Dia de Estreia

Lugar de arte é na pista de dança

Assista agora: "Dia de Estreia EP01: Tétano", uma série VICE Brasil apresentada por Samsung.

por Diogo Rodriguez
30 Novembro 2017, 6:59pm

"São Paulo é uma panela de pressão", define Maurício Kessler, artista visual, diretor e DJ. "É uma cidade que te dá espaço, mas te cobra", continua o integrante do duo de música eletrônica e arte visual Tétano. Não por acaso, a metrópole-monstro foi a musa da dupla: "A inspiração desse EP que a gente está lançando é São Paulo", diz Gabriel Andrade, produtor e DJ.

Nativos de Porto Alegre, Gabriel e Maurício se mudaram para São Paulo em busca de espaço, algo que não encontravam mais na capital gaúcha. "Porto Alegre é grande, mas SP é vezes 10. A grande diferença é o tamanho da oferta e o espaço que se tem comparado a Porto Alegre nessa cena que estamos vivendo, audiovisual, música eletrônica, clubber, de pista. Lá é muito restrito e a gente passou bom tempo até criando esse espaço, criando essa tal de cena", conta Gabriel.

Há cerca de oito meses, se fixaram em Sampa e transformaram o oceano de concreto e confusão em matéria-prima. "Os lugares que me agradam na cidade geralmente são quase distopias de terceiro mundo. O Minhocão, por exemplo. Um lance monstruoso, meio deformado — o centrão no geral é todo meio distópico. Deu errado, mas deu certo", diagnóstica Maurício. O contraste de São Paulo com Porto Alegre foi uma espécie de choque, com efeitos criativos: "Acho que é impossível estar nesse entulho de concreto e não sofrer uma influência direta", diz Gabriel. "A cidade", afirma, "tem influência principal em duas coisas: um, é a cidade sendo assunto dela mesmo, não tem como ignorar São Paulo. Então assumimos que (por estarmos nos aproximando mais dela agora) ela seria um ponto chave da nossa temática. Outra influência é que ela vira uma espécie de panela de pressão, onde as pessoas que estão produzindo e criando nela são jogadas pra cima. A impressão é que a cidade exige essas particularidades das pessoas e isso funciona quase como um antídoto a pasteurização social e criativa que existe em qualquer conglomerado de pessoas."

Dessa colisão emocional e profissional nasceu o conceito do projeto. "A Tétano é um projeto audiovisual que tem se apresentado no formato de live, onde manipulamos som e imagem para criar uma narrativa sensorial", define Gabriel. "A Tétano tem a ideia de tencionar os formatos da música versus imagem. Isso nos possibilita flutuar desde um DJset até instalações ou impressos que deem continuidade a essa narrativa. Então a Tétano tem se tornado cada vez mais essa plataforma de experimentação A/V, flutuando formatos e invertendo papéis."

O gosto pelo obscuro é assumido pela dupla. A começar pelo nome, Tétano. "É uma piada interna já que todos projetos autorais que eu e o Maurício nos propomos a fazer acabam adotando uma estética pesada, intensa, soturna, estroboscópica, etc", diz Gabriel. "E a gente ficou muito tempo atrás de algum nome que representasse isso, mas ao mesmo tempo tivesse uma estética sonora aguda e uma grafia forte. Tétano, uma doença infecciosa que causa espasmos musculares, rigidez da boca, taquicardia, temperatura corporal alta e delírio.”

Para criar as batidas, a inspiração pode vir de qualquer lugar. Gabriel diz que "tem coisas que gravamos, samples de banco e muita coisa roubada dos mais diversos lugares e mídias, para depois serem desconstruídos e formarem o som que queremos". "90% é produzido e gravado por nós. Também gostamos de samplear imagens e transformar aquilo em algo ressignificado pelo contexto, edição e manipulação (como é o caso do raio). Mas a ideia é cada vez mais utilizar material que nós mesmo geramos, autoral, e menos de outras fontes."

Na criação visual, diz o DJ, "não existe um processo muito bem definido". "Já fizemos gravações para Tétano com equipe em estúdio, modelos e equipamento foda, como já saímos pelas ruas e pelo metrô com uma câmera simples na mão, ou até mesmo captar sons com o celular mesmo."

"A edição", explica, "é boa parte feita em conjunto, principalmente nas etapas onde começamos a desenhar a forma bruta que queremos dar para aquela obra". "No geral, o processo de concepção de cada obra é muito colaborativo", diz.

