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O adeus a Bolívia Rock, o onipresente fotógrafo do rock de SP

Músicos lamentam a morte do boliviano, ocorrida na terça-feira (22), e celebram o legado dessa figura que veio ao Brasil registrar a cena roqueira.

por Marcelo Daniel
30 Janeiro 2019, 9:00am

Foto: Lincoln Baraccat/The Uncle

Cabelão comprido, cavanhaque, roupa preta, parceria constante da esposa ao lado, câmera na mão e uma avalanche de cliques no palco. Se você já foi a algum show de metal ou rock em São Paulo, é provável que já tenha trombado com o casal de fotógrafos Bolívia e Cátia Rock.

O fotógrafo, músico e radialista Edgar Franz Mercado Sandoval, conhecido na cena roqueira como Bolívia Rock, faleceu na terça-feira da semana passada (22), após longa batalha contra o câncer.

Em agosto de 2017, diversos músicos se reuniram em sua homenagem e fizeram o Bolívia’s Day, que teve no palco artistas como a Terreno Baldio, entre outros. Na descrição do evento, a explicação: “este show será uma grande homenagem ao nosso grande amigo, grande divulgador do rock e da música boa, exímio fotógrafo que faz questão de registrar todos os shows que pode estar presente, sempre com sua incansável companheira Cátia.”

Para China Lee, vocalista da banda Salário Mínimo, uma das pioneiras do metal em São Paulo, lançados na seminal coletânea SP Metal, a história do grupo, desde os primeiros dias, nos anos 1980, já tinha a presença do Bolívia.

China Lee, do Salário Mínimo. Foto: Bolívia Rock
China Lee, do Salário Mínimo. Foto: Bolívia Rock

“O arsenal e o material que ele tem do Salário é impressionante — tanto em vídeo quanto em foto — é muito extenso, de grandes shows, belíssimas imagens”, contou à reportagem.

E era exatamente essa a pegada. O casal estava em todos os shows, registrando e divulgando. Produzindo material e publicando fotos e vídeos em seus canais digitais.

Conforme reforça o vocalista, existe uma grande paixão nessas jornadas fotográficas. Eles não são contratados ou convidados dos artistas — ele simplesmente estava por lá para curtir, fotografar e divulgar.

Um detalhe interessante: em todos os seus canais, eles deixam a mensagem que se o artista não quiser aparecer no registro, basta fazer o contato que eles excluem o material.

Das fotos mais clássicas, em 1983 ele cobriu todos os dias da mítica (e única) visita do Van Halen a São Paulo, no Ibirapuera. Ainda no rol das presenças inacreditáveis de sua câmera (à época ainda uma antiga Kodak Retina), estão duas edições do Festival de Águas Claras, realizadas no início dos anos 1980 em uma fazenda em Iacanga, interior de São Paulo — a chamada Woodstock Brasileira.

Guerreiro do metal

Edgar nasceu na Bolívia e chegou ao Brasil criança, com oito anos de idade. Nas últimas décadas, viveu no bairro da Penha, na Zona Leste de São Paulo — onde foi sepultado, no cemitério local.

Há doze anos esteve ao lado da esposa Cátia e juntos passaram a fotografar e filmar eventos, organizar exposições e agitar a cena roqueira. Outra característica da chegada da esposa em sua vida é a presença de um número maior de coberturas de artistas da MPB no acervo, não apenas dos cabeludos e metaleiros. Dentre eles, Cauby Peixoto (1931-2016), Angela Maria (1929-2018) e Karina Buhr.

Ney Matogrosso. Foto: Bolívia Rock
Ney Matogrosso. Foto: Bolívia Rock

Para completar a atuação no underground, passou a apresentar programas de rock, inicialmente em rádios menores, de bairro, e depois em rádios na web dedicadas à pauleira, como o mais recente projeto, a Rádio SPRock.

“Vamos dar continuidade a todos os projetos, as fotos, os vídeos, a rádio”, disse a esposa Cátia, que chegou a declarar na internet que pretende criar o Instituto Bolívia Rock, um sonho antigo do marido, para eternizar esse acervo. “Ele era muito amor e gratidão, com toda sua humildade”, ressalta.

Integrante da primeira leva de metaleiros paulistanos, Marcello Pompeu é vocalista do Korzus. À reportagem do Noisey, falou da perda do fotógrafo para a cena do metal no Brasil. “Falar da despedida do Bolívia é uma coisa que me entristece, pois é um cara muito legal, sempre dentro do movimento, solícito, amigo, educado, um amor de pessoa — além de ser um grande fotógrafo do metal brasileiro, principalmente aqui de São Paulo”, disse.

Dr. Sin. Foto: Bolívia Rock
Dr. Sin. Foto: Bolívia Rock

“Um trabalho como o do Bolívia para o metal e o rock’n roll nacional é uma coisa que eu não conheço”, declara China Lee, do Salário Mínimo.

“É um cara que parecia estar em todos os locais possíveis, ao mesmo tempo; ele fazia mágica! E que nunca cobrou um centavo das bandas que fotografava e depois ainda botava à disposição todo o material que ele tinha feito”, contou. “É uma perda irreparável, dificilmente vai aparecer outra pessoa como ele”.

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