A autora (direita) e sua amiga Kay (que quis permanecer anônima). Todas as fotos pela autora. 

Aluguei uma amiga para tentar curar minha solidão

E foi fácil esquecer que ela estava sendo paga para concordar comigo e ser legal.

por Annie Lord; Traduzido por Marina Schnoor
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11 fevereiro 2019, 9:00am

A autora (direita) e sua amiga Kay (que quis permanecer anônima). Todas as fotos pela autora. 

Estou no Museu de História Natural, olhando um modelo de um bebê dentro do útero da mãe. Minha amiga Kay está fazendo careta para a testa inchada, as mãozinhas fechadas e o longo tubo rosa por onde ele absorve seu jantar. “Imagine que nojo ter um negócio desses se mexendo dentro de você”, eu digo. “É”, diz Kay, “deve parecer aquela cena do Alien onde a coisa melequenta cinza sai do peito da Sigournet Weaver”.

Kay e eu concordamos em tudo: como o Jake Gyllenhaal é gato, como o sotaque de Liverpool é calmante, como obviamente não vamos dar ao museu uma doação voluntária. Estar com ela é fácil, como entrar num banho de banheira ou roubar o moletom Reebok de um garoto depois de passar a noite com ele. É fácil esquecer que a Kay na verdade está sendo paga para estar aqui – £20 [por volta de R$96] a hora, só pra fingir que se importa comigo. Ela é muito boa nisso.

Encontrei a Kay no rentafriend.com, um site onde, por $24,95 [R$92] por mês, você pode escolher alguém para sair de rolê com você de uma base de dados de 621.585 pessoas. O site foi fundado em 2009, depois que o CEO Scott Rosenbaum se pegou pensando por que havia tantos sites de namoro mas nenhum de relacionamento platônico.

Junto com a indústria de aluguel de família no Japão e um número crescente de empresas que te permitem contratar um enlutado para o seu enterro, amigos de aluguel parecem o começo do fim. Mas faz todo sentido numa sociedade onde excesso de trabalho e as redes sociais nos fragmentaram. Um estudo do ano passado feito pela BBC descobriu que uma em cada três pessoas do Reino Unido se descrevia como “socialmente isolada”, enquanto os adultos tipicamente têm apenas duas pessoas com que sentem que podem contar. E isso não nos deixa felizes: um terço das pessoas disseram que se sentem solitárias com frequência ou muita frequência.

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Screenshot do perfil da Kay.

Esperando pela Kay na frente da estação de metrô South Kensington, recebo uma mensagem: “Estou atrasada, desculpa”. Quando ela chega, nos abraçamos, meu nariz se afundado no casaco de oncinha dela. “Desculpa”, ela diz. Digo a ela para não se preocupar – fiquei aliviada porque também estava atrasada. “É a melhor sensação quando seu amigo também está atrasado e você pode parar de correr, ou alguém cancela a balada que você não queria ir mesmo”, ri Kay. Gosto dela instantaneamente, mas estou consciente que posso dizer praticamente qualquer coisa e ela provavelmente vai concordar; nas horas seguintes, o trabalho dela é garantir que eu me divirta. Considero rapidamente dizer a ela que amo o Piers Morgan para ver como ela reage.

Entramos no museu. Na frente de uma girafa empalhada, descubro que a Kay tem 24 anos e estuda Economia na Universidade Brighton. No tempo livre, ela investe na bolsa de valores, um hobby que ela quer transformar em profissão depois de se formar. Então felizmente pra ela, os outros três clientes que a alugam como amiga são homens de meia idade que trabalham com finanças, e um deles até se ofereceu para ser o tutor dela durante o curso.

Kay se tornou uma amiga de aluguel quando o Google a direcionou para o site depois da busca “como ganhar dinheiro rápido”. Ela se encontra com cada cliente uma ou duas vezes por semana, trocando a vida de universitária de disque pizza e revisar aulas em Powerpoint por comer carpaccio com homens que usam Rolex. Ela geralmente passa de três a seis horas com os clientes; às vezes um encontro é tudo que ela precisa para pagar o aluguel do seu apartamento.

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Kay compara seu trabalho a de um terapeuta: “Muitas vezes na nossa sociedade, quando as pessoas se importam em perguntar 'Como você está?', nunca dizemos 'Estou na merda, estou com dificuldade para pagar as contas, minha mãe está enchendo meu saco'. Você só diz 'Sim, estou bem. E você?' Atendo muitas pessoas que querem falar sobre os problemas que estão passando na vida.”

Pergunto a Kay por que ela acha que homens têm mais chances de contratá-la. “Mulheres podem chorar as pitangas com amigas, mas homens muitas vezes não têm essa mesma experiência – ainda tem muito preconceito com homens que expressam suas emoções”, ela fala. “Muitas vezes, meus clientes descobrem que têm vergonha de serem vulneráveis.”

Também não é surpresa que investidores estejam pagando pelo tempo da Kay. As horas de trabalho acabam significando que eles saem do escritório às 23h e precisam voltar às 7h, o que deixa pouco espaço para socializar. “Trabalhar com finanças é depressivo”, diz Kay. “A indústria é muito competitiva, se você faz uma coisa errada tem milhares de candidatos prontos para pegar seu emprego. Você é substituível, você não tem significado.”

