociais e dos serviços de streaming, Soundcloud e YouTube nos últimos anos, o processo de divulgação e de compartilhamento de música deu uma certa "democratizada" e, agora, músicos independentes podem, teoricamente, eles mesmos divulgar o próprio trampo para mais gente, sem ter que recorrer às mídias tradicionais.

Só que esse processo de divulgação nas redes sociais é apenas uma parte da luta (e das preocupações) que os artistas independentes têm que enfrentar. Apesar das facilidades proporcionadas pela web, ainda existem algumas amarras no mundo virtual para esses músicos — como a política de algoritmos e posts patrocinados do Facebook, que acaba privilegiando quem tem mais grana para bancá-los; ou tipo o anúncio de que o Spotify vai passar a deixar que grandes gravadoras paguem para colocar músicas nas suas playlists, o que é um retrocesso a toda essa tal "democratização" online. Além disso, eles também têm que lidar com todo o trâmite de gravar e lançar as músicas, organizar turnês, correr atrás de editais e tentar agendar shows.

Então, apesar das claras mudanças no cenário e na forma de atuação dos últimos anos, uma questão importantíssima continua em aberto: O quanto é possível se sustentar apenas trabalhando com música no Brasil hoje? Dá pra pagar o aluguel ou ainda tá perrengue? O que tá dando certo e o que poderia melhorar para quem arrisca esse complicado mercado? Falamos com cinco músicos que vivem essas questões diariamente pra saber como eles se viram para se manterem firmes no cena de música independente nacional.

Raphael Vaz (Boogarins)

Raphael é baixista da banda goiana de rock psicodélico desde 2013.

Como é viver de música hoje no Brasil?
É meio indefinido, porque geralmente artista independente faz dinheiro com show. E é quase impossível, no Brasil, preencher um ano inteiro de agenda. Não tem tantas cidades nem casas que garantem que com um projeto só você conseguirá se manter ocupado e pagando suas contas.

Vocês conseguem se manter financeiramente só com música, pagar o aluguel, essas coisas?
Hoje, conseguimos nos sustentar só com a banda mesmo, ainda bem. Até porque ela toma tanto tempo nosso, que seria praticamente inviável ter algum outro emprego.

Como foi para fazer as turnês gringas?
Na primeira turnê fora do Brasil, a gente primeiramente se endividou aqui; Depois, contamos com grana de adiantamento da gravadora — que seria usada pra gravar o [disco] Manual (2015) — e uma parte dela investimos na tour. Hoje, já conseguimos arcar com todos os custos de tour e às vezes até voltar com uma grana pra casa.

Quais são as maiores dificuldades que vocês enfrentam?
Acho que a maior dificuldade é a de deslocamento mesmo para as turnês. Quando começamos a fazer shows pelo Brasil, tocávamos principalmente nas capitais. Como o país é enorme, às vezes fica inviável viajar só de carro ou ônibus, o que faz com que a gente tenha que pegar avião o tempo todo. Já chegamos a pegar três voos no fim de semana. Isso aumenta muito o custo do nosso show para os produtores que querem nos levar pra cidade "x" ou "y". Essa grana para passagens tem que sair de algum lugar e, geralmente, parte dela acaba sendo descontada do cachê.

O que vocês acham que precisa melhorar aqui no Brasil para poder incentivar mais os artistas independentes a não desistirem?
Pro futuro, eu acreditaria mesmo no bom e velho "faça você mesmo" de artistas e produtores: fazer rotas terrestres, shows no meio da semana, tocar em cidades do interior... Tomara que isso melhore nos próximos anos. Uma coisa boa seria contar mais com as grandes marcas, botando dinheiro nisso que acreditam ser um "mercado", sem que isso se reduza apenas a peças publicitárias.

Pra vocês, qual é o papel das redes sociais nesse contexto todo?
Redes sociais facilitam e complicam. Primeiro, porque a gente é banda de internet. Não estamos na mídia de massa e nossa música chega nas pessoas pela propagação na internet mesmo. Mas é claro que isso tem seu preço. Por exemplo: patrocinar post de Facebook pra ver se o link chega nos interessados; ou ter que estar por dentro de qual tipo de conteúdo pode atingir mais gente ou até "viralizar". Acaba que, na internet, a música nunca se trata apenas da música propriamente dita.

Giovani Cidreira

Giovani é cantor, compositor e músico baiano. Em 2017, aos 26 anos, lançou o seu primeiro disco cheio, o Japanese Food, pelo selo paulistano Balaclava Records.

Como é ser um artista independente no Brasil?
É uma loucura, mas é divertido. Com 10 anos, compus meus primeiros versos. Depois, comecei gravar umas fitas em casa, a ter banda e, desde então, não parei de fazer música. É só o que sei fazer relativamente bem em minha vida. Quando eu parar [de fazer música], o coração também vai (e todo o resto).

Você consegue se sustentar só com música?
Consigo. Toda minha renda vem dos shows e dos discos que eu vendo.

