Noisey

"Sinto remorso de algumas letras do 'Princesa'", diz Salma Jô, do Carne Doce

Em conversa antes do Popload Festival, a vocalista da banda goiana fez um balanço das turnês e polêmicas de 2017 para o Carne Doce e a cena indie rock brasileira.

por Amanda Cavalcanti; fotos por Débora Lopes
24 Novembro 2017, 5:00pm

Foto: Débora Lopes/VICE

Se 2016 foi um ano gigante para o Carne Doce, 2017 acrescentou alguns centímetros ao sucesso que a banda vem construindo do segundo álbum Princesa, lançado em agosto do ano passado. Com hits de nicho como "Artemísia" e "Falo", a banda se apresentou por diversas capitais do Brasil ao longo do ano e fechou a trajetória de sucesso de 2017 com um show no Popload Festival — ao menos simbolicamente, já que eles fizeram um show surpresa na Casa do Mancha no dia seguinte e seguem se apresentando pelo sudeste e sul.

Com o sol estralando no rosto em meio ao Memorial da América Latina no feriado de Independência da República, dia 15 de novembro, o Carne Doce abriu para nomes como Phoenix e PJ Harvey e teve suas letras acompanhadas em voz alta pela concentração do público que enfrentava a possível insolação na pista normal, distante do palco. No dia anterior, sentamos com a vocalista e peça central da banda Salma Jô nos bastidores do festival para falar sobre o balanço de 2017 — para o Carne Doce em particular, e para a cena indie rock brasileira em geral.

Foto: Débora Lopes/VICE

O Popload é, na verdade, um encerramento do ciclo de festivais em que a banda tocou ao longo do Brasil nesse ano: o Mada, em Natal, o Barulhinho, em Fortaleza, o Vaca Amarela e o Bananada, ambos na cidade natal da banda, Goiânia. O crescimento, tanto de ambos os festivais quanto de bandas conterrâneas ao Carne Doce, como o Boogarins, acompanham a mesma escalada gradual de aumento de público que o grupo vem angariando desde sua formação, em 2013, e que deu um salto com Princesa. Salma exemplifica a mudança de atitude e impacto da banda com suas três apresentações no Bananada: "Na primeira vez [em 2015] foi legal, na segunda vez foi 'banda de casa faz bonito', e na desse ano eu pensei chega, não quero esse negócio de banda de casa faz bonito. Eu quero superar, eu quero ser mais, eu quero ser uma das melhores bandas do festival. E aí eu foquei nesse sentido. Acho que a nossa performance foi uma das melhores mesmo."

Salma acredita que, depois de quatro anos de trajetória, a banda está finalmente conseguindo se livrar do estigma de "rock goiano" e partindo para ser uma banda que contemple o "nacional". No entanto, a ideia de sucesso — ou mesmo de mainstream — ainda é abstrata para o Carne Doce. "Eu acho que a gente tem umas barreiras no som pra chegar a ser mais popular. A gente segue uma fórmula meio rock’n’roll que está morrendo. Se você quer ser popular você vai virar mais BaianaSystem, vai investir num som mais dançante, em alguma coisa que se comunica mais com o que a galera quer ouvir hoje", fala Salma. "A gente não espera mais um grande salto e atingir milhares de pessoas e ficar gigante. Mas a gente tá aí, crescendo."

Foto: Débora Lopes/VICE

Ampliando o caminho desse crescimento, o Carne Doce começou a compôr esse ano o seu terceiro disco, que deve ser finalizado em 2018. A trajetória confirma que a lenda do segundo disco é real: agora que já conquistaram e engajaram um público fiel, a banda se sente mais livre para fazer o que bem deseja — que, segundo Salma, é um som mais introspectivo e triste. "Tenho notado isso em algumas bandas. O Boogarins, por exemplo, ficou bem sombrio e mais triste. Eles tinham uma coisa solar que no Lá Vem a Morte já não tem, e pelo que eu estou vendo que eles estão compondo para o próximo disco também não vai ser assim", diz. "Eu sinto que de certa forma isso reflete como o Brasil e as pessoas estão meio desencantadas e de ressaca politicamente. Muita gente reclama de uma falta de sentido e de muita ansiedade, mas ao mesmo tempo de um tédio muito grande."

