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Sexo

Usuários do Grindr falam sobre os altos e baixos nesses dez anos do aplicativo

Perguntamos a alguns homens como o aplicativo tão amado e odiado mudou a vida gay para melhor e pior.

por Louis Staples; Traduzido por Marina Schnoor
27 Março 2019, 10:00am

Imagens via Grindr. 

Matéria originalmente publicada pela VICE Reino Unido.

O aplicativo de encontros gays Grindr faz uma década. Lançado para ajudar homens gays e bissexuais a se conectarem, o app hoje tem 4 milhões de usuários no mundo todo.

Descrever o Grindr como um fenômeno cultural ou um aplicativo para revolução sexual não capta exatamente o impacto extraordinário que ele teve no sexo, cultura e vida gay. É o Grindr que muitos homens gays usam para experimentar pela primeira vez na sua ampla comunidade. Poder baixar o Grindr e conversar com outros gays foi o que me motivou a comprar meu primeiro iPhone. Triste, eu sei.

Em 2014, o fundador do Grindr, Joel Simkhai, disse que seu “isolamento” quando criança foi o que o motivou para criar o aplicativo. Apostando na popularidade de salas de bate papo, a função-chave do Grindr é mostrar a homens queer exatamente a que distâncias outros queers estão, em tempo real. O luzinha verde de “online” revela que, não importa a hora do dia ou o fuso horário, os gays estão por toda parte.

Apesar dos pontos positivos inegáveis, o legado do Grindr é complexo. Philip Ellis, 31 anos, diz que muitas vezes as pessoas dizem coisas no Grindr que nunca diriam pessoalmente. “Tem um nível de sinceridade e grosseria que você só vê quando pessoas estão conversando atrás de uma tela”, ele explica. E ele não é o único a se preocupar com o tipo de diálogo que o Grindr facilita. A experiência dos usuários pode variar muito, com o app frequentemente encarando críticas por facilitar bullying e comportamento agressivo, incluindo racismo e abuso afeminadofóbico. É difícil refutar essas acusações, considerando que o Grindr permite que os usuários filtrem raças, “tribos” e tipos de corpo.

O fundador Simkhai sugeriu que o aplicativo precisa ser uma “experiência visual” porque “os homens são assim: criaturas visuais”. Mas o Grindr tem feito o suficiente para encorajar uma cultura de aceitação e segurança? Há muitos casos conhecidos de assassinatos e estupros conduzidos através do aplicativo, além de ataques homofóbicos coordenados contra gays e bissexuais. Chemsex, a prática de grupos de homens se encontrando para fazer sexo e usar drogas, também é facilitado pelo aplicativo. “O Grindr facilitou massivamente a cultura chemsex”, sugere Jack*, um ex-viciado em chemsex e usuário do Grindr. “Encontros de sexo drogado são organizados no Grindr, e muitas vezes as pessoas usam o Grindr para comprar drogas também.”

Em 2018, O Grindr lançou o Kindr Grindr, uma campanha promovendo “diversidade e inclusão” sobre “racismo, bullying e outras formas de comportamento tóxico”. Isso veio depois do Grindr for Equality em 2012, encorajando os usuários a “se mobilizar, informar e empoderar”. Em 2017, o Grindr lançou a INTO, uma “revista digital para o mundo queer moderno”.

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Imagem de publicidade do Grindr (os perfis não são reais). Foto: Grindr

John Paul Brammer, um homem de 28 anos que se descreve como “escritor, tuiteiro e prolífico usuário do Grindr”, lançou sua popular coluna de conselhos queer Hola Papi! na INTO. Ele disse que recebe muitas mensagens “estranhas” sobre sua etnia. “Coisas como 'deixa eu ver esse pau latino' ou, claro, 'hola papi'”, ele diz. “Batizei a coluna com a frase porque sempre ouvia isso no aplicativo e achei que seria uma forma divertida e sutil de vingança. Mas acho que sou privilegiado. Poucas pessoas vieram me dizer que queriam me deportar.”

A INTO deixou de ser publicada depois de 17 meses, em janeiro de 2019. A notícia foi anunciada seis semanas depois que surgiu uma história que sugeria que o novo CEO do Grindr, Scott Chen, não apoiava o casamento gay. Apesar de a INTO não existir mais, seu Influencer Especialista em Relacionamentos Alex Schmider acredita que a revista representou uma das mudanças mais significativas na experiência dos usuários do Grindr na última década. “As pessoas usam o Grindr no mundo inteiro – inclusive em lugares onde ser parte da comunidade LGBTQ é ilegal”, ele diz. “O Grindr, de muitas maneiras, pode ser a principal linha de comunicação para pessoas separadas geograficamente, e integrar o conteúdo da INTO no aplicativo deu às pessoas um novo jeito de se ver, se conectar, experimentar uns com os outros e aprender.”