Quais são as principais dificuldades de ser um artista independente no Brasil hoje?
O nosso campo de trabalho maior é a internet, e nela há muita informação e dispersão. Todo dia aparecem artistas novos, então o lance é fazer as pessoas ouvirem seu disco, pra começar. Depois, lutar pra que elas vão aos shows, que é onde a gente ganha alguma grana. Ainda existe esse buraco negro entre nós e as rádios, o que é uma pena. Acredito que estamos atravessando uma fase de ouro 18 quilates na nossa música e a maioria das pessoas está perdendo.

Eu faço todos os meus corres, desde o videozinho de divulgação no Instagram até marcar os shows. Estou completamente envolvido em tudo. Sempre apoiado pelos amigos.

O que você acha que poderia melhorar?
Gravei o Japanese Food por meio do edital da Natura. O projeto possibilitou trabalhar com os amigos de sempre, com o mesmo astral que eu sempre estive acostumado, só que, dessa vez, a gente podia pagar o pessoal envolvido. Foi também a primeira vez que trabalhei com músicos que não tocavam comigo desde a adolescência, o que foi um grande aprendizado. Sempre fui muito controlador com minhas músicas e, nesse processo, eu aprendi muito a deixar rolar. Acredito que essa iniciativa [da Natura] tem feito nosso mercado respirar. Devia ter mais umas 50 desses.

Julito Cavalcante (BIKE)

Julito é vocalista e guitarrista do BIKE, banda paulista de rock psicodélico que lançou seu segundo disco, Em Busca da Viagem Eterna , em abril deste ano.

Desde quando você mexe com música e como é ser um artista independente no Brasil hoje?
Comecei a tocar em 2002 com amigos numa banda chamada The Vain. Ficamos juntos até 2012, o que nos rendeu dois discos, quatro EPs e duas turnês fora do país. Entre 2011 e 2013, toquei no Sin Ayuda, que lançou um disco e dois EPs. Passei pelo Macaco Bong em 2015, onde gravei o terceiro disco da banda. Toquei com a Sara Não Tem Nome em 2015, quando gravei e produzi o primeiro álbum dela. Hoje toco com o BIKE e ainda mantenho um projeto antigo chamado Negative Mantras, que lançou um EP em 2014.

Desde 2015, tenho me virado só com a música, o que não é fácil. Com o BIKE, organizamos as turnês e gravamos tudo por conta própria, no estúdio do Diego Xavier (guitarrista); produzimos nosso merchandising — desde estampar camisetas, até montar os encartes e capas dos CDs e K7s; organizamos algumas festas em São José dos Campos e ainda criamos nosso próprio festival, o Viagem Eterna, que deve rolar duas vezes ao ano. Levamos bem a sério o lance de "artista igual pedreiro".

Quais são as principais dificuldades que vocês passam?
Pra começar, a gente toca rock, música com muita guitarra, o que não tem um mercado muito grande no Brasil. Então, a gente disputa espaço com outros estilos musicais que têm um público e um alcance de mídia muito maior. Não temos produtor, selo, booker e nada do tipo. Corremos atrás de tudo, desde a gravação até o lançamento do disco, desde o merch até emitir nota pro SESC. A gente faz tudo. Passamos por todos os processos, vendemos nossos shows, organizamos a logística das turnês, montamos o palco, vendemos o merchandising no final do show e cuidamos das redes sociais.

Conseguir esquemas de shows no SESC talvez seja o melhor negócio para os artistas independentes hoje, mas a concorrência dentro da cena mesmo acaba sendo grande.

Qual você acha que é função dos selos nesse corre todo?
Eu ainda quero entender o papel dos selos no Brasil. Alguns se preocupam em vender camisetas e bonés, outros acham que só as bandas que fazem parte do seu casting existem, e por aí vai. Nós tivemos uma experiência ruim com o primeiro disco e resolvemos lançar o segundo independentemente.


E como que as redes sociais e os serviços de streaming ajudam vocês?
São fundamentais hoje para um artista independente. Sem eles, a gente nunca teria tocado em tantos lugares do Brasil e muito menos teria saído pro exterior. A internet possibilitou que nossa música chegasse pra gente do mundo todo. Já enviamos CDs e K7s pra vários países. Fizemos shows cheios na Europa graças às pessoas que já nos conheciam das redes e acompanham nosso trampo desde que o 1943 chegou ao Soundcloud. Então, pra gente que não tem gravadora e vive dos shows, isso é ótimo.

Luiza Lian

Artista visual e cantora, Luiza Lian lançou seu segundo disco, o trabalho audiovisual Oyá Tempo, em março, pelo selo Risco.

Como é viver de música no Brasil hoje?
Eu tenho 28 anos e faço música desde os 13 ou 14 anos. Mas é muito difícil tornar a música uma coisa sustentável, na verdade, para se viver só disso. Tem que arrumar uma forma alternativa de se sustentar pra poder ser músico. Eu, no caso, além da minha carreira autoral, também faço frilas de curadoria de artes visuais e tenho uma banda de jazz com a qual toco em eventos, casamentos.

O esquema com SESCs, por exemplo, para artistas autorais é uma boa; eles pagam bem e tal, porém não é uma coisa que acontece o tempo inteiro. Por eles serem uma ferramenta importante de fomentação da cultura, existe uma lista muita grande de artistas na "fila".

