reportagem

A vez em que Maluf tentou achar petróleo no interior de São Paulo

O gasto de dinheiro público na perfuração de poços de onde jamais saiu uma gota do combustível fóssil.

por Camilla Feltrin
09 Janeiro 2018, 1:33pm

Paulo Maluf, então governador de São Paulo, no canteiro de obras da Paulipetro no distrito de Cuiabá Paulista. Foto: Luiz Carlos Murauskas/Folhapress

Diante do fim do milagre econômico brasileiro e o aumento do preço dos barris de petróleo em todo o mundo, Paulo Maluf, o então governador de São Paulo, entre 1979 e 1982, decidiu que cavucar o interior do estado em busca de combustível fóssil seria uma boa ideia.

Era 1979, ano em que a Revolução Islâmica no Irã paralisou a produção de petróleo e ocasionou uma crise mundial. Dono de um diploma de engenharia civil e uma boa oratória, o político teve as bênçãos dos militares para criar a Paulipetro, consórcio entre Cesp (Companhia Energética de São Paulo) e IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) responsável pela prospecção realizada na região noroeste do estado.

Jornais da época dizem que técnicos da Petrobras classificavam a parceria com a firma de Maluf como uma “aventura” e torciam o nariz para uma colaboração entre as partes. Após pressão política envolvendo o ministro de Minas e Energia do governo do general João Figueiredo, no entanto, um contrato com o setor de risco da petroleira nacional foi assinado. Isso significava que a Petrobras deveria explorar o fundo do poço em caso de descoberta de uma jazida rentável.

Se por um lado parecia pouco provável achar petróleo no interior de São Paulo, indícios científicos amaciavam os mais céticos. "Paulipetro detecta gás em poço do Paraná", "Teste de gás da Paulipetro mostra resultado favorável" e "Paulipetro encontra gás em poço terrestre de São Paulo" foram algumas das notícias publicadas na época e que deram algum respaldo à estatal bandeirante.

Os taxistas paulistanos, que levam até hoje a fama de serem apreciadores do político hoje preso por lavagem de dinheiro e cobrança de propina no comando da prefeitura de São Paulo, até sonharam em ter seus carros adaptados para o funcionamento com gás natural, combustível muito mais barato que a gasolina. “Conversei com Maluf, com o secretário Osvaldo Palma [ da pasta Secretário da Indústria, Comércio, Ciência e Tecnologia], estive em Cuiabá Paulista e confesso que fiquei impressionado. Os técnicos me disseram que, em 12 meses, depois de mais quatro ou cinco perfurações, poderiam ter gás para abastecer São Paulo", afirmou o então presidente do sindicato dos taxistas, Rogério Atorre, em junho de 1982 à Folha de S. Paulo.

O político teve as bênçãos dos militares para criar a Paulipetro, responsável pela prospecção realizada na região noroeste do estado.

A descoberta dos hidrocarbonetos, porém, não é e não foi o suficiente para garantir a rentabilidade e possibilidade comercial das escavações. "Sempre é preciso avaliar a viabilidade técnica e econômica para ver se vale o investimento. Às vezes, o volume de óleo e gás é tão pequeno e não justifica a exploração", diz o consultor da área energética e professor do Instituto de Economia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), Edmar Almeida.

Geólogo e ex-consultor da Paulipetro, Paulo Cesar Soares acredita que os trabalhos comandados por Maluf foram feitos às pressas e isso comprometeu o sucesso da exploração. "O consórcio foi constituído e as atividades iniciaram de forma atabalhoada. Durante um ano, na primeira fase, houve grande desperdício de recursos em virtude da pressa em obter resultados", fala. Foram quatro poços perfurados com o objetivo de realizar pesquisas de profundidade, segundo conta Soares, sendo que três (Cuiabá Paulista, Chapéu do Sol e Pitanga) produziram gás natural. “O gás era de difícil aplicação na época e na região a produção era pequena”, recorda-se.

Poço de Cuiabá Paulista. Foto cortesia de Paulo Soares

Uma notícia na edição de 30 de dezembro de 1980 da Folha de S. Paulo endossava a visão do consultor a respeito da falta de esmero técnico para as escavações: “O Consórcio IPT/ Cesp concluiu seu segundo poço na bacia sedimentar do Paraná, que resultou seco, sendo abandonado a uma profundidade de 1.684 metros após investimento de US$ 1 milhão. O consórcio perfura mais dois poços, na mesma bacia, e prepara o início de uma quinta perfuração, desta vez no estado de Mato Grosso do Sul. Os técnicos da Petrobras consideram que o IPT/ Cesp não vem atuando dentro das normas internacionais de perfuração, pois realiza poços estratigráficos, muito mais caros, sem realizar anteriormente os trabalhos sísmicos, que indicam o melhor local a perfurar, sem desperdiçar dinheiro", informava a matéria.

