Todas as fotos cortesia dos entrevistados.

Ex-neonazis contam como saíram do movimento

Por mais que gostaríamos que eles desaparecessem da Terra, muitos conseguem sair e se reintegrar à sociedade.

por Mack Lamoureux; Traduzido por Marina Schnoor
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jun 29 2018, 10:30am

Todas as fotos cortesia dos entrevistados.

A extrema-direita, apesar de nunca ter sumido completamente, voltou com tudo agora.

O movimento está mais público, descarado e proeminente nos últimos anos. No mundo todo você vê marchas e nazistas se sentindo confiantes a ponto de mostrar o rosto em público. Não são forças benignas em ação, e elas tiram vidas. A Atomwaffen, uma célula terrorista neonazista, foi ligada a cinco mortes ano passado, e uma contra-manifestante foi atropelada e morta na marcha da direita em Charlottesville, nos EUA, no ano passado.

Há muitas razões para o crescimento repentino da extrema-direita: a internet permitiu que espaços neonazis como o Storm Front e o Daily Stormer prosperassem e recrutassem ativamente; a notícia que em algumas décadas os brancos não serão mais maioria nos países ocidentais alimentou o ódio; e até políticos do alto escalão já deram a entender que simpatizam com o movimento. Não há dúvida que esse tipo de pensamento voltou e não vai sumir tão cedo.

Por muito tempo, a maioria dos esforços de desradicalização acerca do extremismo focou apenas na ameaça do terrorismo islâmico. Ignorar essa outra ameaça em casa foi um grande erro. Como Heidi Beirich, diretora do Projeto de Inteligência do SPLC, disse: “não sabemos muito sobre a desradicalização desse tipo”. Ano passado, vimos alguns esforços surgirem para tirar pessoas do movimento – o Life After Hate (que teve o financiamento retirado pela administração Trump) e os programas Exit na Suécia e Alemanha, que não estão recebendo recursos suficientes. “É quase como se tivéssemos esquecido desse terrorismo que nasce aqui e que também é bem sério. Nada tem sido feito sobre isso”, Beirich disse a VICE.

Uma maneira de aprender mais sobre a questão é falando com pessoas que já tiveram essas visões de ódio. “Acho que é muito importante saber como as pessoas entram nesses movimentos. Quais são as dinâmicas sociais e familiares que levam alguns a se radicalizarem”, disse Beirich. “Você não pode prevenir a radicalização se não sabe como ela acontece, e ex-membros são uma fonte muito boa de informação sobre esses processos. São ex-membros que podem nos dar um entendimento para uma saída de sucesso.”

Como Beirich explica, conhecimento é poder quando se trata de movimentos ideológicos como esses e, sabendo como alguns desses ex-membros saíram, podemos usar isso para lutar contra a crescente guerra ideológica no nosso solo. Muitas vezes é a família ou outro relacionamento próximo que encoraja a saída. Aqui vão quatro dessas histórias:

Tony McAleer

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Nos anos 1980 e 1990, Tony McAleer foi um dos mais influentes neonazistas do Canadá – envolvido com a Resistência Ariana Branca. McAleer disse a VICE que teve uma infância relativamente normal, mas que quando as coisas começaram a dar errado em casa e na escola, ele foi mandado para um internato britânico. Na Inglaterra, McAleer foi exposto à cena punk e, por meio dela, à cena skinhead.

Sua entrada para o movimento veio depois de seu retorno ao Canadá, quando, num show do Black Flag, ele foi abordado por dois skinheads que perguntaram se ele queria se juntar ao grupo deles. McAleer disse a VICE que “para ter a proteção deles, eu precisava ter o respeito deles, e para ter o respeito deles, eu tinha que me envolver na mesma violência que eles”. Essa foi a introdução de Tony a um mundo de violência.

Durante seu tempo no movimento, McAleer foi uma figura-chave no crescimento da agenda white power no Canadá. Ele começou uma linha direta white power e um dos primeiros sites do movimento no país. “Eu já tinha visto o que a internet podia fazer e logo ficou óbvio que era ali que devíamos estar”, ele disse. Ele ligou seu grupo a outros supremacistas brancos, realizou golpes publicitários para ganhar atenção da mídia e transformou Vancouver num dos centros da ideologia. “Por um tempo, éramos os únicos skinheads em Vancouver, mas a coisa começou a crescer nos anos 80. O Nacional-Socialismo parecia a rebelião definitiva.”