No final, viver de música talvez seja algo que exija uma dedicação maior. No meu caso, acaba que o que eu ganho com o meu trabalho acaba indo quase inteiramente para retroalimentá-lo.

O que você acha que tá rolando de bom pra melhorar esse cenário?
Esquemas de patrocínio como a Natura Musical faz. Mais marcas deviam fazer, porque é um investimento que é pra todo mundo, não só pra marca, mas também pro artista e pra comunidade. Mas ainda vivemos num sistema em que apenas grandes artistas conseguem tocar na rádio ou aparecer na televisão, o que, querendo ou não, é ruim, porque acaba que as rádios tocam as mesmas músicas sempre.

Foto: Victor Dragonetti/VICE

Vitor Araújo

O pianista pernambucano de 28 anos radicado em São Paulo lançou seu último disco, Levaguiã Terê , em 2016 via Natura Musical.

Você vive só de música?
Toco meu instrumento principal, o piano, desde os nove anos de idade, mas comecei a estudar música aos oito, e vivo só de música desde que ganhei meu primeiro cachê até hoje. Pontualmente, fiz alguns trabalhos fora da música: participei do elenco do terceiro longa de Cláudio Assis, o Febre do Rato e trabalhei no Teatro Oficina na primeira temporada da Macumba Antropófaga, mas tirando essas raras exceções, meu ganha-pão vem todo do trabalho musical.

Quais são as dificuldades de se viver de música no Brasil?
No meu caso, existem dificuldades talvez um pouco específicas de se viver (ou seja, ganhar uma quantidade regular de grana) apenas do que eu gero financeiramente através das turnês dos discos. Uma delas é estar no meio de uma espécie de crossover de "prateleiras" musicais. Meu último disco, por exemplo, pode ser considerado muito próximo da música erudita para ocupar espaços da música popular e vice-versa. Talvez seja muito pop para ocupar um espaço de jazz e vice-versa. Dificulta entrar nos espaços de música alternativa/indie por ser música instrumental, etc. Isso faz com que apenas curadorias muito particulares de festivais ou coisas do tipo comprem a ideia de botar nosso show em seus line-ups.

Quais são os corres que você tem que fazer?
Sempre tive alguns corres paralelos às turnês dos meus discos para completar a grana das contas. Já fiz e ainda faço de vez em quando trilhas pra cinema (e, mais raramente, pra espetáculos de dança); já rodei muito o Brasil participando de uma banda que toca um repertório apenas de Chico Buarque, e também aparecem trabalhos fora da música vez ou outra como eu citei anteriormente (inclusive nesse exato momento estou participando do elenco de uma série dirigida pelo Hilton Lacerda).

Você sempre correu muito atrás de editais?
Nunca fui de ir muito atrás de editais como boa parte de músicos que conheço, mas já me inscrevi em alguns sim, e acabei realizando meu último trabalho, Levaguiã Terê, através de um deles, o da Natura Musical. O processo [de gravar o disco] foi muito ok, muito legal com a Natura. Na verdade, pro tipo de disco que eu me propunha a fazer, existia uma forte necessidade da aquisição de alguma forma de patrocínio, pois eu não conseguiria bancar a produção do álbum sozinho, como fiz com o A/B. Gravar com formação de orquestra sinfônica, de saída, já é muito pesado. Engraçado é que já se tem um olhar pro Natura Musical como se fosse um selo ou gravadora, e não de um edital né? Nos últimos anos, talvez tenha se tornado a maior e mais proeminente opção que os artistas independentes (iniciantes, hypados ou consagrados de gerações anteriores) buscam e desejam pra produzirem seus trabalhos. A minha experiência pessoal com eles foi muito boa: pude produzir o Levaguiã Terê no máximo do esmero e do detalhe como eu pretendia. Fiz os shows de lançamento com tudo que eu queria fazer, pianão, sonzão, luzona... Acho uma opção muito boa pros artistas — principalmente se comparado ao modelo anterior das gravadoras — pois mantém 100% da sua independência criativa, já que a Natura "compra" a ideia de disco que você defendeu na sua inscrição. Te faz ter a responsa de saber trabalhar o orçamento proposto e produzir seu disco com suas próprias pernas, e no final sua obra e todos os direitos sobre ela são seus e somente seus.

Como que é a sua relação com as redes sociais, internet e da divulgação do seu trampo?
Eu uso basicamente a fanpage no Facebook e uma conta no Twitter que tem épocas que eu movimento mais, e épocas que fico entrando bem pouco. Como se tornou praticamente o único canal de ligação com o público (rádio e TV são raridades extremas atualmente na minha vida), tento me relacionar da melhor forma possível com essas ferramentas, mas confesso não ser muito bom nisso, e faço meio obrigado. Vejo uma galera fazendo as coisas super bem na internet, gerando uma movimentação grande de público nas redes sociais, etc. Já no meu caso, eu não tenho ânsia de postar. Não uso celular há cinco anos, então acabo usando as redes sociais de forma não muito natural.

Leia também a série Radiografia Urbana, nossa outra parceria com Natura Musical sobre as cenas independentes do Brasil.

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