L7. Foto: Marina Chavez/Divulgação

Donita Sparks, do L7: "Esses nazis nos distraem de um quadro de destruição"

A vocalista da banda dos anos 1990 — que toca por aqui essa semana — fala sobre Trump, Bolsonaro, aquecimento global e quase ter morrido num acidente de avião no Brasil.

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30 Novembro 2018, 9:00am

L7. Foto: Marina Chavez/Divulgação

Uma das principais bandas de rock alternativo das últimas décadas, o L7 está prestes a voltar ao Brasil. Cerca de 25 anos depois de causar barulho por aqui ao lado de Nirvana, Red Hot Chilli Peppers e Alice in Chains no saudoso Hollywood Rock de 1993, o grupo de Los Angeles se prepara para uma série de shows no país no início de dezembro, que incluem datas em BH, Curitiba, Porto Alegre, RJ e SP, onde tocam ao lado de outra relíquia do rock de rádio dos anos 1990, o Soul Asylum.

De volta à ativa desde 2014, quando retornou aos palcos com o seu lineup clássico, o quarteto formado por Donita Sparks (vocal/guitarra), Jennifer Finch (vocal/baixo), Suzi Gardner (guitarra) e Dee Plakas (bateria) se prepara para lançar em breve um disco novo, o seu primeiro full desde 1999, após de soltar dois singles nos últimos dois anos – “Dispatch from Mar-a-Lago” (2017) e “I Came Back to Bitch” (2018).

Na entrevista abaixo, a vocalista e guitarrista Donita Sparks lembra como um acidente de avião no Brasil quase acabou com boa parte da cena de rock alternativo mundial em 1993, destaca o papel da Internet na volta da banda, comenta um reencontro recente com o cineasta John Waters, e diz que agora é a hora de resistência e de reclamar de políticos como Trump e Bolsonaro.

Noisey: O L7 está prestes a voltar ao Brasil cerca de 25 anos após os seus primeiros por aqui. Por isso, queria saber quais as suas expectativas para esses shows. E esperavam essa recepção por aqui tanto tempo depois? Quero dizer, vocês vão fazer uma turnê completa aqui basicamente, com um total de cinco shows no país.
Donita Sparks: Sim. Quer dizer... Nós tentamos não ter muitas expectativas porque você nunca quer se decepcionar ou algo do tipo (risos). Mas imaginamos que serão shows muito divertidos porque temos recebido muitos posts e mensagens animadas no Facebook por parte dos nossos fãs brasileiros — e eles estão super animados por nós estarmos indo. Então esperamos nos divertir, ainda que eu imagine que as viagens serão bastante pesadas, já que vamos fazer aquele lance de tocar e viajar na manhã seguinte para outro lugar. Mas acho que será excitante!

Aliás, falando no Brasil, quais as suas memórias daqueles shows de 1993, quando vocês tocaram com o Nirvana, Alice in Chains e Red Hot Chilli Peppers? Vocês até trouxeram o Ian MacKaye (Minor Threat e Fugazi), que acabou voltando algumas vezes depois com as bandas dele.
Em primeiro lugar, naquela época nós costumávamos apenas contratar os nossos amigos como roadies. Então é por isso que o Ian foi com a gente. Ele nunca tinha ido ao Brasil e nós também não, então apenas foi algo como: “Ok, legal, você pode ser nosso roadie na viagem” (risos) — então ele foi nosso técnico de guitarra. E foi uma loucura muita daquela euforia dos fãs pelo L7, Nirvana, Chilli Peppers e Alice in Chains. Foi muito louco! Nós estávamos todos em um avião da Varig que quase caiu. Então isso teria sido algo como o acidente do Buddy Holly e do The Big Bopper, “o dia em que a música morreu” (nota: o acidente de avião em questão aconteceu em 1959 nos EUA e também vitimou o cantor Richie Valens, de “La Bamba”), porque estávamos todos juntos no mesmo voo (risos). E quando eu lembro das bandas que estavam naquele avião e nós quase batemos no pouso, então isso foi um tanto interessante. O Anthony, do Chilli Peppers, foi chutar a porta do piloto quando o avião finalmente pousou. Ele deu um pontapé na porta do piloto... Quero dizer, esses eram os bons tempos, quando você podia chutar a porta do piloto (risos). Mas é, foi uma loucura, os fãs foram incríveis — e eles nos seguiram como se nós fôssemos os Beatles durante o final de semana (risos). Então foi uma experiência interessante — e muito divertida.