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Nos anos 1990, ele começou a questionar tudo isso e planejar sua saída. “Uma das coisas mais importantes foi o nascimento da minha filha e do meu filho – mas foi um processo, não um momento. Me tornei pai solteiro quando eles tinham quatro e seis anos, o que foi minha catálise final. Na época, minha mãe tinha que levá-los para a escola, porque se soubessem quem o pai deles era, as outras crianças iam evitá-los. Eu era tão conhecido que isso estava afetando a qualidade de vida dos meus filhos, então saí”, ele disse.

McAleer chamou sua estratégia de saída de “fading”. “Eu não disse 'foda-se, tô fora'. Fui ficando cada vez menos disponível. As pessoas não viram problema porque eu tinha feito muita coisa, elas não esperavam que eu fizesse mais”, ele disse. “Por volta de 1998 ou 1999, conheci uma garota na internet. Ela era indiana e acabamos ficando. Eu sabia que fazendo isso eu estava me desprogramando – eu tinha consciência disso. Eu sabia que se fizesse isso, eu nunca poderia voltar para o movimento porque seria um traidor da raça, certo? Então fiz coisas que me impediriam de voltar como um jeito de me desprogramar conscientemente.”

Frank Meeink

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Frank Meeink é um dos mais notórios ex-neonazis americanos – sua história foi a base para o filme A Outra História Americana . Crescendo no sul da Filadélfia, Meeink foi criado num bairro pobre, filho de mãe solteira. Sua mãe acabou casando com um homem que Meeink disse ser “muito abusivo, um bêbado e viciado em drogas”, que gostava de aplicar “punições insanas”. Depois de ser expulso de casa aos 13 anos, ele foi morar com o pai no leste da Filadélfia, onde começou a frequentar uma escola predominantemente negra. Naquela escola, segundo Meeink, havia “muitas brigas – era uma escola muito bizarra de se frequentar”.

Para Meeink, sua jornada para o ódio começou com uma viagem para visitar um primo que ele admirava no norte da Pensilvânia. “Meu primo foi de punk para neonazi. Ele andava com skinheads que pareciam legais – eles tinham carros, cervejas e garotas”, ele disse. “Eu gostava de andar com esses caras. Eles gostavam de ouvir minhas histórias sobre a Filadélfia – eles nunca tinham conversado com alguém que realmente convivia com pessoas negras. Meus pais não me perguntavam como tinha sido meu dia; eles perguntavam porque eu tinha voltado correndo da escola. Eles não davam a mínima para mim. Quando esses caras começaram a perguntar sobre a minha vida, gostei muito da atenção – eu tinha 14 anos.”

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Meeink diz que ficou “completamente louco depois disso”. Ele logo se tornou um líder de um movimento local e era extremamente bom em recrutar membros. “Racismo é a maior isca já inventada”, ele disse a VICE. “Jogávamos a isca do racismo dizendo 'você quer ter orgulho da sua origem?' Mesmo a alt-right – que é um porco neonazi de batom – começa com essa linha de pensamento. Eu dizia 'venha para o meu grupo e tenha orgulho das suas origens'. Mas lá nunca falávamos de origens, falávamos sobre os outros e sobre odiá-los.”

Meeink acabou preso por sequestrar e torturar brutalmente um skinhead de uma gangue rival. A transição dele para fora do movimento veio com aquela sentença.

“Minha mudança veio com seres humanos sendo seres humanos quando mais precisei – e eles nem perceberam isso. Tinha um cara negro com quem eu jogava bola e baralho na prisão. A vida era diferente lá. Havia alguns garotos negros lá que eram foda. Tínhamos 17 anos nessa prisão de adultos, era como se John Wayne Gacy estivesse lá e tudo mais. Jogávamos bola e falávamos sobre a vida na prisão e garotas. Eles me diziam coisas legais quando as pessoas da minha gangue ariana era uns cuzões com tudo”, ele disse.

“Quando saí, foi confuso. Eu ainda era parte dos neonazistas, mas não concordava mais com as ideias. Eu tinha uma filha de alguns meses de idade quando saí da cadeia, e a mãe dela não queria ter nada comigo. Eu ainda era um líder neonazi e ela não queria a filha perto de mim.”