Dez anos depois, só agora o Grindr parece perceber que embora os problemas que ele alimenta não tenham começado no aplicativo, ele tem a responsabilidade de tentar ajudar a erradicá-los. Afinal, esse aplicativo laranja é fundamental para a cultura e comunicação gay. E considerando que o Grindr também abriu caminho para o Tinder e Bumble, é difícil imaginar a paisagem atual dos encontros heterossexuais sem ele.

Para marcar uma década de Grindr, falei com alguns usuários sobre suas experiências no aplicativo que mudou a vida gay para sempre, aquelas que eles nunca vão esquecer.

“Os caras muitas vezes acham que você deve alguma coisa a eles”

Muitos caras parecem ter um contrato inventado na cabeça deles, que se você está no Grindr, você deve alguma coisa a eles. Tipo: “Quer transar? Se você disser que não ou não responder logo, vou te chamar de fresco”. Muitos caras estão lá só para sexo casual, mas também vejo muitos homens dizendo “estou de saco cheio desse app” e “só quero encontrar alguém que não seja louco”, e acham que vão encontrar seu futuro “Macho Heteronormativo” entre um passivo e um casal procurando um ménage. É uma plataforma estranha para comportamento humano.

Phillip, 31 anos

“Por que tem tantos homens jovens me chamando de 'daddy'?!”

Depois de casado por 25 anos, baixar o Grindr depois da separação foi uma experiência nova. Ele está a milhões de quilômetros do flerte da minha juventude. Lembro de perguntar para um amigo gay mais novo: “Por que tem tantos homens jovens me chamando de 'daddy'?!”. Foi divertido enquanto durou, mas muitas vezes as pessoas só desperdiçavam meu tempo, me deixando empolgado no chat e depois ficando frias e desaparecendo.

James, 57 anos

“Me apaixonei quando ainda estava no armário”

Me apaixonei por um cara no Grindr quando ainda estava no armário, porque fiquei impressionado com como ele vivia sua vida e quão verdadeiro ele era consigo mesmo. Ele tinha acabado de se assumir, e a ideia de fazer a mesma coisa era alienígena pra mim na época. Ainda somos amigos, mas ele basicamente me ensinou a ser gay quando eu ainda tinha vergonha disso, o que foi muito legal.

Douglas, 24 anos

“Gozei com um raio atingindo a Torre Eiffel”

Eu estava numa viagem de trabalho em Paris e tinha um dia livre, então decidi conferir o talento dos parisienses. Que era considerável! Acabei escolhendo um empresário com um sorriso fofo. Ele tinha um flat incrível no arrondissement 7, todo o último andar do prédio – decoração suntuosa, piso de mármore, urnas, obras de arte. Ele também era maravilhoso: uma estrutura facial linda e um pênis incrível. Bebemos champanhe na varanda dele e começamos a nos pegar enquanto uma tempestade de verão chegava – chuva torrencial, trovões estrondosos, foi muito sensual. Tenho a memória vívida de gozar vendo um raio cair na Torre Eiffel. Uma experiência e tanto.

Dylan, 27 anos

“Transei acidentalmente com um prostituto na Romênia”

Eu estava na Romênia, e depois de fazer o check-in no hotel, abri o Grindr. Comecei a falar com um cara lindíssimo, depois fui para um bar gay. Fiquei surpreso de ver o mesmo homem no bar. Acabamos voltando para o hotel e fazendo o melhor sexo da minha vida.

Depois, enquanto ele se vestia, ele pediu £300 [R$1.500] como pagamento. Dei risada, achando que era brincadeira, mas ele foi insistente, dizendo que era um escort – o que ele não tinha me dito antes. Ele começou a destruir o meu quarto e gritar, até eu pegar o telefone e ligar para a recepção. Aí ele fugiu do quarto, limpando o minibar no processo.

Craig*, 36 anos

“O Grindr me fez sentir invisível”

Eu escrevia para a revista online do Grindr, a INTO. Eu via eles como duas entidades separadas, porque achava o aplicativo um lixo e ainda acho. Como freelancer, às vezes parece que grande parte do meu trabalho e ser ignorado e deixado esperando, então aprendi a ficar longe do Grindr porque essa também foi minha experiência usando o aplicativo. Muitas vezes ele me fazia sentir invisível.

Alim, 27 anos

“Eu não parecia 'masculino' o suficiente”

Meu perfil no Grindr tinha uma foto minha de crop top rosa. Naquela época, falei com alguns caras que basicamente me disseram que não estavam interessados porque eu não parecia “masculino” o suficiente, ou que achavam que eu era um passivo submisso. Depois de um tempo, fiquei cansado disso, então acabei trocando minha foto de perfil para uma selfie sem camisa – nunca mais recebi esse tipo de comentário.

