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Trabalhadoras sexuais brasileiras usam conta no Twitter para denunciar clientes problemáticos

A conta GP Guia Delas é um dos poucos canais virtuais para a troca de informação entre garotas de programa sobre clientes, calotes e golpes.

por Marie Declercq
09 Janeiro 2019, 9:00am

Crédito: Igor Starkov via Unsplash

“Bom dia, meninas. Esse mês de Janeiro tá foda, só sem noção. A chatice da vez comigo é o porque não tenho local e porque não faço no pêlo? Nem respondo, dou block,” escreve uma das dezenas de mulheres espalhadas pelo Brasil pertencente a um grupo fechado de Whatsapp de garotas de programa. A premissa do grupo é simples: denunciar homens que faltam com o respeito em atendimento, aquele que deu calote, os que só querem mandar foto de pinto e caras que marcam programa e nunca comparecerem, entre outras dores de cabeça. Muitos prints de conversas de WhatsApp não ficam só restritos ao grupo e acabam sendo postados no Twitter na página GP Guia Delas, um dos poucos canais de troca de informações entre trabalhadoras em atividade.

A internet sempre andou de mãos dadas com o trabalho sexual no mundo inteiro. E não estou falando apenas de pornografia. Com o fácil acesso e comunicação, trabalhadores sexuais podem trocar experiências, se conhecer e estabelecer um canal de comunicação para conseguir se proteger de clientes que podem representar riscos ao trabalhador. O Tumblr, antes da sua morte definitiva ao banir qualquer conteúdo pornográfico, era um dos mais populares entre trabalhadoras sexuais, mas quem realmente leva o posto de melhor ferramenta de trabalho é o Twitter, por permitir conteúdo adulto e facilitar o compartilhamento de anúncios.

Apesar da existência quase jurássica de fóruns brasileiros como o GP Guia e o GP Face, onde clientes avaliam atendimento de trabalhadoras sexuais, não existem muitos canais de trocas de informação entre as trabalhadoras. O GP Guia Delas é quem está prestando esse serviço.

“Criei a página porque estava de saco cheio”, conta a criadora da página e administradora do grupo de WhatsApp, Tati Mulata, que trabalha como garota de programa há oito anos. “[Criei] por conta de cliente ficar enchendo o saco, ficar dando balão, ficarem irritando com muita frequência, pegar o seu endereço e não vir e passar mais uns 15 dias e fazer de novo. Eu vi que eles faziam isso com quase todas as minhas amigas, com muita frequência.”

A página agora tem um pouco mais de um ano e tem quase seis mil seguidores, a maioria trabalhadoras sexuais, contas destinadas à divulgação de anúncios e clientes. Grande parte dos posts são prints de conversas no WhatsApp denunciando comportamentos indevidos de homens ao contratar os serviços delas. Das reclamações mais comuns são trotes, clientes que marcam horário e não aparecem, falta de respeito, ameaças e calotes.

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Prints retirados da página @GuiaDelas no Twitter.
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Prints retirados da página @GuiaDelas no Twitter.

Foi um homem da cidade de Tati, inclusive, que motivou o modus operandi de expor telefone e foto em público. “Tinha um cara na cidade que (...) estava acostumado a fazer isso com novatas. Marcar programa e não pagar. (...) Pelo que sei, ele levava as meninas no motel e na hora de pagar falava que tinha que sacar dinheiro e deixava a menina esperando na frente do banco. Teve uma outra que ele falou que só tinha cartão, sendo que ela avisou que não tinha máquina e ele não pagou.”

Cansada de ver o homem tirando proveito de novatas, Tati reuniu todos os prints e depoimentos das mulheres, abriu um grupo de WhatsApp com ele e todas as vítimas e postou as fotos das conversas e do número dele no Twitter. Deu certo, ele desapareceu. “O cara ficou em pânico, porque ele é casado e dono de imobiliária. (...) Não tivemos mais notícias. Que ele levou uma boa lição, levou.”

Após a exposição do cliente caloteiro, Tati não parou mais de receber mensagens de outras trabalhadoras do ramo. “As meninas começaram a me chamar no DM e mandar prints de ameaças, etc. A página foi crescendo e fomos vendo que alguns clientes faziam mil coisas e a página foi criando uma repercussão grande no Twitter. Tanto as meninas quanto os clientes estão apoiando bastante. Tem coisas que elas mandam que eu fico bem assustada, bem graves.”

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Prints retirados da página @GuiaDelas no Twitter.
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Prints retirados da página @GuiaDelas no Twitter.

Vale dizer que o motivo principal da página não é humilhar homens, mas sim avisar outras mulheres sobre o comportamento indevido de clientes ou potenciais clientes. “Antes eu não sabia com quem eu saia”, conta Larissa Pardo, que mora e trabalho no Pará. “Hoje, com a internet, Whatsapp, tenho um pouco mais de segurança em saber quem vou atender e também posso bloquear e me livrar de furadas.”

Quando o homem é exposto no grupo, seja por calote ou falta de respeito, muitas mulheres negam atendê-lo. “As meninas que são da mesma cidade que os caloteiros acabam bloqueando o número deles pra evitar passar pelo mesmo transtorno,” explica Larissa.

Após saber da reportagem, Tati me colocou no grupo privado onde pude perguntar abertamente para as integrantes as mensagens mais chatas que receberam durante o dia. Com bom humor, muitas mandaram áudios e mensagens listando as mensagens mais chatas.