Voltando aos shows, vi alguns vídeos recentes da banda e parece que vocês estão soando ainda melhores e mais pesadas do que nos anos 1990. Como foi voltar a tocar com a banda após tanto tempo?
Tem sido muito bom, nos divertimos bastante. Estamos fazendo músicas novas, estamos no estúdio agora. Nós meio que nos reunimos, mas não fizemos músicas novas. E então estávamos nos divertindo tanto que pensamos: “Ei, se quisermos continuar fazendo isso, precisamos fazer um disco novo ou algo assim”. Então agora estamos fazendo um disco novo porque queremos continuar fazendo isso, porque é realmente divertido e nós gostamos da música que tocamos. E somos a única banda que pode tocar dessa maneira, sabe? Nós nos divertimos bastante, então não estamos fazendo isso por dinheiro. E, ao mesmo tempo, acho que é legal para pessoas mais jovens verem o L7 porque acho que somos meio que únicas. Acho que os jovens talvez não tenham o nosso tipo específico de banda. Algumas pessoas nos veem como exemplos ou qualquer coisa do tipo — e não sei se mais alguém preenche essa posição específica como nós fazemos. Quero dizer, há outros modelos a serem seguidos, é claro, para os jovens, mas o L7 é uma receita bastante específica, sabe? Nós temos humor, mas também temos raiva. E nós temos algo meio “grudento”, mas também temos peso. Músicas rápidas e músicas lentas. Então nós temos uma receita específica que não foi duplicada porque isso não pode ser feito. Então achamos que é legal para os mais jovens assistirem aos nossos shows. Porque não somos realmente uma banda enorme, nunca vendemos muitos discos, então aqui estamos nós mais uma vez. E você pode nos ver — em algumas semanas, no Brasil (risos).

E esse tipo de “vibe” sem pressão foi a razão pela qual vocês escolheram fazer o disco novo por meio de uma campanha de crowdfunding, em vez de fazerem com uma gravadora tradicional como a Sub Pop e a Slash, o tipo de gravadora em que vocês estiveram antes, por exemplo?
Hmm, ninguém nos queria. Então fomos até os nossos fãs, que nos querem. E é assim que estamos fazendo isso. Agora, como a campanha de financiamento foi muito bem, algumas gravadoras estão interessadas. Mas estamos trabalhando para ir com alguém que conhecemos há muitos e muitos anos, e será muito excitante quando anunciarmos com quem estamos assinando. E é muito legal. O L7 sempre foi a banda que, mesmo anos atrás, não havia uma “guerra de lances” pela gente. Ninguém queria, ninguém era corajoso o bastante para assinar conosco nos anos 1990. Então aqui estamos nós mais uma vez, a mesma coisa de sempre. Apenas pensamos em um modo de fazer as coisas acontecerem, de qualquer maneira. Por isso, fomos diretamente aos fãs, que é para quem fazemos música — para eles e para nós. Então é isso que precisamos fazer. Se isso fizer sentido, eu não sei.

Neste tempo que o L7 ficou parado, muita coisa mudou no mundo, especialmente no meio digital — internet, smartphones, redes sociais e etc. Essas coisas influenciam a forma como os artistas se comunicam com os fãs. Você vê essas mudanças como algo positivo ou negativo?
Para nós, é muito mais positivo. Porque nós já tínhamos uma base de fãs antes da internet — e essa foi apenas uma maneira para eles se reconectarem. E foi também provavelmente uma das razões pelas quais nos reunimos. Porque eu criei a nossa página no Facebook e ela explodiu. E há tantos fãs que ainda estavam por aí. E eles também falaram sobre nós para os seus filhos e irmãos mais novos. É uma maneira de nos comunicarmos com os nossos fãs. Temos muita sorte porque já tínhamos uma base de fãs. Para uma banda nova, eu não sei como eles passam por todo o ruído. Mas para nós, foi apenas uma maneira de nos reconectarmos facilmente com uma base de fãs que já existia. E se não tivéssemos a Internet, isso nunca teria acontecido, sem chance. Por isso, somos muito agradecidas pela sua existência (da internet).

Voltando ao Brasil. Acho que você já deve ter ouvido falar sobre o nosso novo presidente, Jair Bolsonaro, que costuma ser descrito como um “Trump tropical”. Nos tempos atuais, em que temos um movimento conservador avançando pelo mundo, pensa que se tornou talvez mais importante para os artistas se expressarem e se posicionarem sobre esses assuntos? Por exemplo, o caso Roger Waters aqui no Brasil.
Acho que é importante que os artistas criem arte, o que quer que seja. E se parte do seu repertório for cantar sobre política, isso é ótimo. Caso não, nem todos precisam fazer uma música de protesto político, sabe? Por exemplo, se você é ótimo com músicas de amor, por que iria querer escrever sobre algo feio como o Trump, sabe? (risos) Se você escreve e canta sobre coisas bonitas, por que iria querer pegar essa estrada feia? Então nem todo artista precisa fazer isso. Mas acho que é importante para todos os cidadãos, sejam artistas ou não, fazer algo em nome da resistência — independente se for escrever uma música, fazer algum tipo de trabalho voluntário ou ir para as ruas protestar. Todos deveriam estar em alerta máximo agora porque, no final das contas, esse planeta está com problemas realmente horríveis, em termos ambientais. É como se tivéssemos todas essas outras distrações com esses seres repugnantes no poder, mas... E também é parte da realidade deles que as pessoas não estão falando realmente sobre o meio ambiente. Não importa se o Trump está no poder ou não se o planeta todo está sendo destruído, sabe? Esses nazis são uma grande distração para o quadro ainda maior, que é o nosso planeta estar em uma situação terrível. Não sei se isso faz algum sentido. Mas sempre existirão pessoas loucas, é apenas lamentável que elas tenham sido eleitas. Porque isso reflete uma cultura, que está em perigo. Não é o seu presidente, ou o nosso presidente, mas as pessoas que votaram neles, isso que é realmente assustador. Então, de qualquer forma, eu não sou uma política nem uma socióloga (risos). Eu apenas escrevo algumas músicas. Mas nós escrevemos algumas músicas, temos uma faixa chamada “Dispatch From Mar-a-Lago”, que saiu no ano passado. E também lançamos recentemente uma música chamada “I Came Back to Bitch” (algo como “Eu Voltei para Reclamar”, em tradução livre), que diz tudo. Com certeza, agora é a hora de reclamar, todo mundo deveria estar reclamando agora sobre essas pessoas.

