Drogas

Só quando parei de beber que percebi como goró faz mal

Talvez a gente precise mesmo de fotos de fígados com cirrose nas garrafas de gin.

por James Wilt; Traduzido por Marina Schnoor
22 Janeiro 2018, 10:00am

Foto via Wikipedia Commons | design gráfico por Noel Ransome.

Texto originalmente publicado na VICE Canadá.

Duas semanas atrás, muito apropriadamente às 4h20, terminei minha última garrafa de gin. Espero que para sempre.

Consumo exagerado de álcool é um problema antigo para mim. Ano passado, eu estava gastando uma quantia obscena de dinheiro com álcool – algo entre US$7 e US$15 por dia [entre R$ 21 e R$ 45], dependendo de onde e o que eu estava bebendo – e esforços meia-boca para perder peso estavam sendo seriamente minados pelo número de calorias vazias que ingeria junto com a bebida. Além disso, acordar de ressaca mais dias do que sem não era exatamente uma boa sensação.

Um aplicativo no meu celular me diz que no curto período que parei de beber diariamente, já economizei quase US$100 [cerca de R$ 300]. Mas uma série de sintomas de síndrome de abstinência – incluindo pesadelos vívidos, fadiga extrema e oscilação de humor – me levaram a olhar mais de perto os impactos do consumo regular de álcool na saúde de alguém.

Sim, tem muitas pesquisas sobre isso por aí: só nunca tirei um tempo para lê-las. Talvez eu estivesse com medo do que poderia encontrar.

E devia temer mesmo.

Você poderia pensar que os governos, que regulam e taxam pesadamente a indústria do álcool, informariam o público sobre os riscos da bebida para saúde. Acontece que eles em grande parte abdicam desse papel, deixando os fabricantes de álcool estabelecerem seus próprios termos.

“O governo tem mais responsabilidade que a indústria de bebidas em não informar os consumidores”, disse Timothy Stockwell, diretor do Instituto de Pesquisa de Uso de Substâncias canadense e professor de psicologia da Universidade de Victoria, em entrevista à VICE. “Um dia vai acontecer, como aconteceu com o tabaco, e os cidadãos irão processar o governo canadense por não exigir que eles sejam informados sobre os riscos provados para sua saúde e bem-estar.”

"Segundo David Nutt, abuso de álcool é mais prejudicial para o usuário e a sociedade que qualquer outra droga, incluindo heroína e crack."

Os canadenses gastaram US$22,1 bilhões em álcool ano passado. O álcool matou 5.082 canadenses em 2015. No total, algo em torno de 77 mil pessoas foram hospitalizadas por beber em 2016 – por cirrose, síndrome de abstinência, transtornos e muitos mais – mais do que por ataque cardíaco. Mais de 200 doenças e condições de saúde estão ligadas a beber, incluindo depressão, derrame e doenças cardíacas. Quando se trata de prevenção de câncer, não há “limite seguro” para o consumo de álcool.

Segundo um estudo de 2010 do lendário neuropsicofarmacologista David Nutt, abuso de álcool é mais prejudicial para o usuário e a sociedade que qualquer outra droga, incluindo heroína e crack. Esses impactos se manifestam mais lentamente que outras overdoses, ainda assim são resultado direto de abuso crônico de uma droga.

Minha ignorância sobre os danos da bebida à minha saúde não é particularmente anômala. Stockwell disse que só 25% dos canadenses que bebem estão conscientes da relação do álcool com câncer ou diretrizes de segurança para o consumo (10 doses para mulheres por semana com menos de três doses por sessão, 15 doses por semana para os homens com apenas quatro doses por vez – e dois dias por semana “de descanso”).

“Muitas vezes, as pessoas não sabem os verdadeiros danos do álcool, elas ouvem alguma coisa aqui ou ali mas não sabem quão concretas sãos as evidências sobre o álcool”, acrescenta Jenna Valleriani, consultora estratégica do Canadian Students For Sensible Drug Policy e especialista em políticas de cannabis, numa entrevista à VICE.

Segundo especialistas, isso se deve quase inteiramente a falta de decisão política do governo canadense – incluindo não exigir avisos como os de cigarros em garrafas e latas, ou embarcar numa campanha de marketing negativo nacional, ou restringir como a indústria de álcool pode fazer publicidade. Mas quando eles lucram US$6,1 bilhões por ano com o produto, talvez estejam menos inclinado a criticá-lo.