Salma também comenta que o entrosamento do grupo melhorou com as tantas apresentações ao vivo. As canções, que antes surgiam entre ela e o marido e guitarrista Macloys Aquino, agora nascem como composições da banda inteira.

Mergulhado nessa temática melancólica, o novo rebento desvia da temática de Princesa, que, em momentos como "Artemísia", "Falo" e "Cetapensâno", gira em torno do feminino e do machismo que vem com ele. Com o assunto estando em voga mais do que nunca, a própria Salma admite que se sentiu obrigada, de alguma maneira, a tocar nessas questões. "[No disco] eu senti que estava falando mais de mim e dos meus sentimentos do que militando, mas ele foi bem propagado como 'hino', e isso meio que me forçou a ter uma representatividade que não era o que eu estava buscando ou querendo assumir."

O backlash não demorou a vir: durante a onda de acusações e denúncias de assédio de membros de bandas independentes que surgiu depois que a ex-namorada de um membro do Apanhador Só relatou suas experiências com machismo, o nome da Carne Doce apareceu em meio a tantos outros artistas. O membro envolvido no caso de abuso era um ex-integrante da banda, de sua primeira formação. Salma foi cobrada repetidamente sobre o assunto e atribui a frustração sentida pelos fãs, em parte, a conclusões precipitadas que eles tomaram por conhecer letras de Princesa.

"Às vezes eu sinto até um remorso. Muita gente passou ter uma ideia idealizada de mim ou de como eu deveria ser ou me comportar e pensar sobre vários assuntos diferentes [por causa das letras]", fala. "Isso me deixou mais reclusa, mais introvertida e menos aberta pra essa militância mais radical. Então eu não vou ser essa feminista, não vou ser nenhuma, foda-se. Me deu menos vontade de estar junto [do movimento feminista] e de mobilizar."

Com a explosão de comentários sobre o assunto, o Twitter da cantora se tornou popular entre os fãs por suas declarações controversas. "Já recebi mensagens como 'só escreve e canta, para de dar opinião'. Mas a minha opinião tá nas letras também. Eu adoro [o Twitter] porque você pode ser perverso, mostrar o que você tem de ruim, de feio, de medíocre. No Facebook eu sou outra pessoa, no Instagram eu sou outra pessoa. Então muita gente se decepciona comigo por lá. Mas no geral acho que tem muito menos hater do que gente que quer que você se dê bem e continue, e se desenvolva."

Foto: Débora Lopes/VICE

Num balanço final do ano, porém, Salma fica feliz que Princesa continue chegando bem para pessoas que ainda não o conheciam e conta que alguns dos grandes momentos de crescimento do Carne Doce aconteceram observando outras bandas tocarem durante esse ano de turnê. Como destaques, ela cita o Boogarins, o trio carioca Ventre e a Francisco el Hombre. Conversando com Mac e Aderson Maia (baixo), os dois tinham muitos elogios a fazer à performance ao vivo do quinteto cearense maquinas, com quem tocaram no festival Barulhinho em Fortaleza. "Ver outras bandas tocar e observar como eles lidam com o show, como eles se preparam, e a performance, isso às vezes é mais rico pra mim que o próprio som da banda", fala Salma.

E pra 2018? "O disco." Ainda sem nome, sem data prevista de lançamento e sequer com todas as músicas terminadas, o Carne Doce promete focar todas as energias do ano que vem em seu terceiro rebento. Mesmo sem a pretensão de um grande salto, a nossa aposta é que o grupo goiano se encontra prestes a quebrar o teto de sucesso que as bandas indies brasileiras conheceram e conquistar cada vez mais espectadores a um público que segue crescendo — como a própria Salma disse, o Carne Doce, agora, deixa de contemplar o "goiano" para contemplar o "nacional" e representá-lo.

Leia mais no Noisey, o canal de música da VICE.
Siga o Noisey no Facebook e Twitter.
Siga a VICE Brasil no Facebook, Twitter e Instagram.