Passamos por cérebros roxos e diagramas das veias de um braço humano, e me pego contando para a Kay detalhes da minha vida: como acho que machuquei a vagina na primeira aula de spinnig, como acho que exagero no sal quando cozinho. Dava pra saber que eu estava sendo chata, mas não liguei. Normalmente quando estou com amigos, estou interpretando, desesperada para fazer eles gostarem de mim. Mas estar pagando para a Kay garante que ela estava tirando algo concreto da experiência. Era relaxante – uma amizade sem a necessidade de impressionar.

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Às vezes os conselhos da Kay pareciam uma coisa meio Oprah, o que faz sentido considerando que os livros favoritos dela são As 48 Leis do Poder e What a Time to Be Alone do Sumflower. Digo a ela que não saio de casa a não ser pra ir no mercado. “Não passamos tempo suficiente com nós mesmos trabalhando no que gostamos”, ela fala. Digo a ela que as pessoas sempre me interrompem quando falo, e ela diz que tudo bem, porque “você tem duas orelhas e uma boca por um motivo, você deve ouvir duas vezes mais do que fala”. Digo a ela que chorei recentemente porque fiquei puta que meu namorado não colocou o desodorante dele de volta na gaveta do banheiro. “Quando homens e mulheres têm um relacionamento, os homens danificam a mulher para a próxima pessoa, mas as mulheres curam o homem para a próxima mulher”, ela disse, tipo um Yoda da geração Instagram. Um Rupi Kaur mais direto. Um livro de mesa de centro da Urban Outfitters com ilustração em tons pastel na capa.

Conforme o tempo passa, nossa conversa se torna menos #yasqueen e mais confessional. Olhando nos olhos amarelos de vidro de um velociraptor, Kay me diz: “Não acredito que dinossauros existiram. Esse é um dos meus segredos. Quando digo isso as pessoas falam 'Você é louca'.” Pergunto no que mais ela acredita.

“Que vivemos num universo holográfico onde tudo que experimentamos é parte de uma simulação.”

“Como no filme Inception?”

“Sim. Já tive muitas experiências onde vi que este mundo não é real; tem mais na vida do que nascer e desperdiçar nosso tempo trabalhando por dinheiro que nem significa nada – moedas são só algo que os humanos inventaram.”

Pergunto se ela pode falar sobre essas coisas com os clientes ou se precisa ser mais reservada. “Se eu dissesse tudo isso para um cliente ele não me contrataria de novo. Às vezes, quando saio para beber com eles, fico confortável demais. Uma vez, eu estava falando com um cliente regular sobre o Brexit e como deveríamos ter um segundo referendo porque muitas das pessoas que votaram no sim estão mortas agora. Quer dizer, a votação aconteceu três anos atrás. Ele ficou ofendido. Acho que porque falei em pessoas mortas. Pensei 'Merda, não devia ter aberto a boca'.”

Vamos tomar um café, e comendo dois rolinhos de salsicha veganos insanamente caros, Kay me conta mais sobre seu passado. “O cara com quem perdi minha virgindade basicamente me comeu e sumiu. Fiquei de coração partido e com medo – achei que ninguém mais ia gostar de mim porque fiz isso. Culturalmente, foi algo importante para mim porque meus pais são religiosos e acham que você só pode fazer sexo com a pessoa com quem vai casar.”

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Gosto que a Kay está me contando coisas que provavelmente não diria para outro cliente. Pergunto a ela se tem alguma diferença entre um amigo de aluguel e um amigo de verdade. “Amigos de verdade te dizem o que você não quer ouvir. As pessoas não gostam de estar erradas – elas pensam 'Ah, ela teve a audácia de dizer isso?' As pessoas não se perguntam: 'O que isso me ensina?' Uma vez alguém estava me pedindo conselhos sobre uma questão pessoal, e fui severa demais. Eu disse a ele: 'Se sua esposa não está atendendo suas necessidades, então você precisa sair dessa relação, você merece alguém que faça você se valorizar'. Aí ele ficou na defensiva.”

Quando você trabalha com finanças você pode pagar pelo que quiser, mas talvez isso te impeça de conseguir o que você precisa. Alguém que diga pra você parar de stalkear seu ex no Instagram só pra ver as fotos dele num spa em Budapeste. Alguém que diga que o jeito como você baba quando mastiga é nojento. Alguém que te diga que um quarto temático do Manchester United com cama de solteiro e um cartaz de uma tenista coçando a bunda não é lugar para levar uma dama. Amigos te colocam nos eixos, amigos de aluguel não podem fazer isso.

Enquanto caminho da parada de ônibus até minha casa, Kay me manda uma mensagem: “muito obrigada por hoje! Me diverti muito”. É difícil dizer se é realmente verdade, ou se ela conta seus detalhes pessoais para todo cliente para fingir uma proximidade. De qualquer maneira, o encontro me fez sentir menos sozinha. Enquanto Kay volta de trem para Brighton, imagino se no futuro, quando ela se tornar uma investidora em tempo integral, ela vai contratar um amigo de aluguel. Sofrendo de solidão depois de ficar até tarde no escritório, comendo um yakissoba de delivery, ficando no trabalho até os olhos começarem a arder. Acho que ela vai precisar de bons amigos que digam a ela para não se matar de trabalhar.

@annielord8

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