Com uma tatuagem de suástica no pescoço, Meeink obviamente teve dificuldade para arrumar um emprego, mas um homem judeu que tinha uma empresa de mudanças deu uma chance a ele. Meeink estava fazendo US$100 por dia – um dinheiro que mudou a vida dele na época – mas seu ódio por judeus acabava vazando para suas interações. “Eu continuava com aquele pensamento antissemita ignorante: 'Ah, ele vai me roubar, ele é judeu'. Uma vez ele chegou e me disse: 'Te devo um dinheiro' e me deu US$300 mais US$100 de gorjeta porque eu era um bom trabalhador.” Ele acabou dando uma carona para Meeink de Jersey para a Filadélfia e eles conversaram o caminho todo. “Ele estava sendo legal comigo, me dizendo para parar de me chamar de idiota. Ele disse coisas com que realmente me identifiquei. Eu nunca tinha ouvido ninguém dizer tanta coisa boa sobre mim. Eu estava lá com um cara judeu e tinha uma suástica no pescoço; não sei o que eu teria feito sem ele. Depois daquele dia, tirei meu coturno e saí de vez.”

Quando um antigo amigo skinhead foi morto, Meeink foi ao enterro, onde seus ex-amigos estavam usando todos os emblemas e fazendo a saudação nazista, para o desgosto dos pais do amigo falecido. Depois disso, Meeink foi convidado para uma festa. “Era uma armadilha. Tinha um cara esperando por mim, ele me deu um soco e começou a gritar para outro grupo me pisotear. Meus ex-amigos deram as costas enquanto eu era atacado, depois me pegaram, me jogaram de uma escada e foi isso. Na época achei que podia ter sido pior, sabe.”

Meeink, com McAleer e Angela King (outra ex-neonazi), acabaram ajudando a começar o Life After Hate. Ele também fundou o Harmony Through Hockey, que usa o hóquei para prevenir que garotos tomem as mesmas decisões que ele.

Maxime Fiset

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Para Maxime Fiset, tudo começou no final da adolescência. Ele disse a VICE que sofria bullying na escola e que algumas das pessoas envolvidas nisso eram de minorias – a raiva dele por essas pessoas acabou se transformando em crenças racistas. Enquanto trabalhava como segurança num parque no Quebec, ele conheceu um grupo de neonazistas e “percebi que não estava sozinho nas minhas ideias racistas radicais”.

Fiset fundou a Fédération des Québécois de Souche numa tentativa de unir todas as formas de nacionalismo branco. “Em 2007 me tornei um organizador do movimento, o que durou até 2012. Havia esse sentimento de pertencer a alguma coisa que eu realmente desejava; eu queria ser parte de algo. Não era ser parte de um grupo que me fez entrar para o movimento, foi ser membro de uma coisa maior.”

Fiset disse a VICE que inicialmente ficou em conflito com o que fazer com o movimento, mas pensou que “eles tinham uma energia vital muito forte que poderia ser usada para propósitos construtivos; mas só usávamos para encher a cara e brigar”.

“No meu pior ponto, eu era um supremacista branco. Eu acreditava que a raça branca era superior”, ele disse. “Em certo ponto, achei que a sociedade estava tão contaminada pelo liberalismo e marxismo que precisava ser resetada; matar todo mundo que não fosse branco me parecia lógico para nosso projeto em escala mundial. Não era algo que faríamos em pequena escala, mas achávamos que, no final, teríamos que limpar o mundo. Se você lê livros como O Diário de Turner, bom, esse é o ponto.”

As coisas começaram a mudar quando Fiset decidiu voltar a estudar, o que deu a ele espaço para reconsiderar seus pontos de vista. “[Por volta da mesma época] tive uma filha, e o movimento é muito sexista e racista, e essas não eram coisas que eu queria que minha filha aprendesse. Ficou claro para mim no momento em que o teste deu positivo que eu não criaria minha filha assim, mesmo se continuasse no movimento. Eu não estava mais andando com aqueles caras na época e ficou óbvio que eu precisava sair.”

“Levei alguns anos de estudo – por volta de 2015 – para perceber quão péssimas minhas ideias eram e o dano que elas já tinha causado. Foi aí que revelei meu passado para algumas pessoas e quando meus antigos amigos começaram a me chamar de traidor. Foi quando acabou.”

Desde que saiu do movimento, Fiset se tornou parte do Centro de Prevenção de Radicalização Violenta de Montreal. “A primeira coisa a fazer quando você tem um amigo passando por radicalização é não confrontá-lo, porque isso só fortalece as crenças dele. Na mente deles, você está errado e eles estão certos. Você precisa ouvir e fazer perguntas, perguntas abertas, primeiro para entendê-los melhor e depois para incutir dúvidas. Dúvidas são importantes porque quem é radicalizado muitas vezes não duvida de suas ideias. Se você coloca essas dúvidas, então já fez um bom trabalho”, ele disse.