Jeff, 27 anos

“Tentei ficar comigo mesmo”

Uma vez, eu estava muito bêbado e com tesão depois da balada. Vi um cara gostoso no Grindr que estava bem perto. Comecei a falar com ele, mas acabei dormindo. De manhã percebi que estava tentando ficar comigo mesmo pelo Grindr.

Peter, 33 anos

“O Grindr facilitou muito conseguir drogas”

Tive muitas experiências estranhas no Grindr. Teve um cara que insistiu em me fazer uma serenata enquanto eu tomava um banho morno e bebia champanhe. Depois teve um cara que cobriu o sofá com toalhas e começou a passar azeite de oliva por todo meu corpo.

Mas num ponto da minha vida, o Grindr facilitou muito conseguir drogas. Quando me mudei para Notting Hill, levou apenas algumas horas para me conectar com dois traficantes de quem eu comprava enquanto morei lá, o que significava que eu tinha acesso a outros indivíduos que pensavam como eu para fazer chemsex.

Phil, 31 anos

“Sou casado e ainda estou no armário”

Sou casado com uma mulher, mas acho que sou bissexual. Sou um desses perfis de peito sem camisa que todo mundo quer evitar. As pessoas na minha vida acham que sou hétero, então o Grindr é o único jeito como posso falar com homens que gostam de homens. Não fiquei com ninguém ainda, mas o chat me ajuda a explorar. O aplicativo fica escondido no meu celular e sinto culpa toda vez que o uso. Não é ideal, mas é o que funciona pra mim agora.

John*, 37 anos

“Encontrei o amor da minha vida no Grindr”

Era meu aniversário de 21 anos. Eu estava sozinho no meu quarto no Grindr e vi um rosto lindíssimo. Mandei mensagem pro cara, achando que provavelmente seria ignorado. Conversamos e marcamos um encontro para a sexta-feira seguinte. Quando chegou, ele se apresentou com um aperto de mãos, e tirei sarro dele por causa disso. O encontro foi diferente de todos os primeiros encontros que já tive. O beijei no meu carro, depois levei ele pra casa.

Isso foi na sexta. Acabamos saindo de novo no sábado. Depois no domingo. E na segunda. Na terça. Começamos a morar juntos oito meses depois, e seis anos depois acabamos de nos mudar para o apartamento que compramos juntos.

Ross, 27 anos

“As pessoas podem dizer coisas realmente racistas”

Cresci nos anos 1980, então sei o que é racismo. Mas o Grindr me fez sentir um pouco deprê, porque não avançamos tanto assim no final das contas. Principalmente quando as pessoas são anônimas, se você diz com educação que não está interessado, elas podem dizer coisas realmente racistas. Até recentemente, parecia que o Grindr não estava muito interessado em fazer alguma coisa sobre esse problema. Outras vezes as pessoas acham que sou ativo ou que tenho um pênis gigante por causa da minha cor. Mas conheci alguns caras bem legais no Grindr, então não é tão ruim assim.

David, 42 anos

“Cansei de ser fetichizada”

Já usei o Grindr em vários períodos da minha vida, me identificando como homem gay, pessoa não-binária e agora como mulher trans. Usar o Grindr em cada uma dessas formas foi tanto útil quanto frustrante. Como uma pessoa que se apresenta como feminina, minha feminilidade já foi ridicularizada ou altamente sexualizada. Como homem gay, as pessoas sempre achavam que eu era passivo. Como mulher trans, os homens geralmente não querem fazer mal, mas acabam me tratando como um tipo de boneca inflável. Também me sentia muito desconfortável vendo homens gays fazendo piada na seção de “pronome”, e fiquei cansada de ser fetichizada ou chamada de “traveco”, então acabei deletando o aplicativo.

Jo*, 33 anos

“Não é lugar para mostrar fotos de bebê”

Usar o Grindr como pai recente era um campo minado. Como homem gay, ainda há uma expectativa de que a gente não tenha filhos, ou que se temos não somos assumidos ou somos casados. Esse não era o meu caso. Logo descobri que não era o melhor aplicativo para compartilhar fotos de bebê, mas vários gays me disseram que queriam muito ter filhos. Isso me deixa feliz e triste ao mesmo tempo.

Richard, 45 anos

“Fiz sexo com a pessoa errada!”

Foi depois de uma festa e eu estava muito bêbado. Um cara me mandou o endereço dele e acabei de algum jeito conseguindo chegar no lugar certo. Tinha um cara na frente da casa que parecia estar esperando alguém. Ele fez sinal para eu entrar – fizemos sexo e foi ótimo. Enquanto eu estava voltando para a festa, recebi uma mensagem do cara com quem eu estava conversando antes, dizendo: “Cadê você?” Transei com uma pessoa completamente diferente!

Jack*, 29 anos

*Os nomes foram mudados.

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