saúde mental

Um relato honesto sobre ter fobia social

A médica disse aos meus pais que eu era “socialmente incompetente”.

por Isabella Luiz
18 Janeiro 2019, 9:00am

Foto via Flickr

Fui diagnosticada com depressão e ansiedade generalizada aos oito anos. Na época, os familiares pouco sabiam sobre, e eram doenças de “doido”. Havia sido vítima de abusos na infância, não conseguia externar para família e mesmo com o acompanhamento médico, a sensação de culpa me perseguia e me impedia de falar.

Dei início ao tratamento psiquiátrico e psicológico e consegui, na medida do possível, ter uma “vida normal”. Não lembro ao certo quando comecei a sentir angústia, mas lembro de episódios mais recorrentes ao fim do ensino médio, aos 16 anos.

Ela vinha quando eu pensava em sair de casa. Era acometida de uma ansiedade gigante, que me esgotava, me fazia suar frio e querer dormir. A ideia de sair, pegar um ônibus e ir à lugares desconhecidos me fazia correr pelos corredores com crises de pânico. Por pouco não concluí o ensino médio pela ausência de frequências.

"Comecei e abandonei a faculdade mais de seis vezes"

Comecei e abandonei a faculdade mais de seis vezes; larguei o conservatório; o curso de audiovisual; o técnico em radiologia por não conseguir me concentrar, por ter ataques de pânico durante o trajeto de ônibus, por medo de perder o controle sobre meu próprio corpo e acabar ficando “louca”, por receio do julgamento dos outros a respeito de mim. Não entendia que estava com outros problemas além da depressão e da ansiedade. Meu corpo mandava recados e eu não soube compreender. Tive certa resistência em procurar novamente ajuda médica, por medo de ser motivo de “chacota”, piada, pelo estigma de quem faz tratamento com psicólogo ou psiquiatra.

Depois de uma segunda tentativa de suicídio, logo depois de sair do hospital psiquiátrico, fui diagnosticada com fobia social. A médica que me atendeu disse aos meus pais que eu era “socialmente incompetente”, que não adiantava me pressionar a prosseguir com a universidade ou com qualquer outra coisa se não fosse feito um tratamento ou uma internação.

Situações simples me causavam um incômodo e desconforto desproporcionais. Queria voltar para casa, me sentir segura. Interagir com pessoas me fazia entrar em pânico. Alguns se afastaram por não conseguirem compreender meu estado e fui afundando mais e mais, até chegar ao ponto de não sair de casa durante muitos meses. Escutei inúmeras vezes que era frescura, preguiça, que eu precisava sair da minha zona de conforto. Um comentário em especial me fez pensar bastante, “é tudo coisa da sua cabeça”. Realmente era, mas refletiu no meu físico. Engordei, tive queda de cabelo, febre, convivi com dores de estômago frequentes, a insônia causada pelas crises me provocou acne, minha autoestima foi massacrada. Fora os efeitos colaterais das medicações, como visão turva, náuseas constantes, tonturas, sonolência, boca seca, aumento do apetite, cãibras musculares, fraqueza. Uma longa lista em prol do tratamento e da minha melhora.

"Engordei, tive queda de cabelo, febre, convivi com dores de estômago frequentes"

Foi no início dessa fase extremamente delicada que fui submetida ao abandono, ao questionamento pessoal. A vida segue, as pessoas estão sempre apressadas e eu havia parado no tempo. A medicação fez efeito depois do primeiro mês, mas sair continuava difícil. Uma amiga vinha me buscar e me levava para passar um fim de semana na casa dela, saía de casa para dar uma volta no quarteirão. Com o tempo comecei a encarar as paradas de ônibus, conseguia chegar na estação apesar das lágrimas e do suor que empapava as roupas. Não foi fácil, não foi de uma hora para outra, foi preciso querer também, mas nem sempre na hora que os outros queriam.

Falar ainda é complicado, mas escrever me ajudou nessa parte de comunicação. Hoje saio na rua, mas ainda sinto medo, ansiedade, tremor. Estou reconquistando o espaço que perdi, voltando a fazer coisas que amava e que me faziam bem. Um processo lento, mas firme. Mudanças repentinas não funcionaram para mim. Em março desse ano vai fazer dois anos da minha melhora mais significativa, dois anos em que consegui enfrentar a doença e retomar minha autonomia. Voltei a trabalhar, tentarei ingressar na faculdade e a levar a vida adiante do meu jeito. “É tudo coisa da minha cabeça”, sorrio e limpo o suor da testa. O metrô está cheio, o caminho é longo, o mundo vai acabar, mas vai ficar tudo bem.

É difícil viver quando você não possui controle sobre seu corpo, sobre as reações ao ser exposto a certos tipos de situações. Há dias em que fico na expectativa de algo desmoronar, mas a noite chega e ainda estou intacta. Estou acostumando com o fato de que minha maior preocupação é uma pilha de coisas pra fazer no trabalho e não a dúvida de ser capaz de sair de casa na manhã seguinte. Dias atrás alguém me fez uma pergunta anônima: “Como foi superar a fobia social, como você conseguiu?"

Ao tentar respondê-lo fiz o mesmo questionamento a mim. Comparo a minha recuperação com a situação de sofrer um acidente e necessitar de reabilitação, trabalhar o corpo para reaver a autonomia de antes. Se você sofre de alguma doença psicológica, é necessário que seu corpo aprenda a reagir a determinadas situações que dão medo, ansiedade, infelicidade. E a única forma de fazer isso é estando em conflito com esses momentos, enfrentando esses sentimentos mesmo que eles pareçam mais fortes ou impossíveis de serem superados.

São 17 anos com depressão, sete com fobia social. Depois de algum tempo, de inúmeras tentativas e tratamentos, havia acostumado com a ideia de não haver cura, de não haver possibilidade de me estabilizar. Hoje essa sensação ainda surge em momentos em que o desânimo e a melancolia me atingem com mais força, são dias comuns, dias onde ainda continuo lutando contra e pelo meu corpo, combatendo o medo com a vontade de dar certo, mesmo que pareça que sou uma farsa.

A escrita em todo esse processo esteve presente não como escapismo, mas sim como a ferramenta que me ajudou a externar várias coisas que não entendia e que pessoas que estavam ao meu redor também não. Foi onde encontrei também uma forma de ressignificar anos de sofrimento, transformando minha experiência em algo que pudesse ajudar pessoas que sofrem do mesmo e se sentem incompreendidas. Há sim esperança, há uma forma de encontramos a felicidade, mas sem parecermos viciados em estarmos imersos nela.

Acredito que grande parte dos problemas surge do fato de não termos o hábito, nem a iniciativa de voltarmos para o nosso interior e buscarmos um entendimento real do que sentimos, pensamos e agimos. Continuamos buscando uma felicidade utópica e bela o suficiente para caber numa tela de celular, continuamos procurando o prazer rápido e o retorno instantâneo e desistindo de compreender nós mesmos e os outros. Continuo vivendo um dia de cada vez, me dando a chance de seguir com a melhora, mas também de recair de vez em quando.

Nada é milagroso, nada é fácil, nada é de imediato, é preciso construir o apoio e a força, é nisso que acredito. O primeiro passo é dar o primeiro passo, mesmo que pareça ser um passo para trás, pois todo passo é o começo de um caminho para algum lugar.

A Isabella é recifense, escritora, roteirista e criadora da revista digital Fale Com Elas. Siga-a no Twitter.

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