Christian Picciolini

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Christian Picciolini nasceu em Blue Island, Illinois, e aos 16 anos já era um líder neonazista. Ele fundou a White American Youth e cantava na banda Final Solution, que foi bastante popular na cena de supremacistas brancos e a primeira banda skinhead americana a tocar na Europa.

Picciolini disse que sua família não encorajava o racismo, mas que ele se sentia alienado por sofrer bullying. Quando ainda era bem jovem, ele se envolveu com música white power. “Era um movimento social, uma comunidade, era um grupo de amigos, uma irmandade, tudo ligado à música que era nossa propaganda, nossa mensagem, nossa educação, nossa incitação a violência, nosso método de reunião e recrutamento. A música era o cerne da nossa propaganda, mas também o cerne do nosso movimento social.”

Aos 14 anos, ele se juntou a um grupo skinhead de Chicago quando estava fumando um beck num beco e um homem se aproximou e disse “os judeus e os comunistas querem que você use drogas para te manter dócil”. Picciolini disse a VICE que ficou impressionado com a presença do homem e “se agarrou à oportunidade de ser parte de alguma coisa”, que sua atração pelo movimento não era “sobre ideologia ou dogma, mas sobre aceitação” e que, por um tempo, ele abraçou a violência que vinha com o movimento.

“As brigas na rua eram quase diárias – atacávamos grupos ou estranhos aleatórios que não tinham feito nada. Achamos um jeito de pegar o ódio que sentíamos por nós mesmos e jogar sobre outras pessoas, completamente inconscientes de que estávamos com raiva de coisas da nossa vida de que não tínhamos controle.”

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No começo dos anos 90, a violência ficou ainda pior. Picciolini e sua gangue beberam e foram para um McDonalds, onde encontraram um grupo de adolescentes negros. “Estávamos sendo muito agressivos, e começamos a dizer coisas como 'meu McDonalds' e que eles não tinham direito de estar ali.” Enquanto alguns adolescentes fugiam e outros pareciam entrar na briga, Picciolini e seu grupo pegaram um deles e o espancaram “até o ponto que ele era apenas uma poça no chão, o rosto inchado e ensanguentado; ele não conseguia mais se mexer”, ele disse a VICE. “Em certo momento, e lembro disso muito, muito claramente – foi um momento de guinada na minha vida – ele conseguiu abrir os olhos. Eu estava chutando ele e nossos olhos se encontraram. Naquele momento, senti uma empatia por aquele cara, como se ele pudesse ser meu irmão, alguém com quem eu me importava.”

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Esse, explicou Picciolini, foi o começo de um processo de saída que levaria anos. “Comecei a me afastar. Muitas coisas começaram a acontecer por volta dessa época – meus filhos nasceram, abri meu próprio negócio [uma loja de discos white power]. Comecei a conhecer pessoas nessa loja, pessoas fora do meu movimento social – afro-americanos, judeus, gays. Num curto período de tempo, comecei a vê-los como humanos, então comecei a afastar e destruir essa demonização e ódio que eu tinha na minha cabeça.” Isso e a sensação que ele teve durante o espancamento fizeram Picciolini se afastar. Ele era um líder, e suspeita que as coisas não foram piores porque nunca treinou alguém para assumir seu lugar. “Quando saí a coisa implodiu, então nunca enfrentei uma grande ameaça localmente.”

Picciolini diz que o medo de começar de novo o impedia de agir sobre suas dúvidas. “Eu sentia vergonha, não sabia como consertar as coisas; eu estava tentando deixar tudo para trás. Eu não sabia como me separar. Tudo começou na loja de discos, onde reconheci que não queria vender música white power porque tinha vergonha disso. Tirei os discos da prateleira, que eram minha maior fonte de renda, então minha loja acabou fechando e minha esposa me deixou levando meus filhos, porque eles não eram parte do movimento. Fui dessa figura nacional muito visível para nada. Lutei por anos para superar quem eu era.”

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Ele diz que sente culpa e vergonha até hoje. “Ainda tenho muita vergonha daquele período da minha vida, e do que fiz para outras pessoas. Não só pessoas que eu considerava inimigos, mas jovens inocentes que atraí para o movimento – isso mudou drasticamente a trajetória deles, e eles podem ter acabado mortos, presos ou com a vida destruída.”

Matéria originalmente publicada pela VICE Canadá.

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