Após 69 buracos nas imediações da bacia do rio Paraná e alguns milhões de dólares do dinheiro público gastos, ficou-se comprovado o óbvio: São Paulo não é o Texas. Sem gás, nem petróleo extraído para vender, a Paulipetro teve as atividades encerradas logo após a saída de Maluf e seu aliado José Maria Marin (hoje detido nos EUA após uma temporada em prisão domiciliar em seu apê na Trump Tower por esquema de corrupção no comando da CBF) do governo, em 1983.

Após 69 buracos nas imediações da bacia do rio Paraná e alguns milhões de dólares do dinheiro público gastos, ficou-se comprovado o óbvio: São Paulo não é o Texas.

Uma das primeiras atividades de Franco Montoro ao assumir o Palácio dos Bandeirantes foi, justamente, acabar com o consórcio. O novo governador anunciou prejuízo de US$ 400 milhões (R$ 1,3 bilhão nos dias atuais, mais a correção inflacionária). "O governo de São Paulo põe um ponto final na aventura da Paulipetro, que custou à população uma importância equivalente a 500 bilhões de cruzeiros, sem que houvesse descoberto um litro de petróleo ou um litro de gás", disse à época.

O jornal Estado de S. Paulo afirmou que a “megalomania” de Maluf correspondia a um orçamento 204 vezes maior que o destinado anualmente à Secretaria de Segurança Pública e dez vezes com o ensino médio da época. Do mesmo grupo, o aposentado Jornal da Tarde não teve dúvidas ao estampar a capa com Paulo Maluf caracterizado de Pinóquio, famoso personagem mentiroso.

Paulo Maluf, então governador de São Paulo, no canteiro de obras da Paulipetro no distrito de Cuiabá Paulista. Foto: Luiz Carlos Murauskas/Folhapress

Para o professor e pesquisador do Departamento de Gestão Pública da FGV-SP (Fundação Getúlio Vargas de São Paulo) Marco Antonio Carvalho Teixeira, é pouco provável que a Paulipetro, “coisa mirabolante do período militar”, seja reeditada nos dias atuais. Mecanismos de controle e fiscalização, como o caso da LRF (Lei de Responsabilidade Fiscal), dificultam estripulias do tipo. “Era um sonho populista que visava impulsionar a imagem de Paulo Maluf caso desse certo, foi uma aposta”, diz.
Inclusive, Maluf, preso, deputado federal pelo PP e procurado pela Interpol, tem várias mutretas no currículo além da Paulipetro. Dois exemplos emblemáticos foram o gasto de dinheiro da prefeitura paulistana para presentar jogadores da seleção brasileira de futebol com fuscas e a compra de ambulâncias para cidades pobres de outros estados com recursos do contribuinte paulista.

“Dono” do petróleo paulista

Mesmo com a extinção da Paulipetro há 35 anos e uma longa disputa judicial correndo no Superior Tribunal de Justiça (STJ) até hoje — incluindo treta com o valor milionário dos honorários advocatícios —, Maluf gosta de se achar o desbravador do petróleo paulista.

"Foi a coisa mais divina que eu fiz na minha vida: dizer que tinha petróleo no estado de São Paulo" — Paulo Maluf

Quando anunciou a descoberta da Bacia de Santos, em 2007, no governo Lula, Maluf tentou reviver a companhia ao ignorar a distância quilométrica entre a região onde os poços da Paulipetro foram perfurados e o litoral do estado. "Agora o governo brasileiro mostrou que existe sim petróleo em São Paulo. O problema é que demorou mais de 20 anos e perdemos muito dinheiro com isso", disse em entrevista ao Diário do Grande ABC. Ao O Globo, foi menos modesto sobre o tema. "Foi a coisa mais divina que eu fiz na minha vida: dizer que tinha petróleo no estado de São Paulo.”

Fato é que os poucos campos de petróleo registrados e explorados em terra firme no Brasil estão localizados nos estados de Alagoas, Amazonas, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Rio Grande do Norte e Sergipe, segundo relatórios da ANP (Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis).

Nenhum em São Paulo.

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