Apesar da ascensão dessas figuras de extrema direita, também é fato que hoje em dia fala-se muito mais sobre feminismo, igualdade, privilégios e coisas do tipo. Por isso, queria saber se você sente que hoje é mais fácil — ou menos difícil — ser uma mulher na cena do rock/metal? O mundo mudou para melhor neste sentido?
Bom, é curioso. Recentemente temos recebido convites para tocar em festivais de metal, o que é realmente ótimo. Mas não estamos recebendo ofertas de festivais de rock alternativo, o que é muito confuso para nós porque é de onde viemos. Não sei a razão disso. Você nunca sabe se é machismo ou qual o problema, sabe? O que eu tenho notado é que quando é anunciado que o L7 estará em um festival, nós recebemos muita cobertura da imprensa sobre o festival — e, mesmo assim, não somos headliners do festival. A nossa posição na escalação se reflete no nosso cachê — ainda que a gente receba muita cobertura da imprensa. Então estou começando a me perguntar por que isso acontece. Se estamos recebendo a cobertura da imprensa para o festival, então talvez o nosso cachê deveria ser maior. Ou se estivermos preenchendo uma posição de mulheres do festival porque não há muitas mulheres no festival, então talvez a gente devesse receber um valor “pussy premium” por isso (risos). É tipo: “Ah não, o nosso festival não é apenas um monte de caras, nós temos o L7 no lineup”. E é algo como: então talvez isso deva te custar mais no futuro, para ter um “pussy premium” no nosso cachê. Então isso é algo que estamos começando a cogitar, talvez tenhamos uma conversa com o nosso empresário sobre isso em breve (risos).

Aproveitando que você falou sobre as cenas de metal e de rock alternativo. O L7 sempre foi uma relacionada com cenas diferentes, como grunge e riot grrrl, além de terem tocado em diversos eventos de metal mais recentemente. Por isso, queria saber se você se identifica mais com alguma cena ou banda em especial?
Hmm, nós somos o nosso próprio lance. Não somos de Seattle, mas de Los Angeles, apesar de termos feito parte da Sub Pop. E nós não somos “riot grrrls”, somos uma banda punk — de L.A. O riot grrrl foi meio que iniciado no campus de universidades, e eu nem fiz faculdade (risos). Eu sou da cidade. Nós nos identificamos com bandas que são rebeldes, que lutam contra a autoridade — e que também usam humor enquanto fazem isso.

Vocês participaram de um filme já clássico do John Waters, Serial Mom ( Mamãe é de Morte, no Brasil), em que aparecem como uma banda chamada Camel Lips. Como foi reencontrá-lo recentemente, já que vocês tocaram no aniversário dele em Detroit em abril deste ano?
Bom, foi realmente ótimo porque não falávamos com ele há muito tempo. E foi um encontro muito legal, poder vê-lo novamente, conversar. E ele é muito engraçado, nós nos damos muito bem. Então isso foi divertido. E o público era realmente ótimo, porque eram todos grandes fãs do John Waters e também do L7. Então era esse público realmente divertido. Foi ótimo.

Sempre faço essa pergunta. Por favor, me diga três discos que mudaram a sua vida e por que eles fizeram isso?
Três? Ah, cara, esse é o tipo de pergunta que gosto de ser avisada um pouco antes. Qual é, você conseguiria responder isso (risos)? Mas ok, vamos lá. Vou dizer o Rocket to Russia (1977), dos Ramones, porque mesmo sendo o terceiro disco da banda, eu não tinha escutado os dois primeiros. Então o Rocket do Russia, dos Ramones. Hmm, também vou dizer o Hot Rocks (1971), dos Rolling Stones, que era uma coletânea que eu tinha quando era criança e ouvia o tempo todo. Eu amo os Stones. E então vou dizer o primeiro disco do B-52s (de 1979). Porque os B-52s são muito “groovy”, “grudentos”, divertidos. E eles eram muito únicos quando surgiram — assim como os Ramones.

Essa é a última pergunta. Do que você tem mais orgulho nesses mais de 30 anos de carreira?
Mais orgulho? Hmm (risos)! Eu tenho mais orgulho de quando ouvimos histórias de pessoas sobre como a nossa música lhes deu forças de algum modo em um momento difícil da vida delas, isso é incrível. Se as ajudamos a diminuir as suas dores quando eram adolescentes, porque os jovens passam por muitas dores.



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