Essa fusão de linguagens e processos resulta em uma música densa como o ar de São Paulo e assustador como cruzar a Marginal Tietê sem olhar para os lados. Nos filmes, há interferências na forma de linhas horizontais nos filmes, que lembram luzes de carros queimando a rotinas. Ou talvez o rastro de luz das janelas abertas ao lado do Minhocão vistas de um ônibus voltando chapados para casa. "Aqueles são pixels de São Paulo", diz Gabriel. "São cenas estendidas horizontalmente ao limite que se tornam essa textura estroboscópica de linhas."

O tecido audiovisual do Tétano tem raízes fortes. Gabriel se identifica como um "ex-raver": "Comecei curtindo psy-trance no meio dos anos 2000; foi quando descobri a música eletrônica". "Aquilo foi muito impactante para mim. Em 2007, comprei uma controladora vagabunda MIDI para aprender a discotecar e começar a aprender aquilo. Vi que era um buraco infinito de gêneros. Uma vez que tu pega gosto pela coisa, tu vai." Maurício é designer de formação e profissão, mas artista de coração. "Estudo arte desde pequeno, fazia aula de desenho, pintura. Por uma falta de estímulo familiar, acabei indo pelas tangentes: design, comunicação. Consegui me sustentar, criar uma autonomia e fui aos poucos retomando esse impulso que eu tinha. E tem cada vez vindo mais."

Responsável pelas batidas, ruídos e texturas sonoras, Gabriel Andrade lista como inspirações o eletrônico, claro, mas também hip hop, soul music e até MPB. Maurício Kessler tem dois lados, segundo ele mesmo. "Um: acredito muito nas artes que não são consideradas artes pela academia. Daí vem muito nosso interesse pela música, pelo cinema, fotografia, que são coisas que quando tu tá consumindo, não tá pensando 'ó, estou consumindo arte!'. Esse é um lado. Por outro, gosto muito do Bill Viola, um artista de videoarte. Um dos meus favoritos em termos de conceito é o John Baldessari, que vem do design também."

Tétano é parte de um movimento que está levando arte às pistas de dança, locais geralmente vistos como apenas um espaço restrito a grandes hits, formaturas e casamentos. Por meio de coletivos, estão criando festas híbridas. "Essa cena eletrônica independente que tá rolando virou um local não só para artistas que estão se apresentando musicalmente", explica Gabriel. Maurício afirma que "a maioria das festas dos coletivos que nos inspiram, têm muito disso, uma construção coletiva. Sozinho, ninguém ia fazer nada ali". "Festas em São Paulo têm performance de artistas, instalações, interferências audiovisuais, projeções. Essa cena abrigou uma galera que não tinha tanto espaço dentro de uma galeria ou de uma outra forma de exibição de arte", completa Gabriel.

A dupla é integrante do coletivo Strobo, um núcleo de estudo onde, afirma Gabriel, eles tentam "estudar e dialogar sobre o que é essa relação entre a pista de dança e a arte contemporânea; como isso surgiu, como se expande, como aumentar esse espaço, melhorar a relação das galerias com esses espaços".

Lucas Pexão, curador, galerista e integrante do coletivo, explica que "não existe um diálogo entre o mundo da arte e os coletivos de música eletrônica". "A gente criou o Strobo justamente para isso, para aproveitar essa brechas e começar a propor festas que são projetos de arte, que são exposições de alguma maneira; performances e exposições que também são festa", diz. O coletivo reúne "articuladores e artistas que estão nesses dois meios", define o curador.

Para Maurício, é "natural as galerias estarem abraçando, é o fluxo natural das coisas. Mas, segundo ele, não se trata de uma mudança radical na maneira como a arte será consumida e exposta. "Não acho que vai ser um grande 'turnover', que os coletivos serão agora 'a' parada". Para Lucas Pexão, curador e galerista, "as galerias estão muito ligadas ao mercado e obras multimídia são mais difíceis de colecionar e manter do que, digamos, uma obra bidimensional, como uma pintura ou uma fotografia, ou escultura".

A vida da arte multimídia se faz mesmo é na hora, na pista, na vida real. E é assim que o Tétano pretende seguir.

Assista agora: "Dia de Estreia EP01: Tétano", uma série VICE Brasil apresentada por Samsung.