“Detesto quando mandam nudes,” afirma Larissa. “Eu já percebi que para eles é excitante se exibir e que eles esperam elogios. Acredite, tem vezes que até mandam nudes da internet, coisa sem noção mesmo.”

A tara de receber fotos ou conteúdos da trabalhadora sexual também é um pedido constante de homens que entram em contato, segundo elas, a maioria não quer programa e sim se masturbar. ”Às vezes pedem até para mandar as mesmas fotos que estão no anúncio, ou seja, querem o prazer de receber fotos por Whatsapp”, conta.

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Prints retirados da página @GuiaDelas no Twitter.
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Prints retirados da página @GuiaDelas no Twitter.

Outra reclamação comum são caras que vivem pedindo desconto ou reclamando que achou outra garota de programa que faz mais barato. “Pediu desconto, risco da lista”, diz uma das membras do grupo.

Samy Mestiça, do estado de São Paulo, endossa a reclamação. “Um cliente respeitoso pergunta qual o valor. Não pede desconto, pois é um serviço, e ninguém pode sair colocando preço no nosso trabalho ou desmerecer. Não pede foto, pois já viu no site. Um cliente que respeita nosso trabalho é aquele que se não pode ir, desmarca, se preocupa, afinal como disse, é um trabalho!”

Além do desconto, tem a tática do elogio. “Esses caras que ficam de mimimi de ‘ai você é linda e maravilhosa’, toda essa mimizeira é só pra te comer de graça. A gente não é imatura, eles subestimam nossa inteligência. Eles acham que só a mãe deles fez eles espertos, mas é o dia inteiro isso nesse Whatsapp. Meu, vem pra real cara, eu gosto do seu dinheiro. É lógico que tem cliente que a gente adquire um carinho, mas esses caras subestimam a inteligência da gente,” reclamou em áudio Maddu Albuquerque da região do ABC em São Paulo.

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Prints retirados da página @GuiaDelas no Twitter.
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Prints retirados da página @GuiaDelas no Twitter.

No chat privado, Maddu conta que já negou dois clientes por causa da troca de informações no grupo. “Sempre estou de olho! Isso de denunciar esses caras é ótimo.”

Com um sotaque paraibano forte, Ruth Kell explica via áudio outro tipo de atitude chata de homens que mandam mensagem. “E os que entram em contato com o prefixo lá da caixa prego, onde Judas perdeu as botas, perguntando o valor dos seus serviços. Puta que pariu, tu num tá nem na cidade da GP e quer saber o valor. Ah, ranço.”

Como esperado, grande parte do tempo que as GPs gastam no WhatsApp é com homens que não querem de fato contratar serviços, mas sim conversar ou tentar tirar alguma casquinha delas. Isso quando não querem pedir mais privilégios ao vivo, como mais tempo sem pagar ou transar sem preservativo (algo impensável para todas elas). “Eles fecham comigo, e aí querem exceder o tempo combinado por ‘sentirem que estou curtindo muito’. Agora, o mais bizarro é isso. [Samy me manda um print no privado]

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Print enviado pela Samy de um dos vários homens pedindo programa sem preservativo.

“Tento ser educada ao máximo, mas às vezes tenho que baixar a louca. [Ele] colocou o preço e ainda pediu algo surreal,” reclama.

Outra usuário do grupo, que não vou citar por motivos de segurança, relatou que um cliente está a perseguindo ao vivo por dias. Ela pretende ir o mais breve possível para uma delegacia prestar queixa. Já outra relata de um cara que está espalhando o Twitter dela entre grupos para intimidá-la.

“(...) Aqui a cultura é de que a mulher deve respeito ao homem sob qualquer coisa. Então, acho que estamos muito longe de sermos respeitadas. Tanto mulher como GP”, diz Samy. “Estamos impondo respeito até mesmo para as pessoas que nos contratam. As pessoas não entendem que isso é um hobbie que paga bem. É muito mais aceitável que você dê de graça do que cobrar por sexo. Ainda falta muito para chegarmos lá,” complementa Larissa.

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Prints retirados da página @GuiaDelas no Twitter.
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Prints retirados da página @GuiaDelas no Twitter.

Embora prestar serviços sexuais não seja proibido por lei, Tati relata que é muito difícil contar com a polícia quando elas passam por embaraços com clientes. Embora ela nunca tenha passado por situações assim, sabe de relatos de amigas. “Eles até dão uma dura, mas dificilmente fazem o cliente pagar. O prejuízo sempre fica pra gente”. Por conta disso, e também dos desrespeitos, a administradora da página acredita que seja a causa das trabalhadoras estarem mais unidas para evitarem passar por esses riscos.

“Antigamente tinha muita concorrência [entre as trabalhadoras], pelo menos na minha cidade. (...) Depois a gente ficou mais unida e até mesmo rola de atendermos juntas no mesmo local. Antes isso não acontecia, porque uma tinha medo de perder cliente para amiga. A gente agora está mais próxima, conseguimos nos defender mais. Só que não vou negar que às vezes temos um taser ou spray de pimenta na bolsa. Mas estamos mais juntas e mais prestativas umas com as outras.”

“O grupo do Guia Delas foi algo que somou muito, na minha opinião, pois até então eu não via a possibilidade de ter amizade com outras meninas. Eu aprendi muito com elas e me tornei bem mais segura quanto ao que faço. Até eu tinha preconceito com o que eu fazia. Imagina que louco? (...) Quando nos unirmos, nós teremos poder sobre nosso negócio e diminuiremos o número de aproveitadores, sem dúvidas,” finaliza Larissa.

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