Ann Dowsett Johnston, jornalista e autora de Drink: The Intimate Relationship Between Women and Alcohol, disse numa entrevista à VICE que há três fatores principais influenciando como as pessoas bebem: marketing, preço e acessibilidade. Cada política varia muito entre as províncias canadenses. Mas Stockwell disse que além de implementar algo como um preço mínimo ligado à força do álcool – que mostrou que um aumento de preço de 10% resultaria numa queda de 22% nas compras de cervejas com alto teor alcoólico durante um estudo de 2012 – o público precisa ser mais conscientizado sobre os riscos de saúde.

Rótulos com alerta em garrafas e latas, como aqueles que vêm nos maços de cigarros, são um bom começo do ponto de vista de redução de danos; mesmo que não haja uma ligação estabelecida entre aumento de conscientização e largar o vício, isso pode iniciar uma taxa mais alta de “intenção de largar” – um primeiro passo importante do processo.

Mas isso é baseado numa pesquisa sobre o sistema de rótulos de alerta dos EUA, que Stockwell disse ser “bastante discutível porque os rótulos são muito ruins”. Introduzidos em 1988, o Ato de Rotulação de Bebidas Alcoólicas exige que um pequeno rótulo preto e branco informe os usuários dos riscos de beber e transtornos fetais do espectro do álcool; fatos que a maioria das pessoas conhecem.

Então, pela primeira vez no mundo, o instituto de Stockwell e a Saúde Pública de Ontário colaboraram em novembro passado para colocar adesivos informativos coloridos e bem posicionados em todas as garrafas e latas numa loja de bebidas em Whitehorse, Yukon. Os adesivos incluíam gráficos que informavam os usuários da relação provada entre álcool e câncer, além das diretrizes de uso seguro mencionadas acima.

Mas apenas um mês depois, o governo de Yukon suspendeu o estudo por pressão da indústria do álcool, que incluía alegações de difamação.

“Fomos criticados por não consultar a indústria”, disse Stockwell. “Bom, sabemos que é assim que eles se comportam. Nosso estudo nem teria saído do papel se tivéssemos consultado eles. Eles teriam ido imediatamente até os ministros relevantes e receberíamos ameaças na hora. Eles sequer teriam considerado o projeto.”

Essas mesmas forças ajudam a manter o que os críticos descrevem como regulamentações voluntárias incrivelmente fracas para propagandas de álcool – uma situação muito bem parodiada por um episódio de 2014 de South Park. E Valleriani diz que o marketing e licenciamento de álcool estão cada vez mais relaxados enquanto o Canadá se prepara para a legalização da cannabis, apontando outdoors gigantes nas principais avenidas de Toronto, novas “lojas pop-up” da LCBO e o recente “A Very Mommy Wine Festival” em Toronto como exemplos.

“Se alguém tentasse fazer um festival chamado 'Cannabis Mom', haveria um protesto enorme”, disse Valleriani. “Todo mundo gosta de uma cerveja ou uma taça de vinho aqui e ali. Por causa disso, não vemos o álcool pelo que ele realmente é. Com a cannabis legalizada, isso podia nos dar uma oportunidade para nos afastarmos um pouco e perceber como pensamos sobre o álcool. E talvez seja hora de sermos mais severos com o álcool por causa de seus conhecidos danos para a saúde.”

No final das contas, isso pode exigir a derrubada do que Johnston chama de cultura “alcoogênica” ou “alcoolcêntrica”, onde muita gente não consegue imaginar relaxar, comemorar ou se divertir sem o “lubrificante social” do álcool. Johnston disse que navegar pela vida social sem álcool de fato é uma habilidade que precisa ser aprendida. Mas considerando a natureza lenta e progressiva do abuso de álcool, ela acha que vale a pena o esforço e que isso pode te abrir para um novo mundo de autoconhecimento e respeito.

“Não acredito em alarmismo e não quero ser vista como proibicionista”, ela disse. “Mas acredito que se nos tornarmos mais abertos para o diálogo sobre o álcool e o papel que ele tem nas nossas vidas, poderíamos nos beneficiar como sociedade.”

Lembra daquele estudo de 2010 que concluiu que o álcool é a droga mais perigosa quando danos para o usuário e a sociedade são combinados? Bom, acontece que as três drogas menos prejudiciais são cogumelos, LSD e MDMA.

Não somos qualificados para dar conselhos médicos aqui, claro, mas só saiba que há drogas provadas muito mais seguras por aí para te ajudar a lidar com as realidades sombrias do aquecimento global, dívida estudantil e a guerra nuclear iminente.

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