Coronavirus

O antes e depois de mulheres que rasparam a cabeça na quarentena

A careca historicamente tem conotações diferentes para homens e mulheres – mas e daí? Se você quer raspar a cabeça, manda bala.
16 Abril 2020, 12:37pm
Women with shaved heads
Robyn, antes e depois de raspar a cabeça.

Uma semana atrás, falamos sobre o fenômeno de homens raspando a cabeça durante a quarentena – mas muitas mulheres também estão raspando.

Uma grande diferença é o estereótipo a que você pode ficar sujeito. Sendo homem, as pessoas podem achar que você é um simpatizante da extrema-direita ou alguém que poderia – parafraseando um ex-chefe – roubar a aposentadoria de uma idosa (o que é irônico considerando que a maioria dos homens de cabeça raspada nas grandes cidades são gays que curtem techno, só usam camiseta branca e queriam morar em Berlim).

Essas mesmas suposições não se aplicam a mulheres, mas tem muitas outras. Um estereótipo comum para mulheres de cabeça raspada é que elas se identificam com alguma parte do espectro LGBTQ+, ou querem ser vistas como masculinas ou andrógenas – o que não é ruim, claro, mas algo que historicamente é usado para desfeminilizar mulheres de cabeça raspada.

“Muitas pessoas estão me perguntando coisas relacionadas com meu gênero”, disse Jennifer, que raspou a cabeça esta semana, “mas só acho que se você quer raspar a cabeça, raspe independente de qualquer coisa”.

Jennifer com e sem cabelo.

“Tem essa percepção de gênero de como vemos cabelo e o cabelo das mulheres”, diz Kitty, que recentemente raspou a careca. Ela abordou a suposta ligação entre cabelo comprido e feminilidade – e como esse esteriótipo não é exatamente verdade e pode ser subvertido. “Sempre associei cabelo com ideias de beleza, particularmente quando era mais nova e tinha o cabelo bem comprido. Então é legal me apresentar de um jeito que não é controlado pelas ideias de beleza feminina das outras pessoas.”

Robyn, uma jornalista cuja a selfie de cabeça raspada rendeu mais de 2 mil likes no Twitter, tinha ideias similares – “A grande surpresa provavelmente é que não pareço menos feminina que antes”.

Diferente dos homens, que em grande parte seguem sua vida de careca sem muito questionamento, mulheres passam por outro processo de pensamento quando raspam a cabeça – a ideia de que elas podem estar doentes.

Grace

“Saí pra correr ontem”, diz Robyn, “e as pessoas estavam me dando bastante espaço. Eu não estava com maquiagem e sou bem pálida naturalmente, então fiquei com a impressão que as pessoas estavam olhando pra mim e pensando 'ela deveria estar na rua?' Como se eu tivesse feito quimioterapia ou algo assim”.

Grace, uma blogueira de Brighton, teve experiências similares nesses dois anos com cabeça raspada. “Muita gente acha que estou doente”, ela diz, “porque tenho o cabelo muito curto e sempre uso um cachecol. Uma vez, uma menina me viu num shopping e gritou 'mãe, por que aquela mulher não tem cabelo!?' Ri sozinha e segui em frente – achei fofo. Mas aí a mãe puxou ela de lado e ouvi ela dizer 'shhh – não fala isso, ela provavelmente está muito doente'”.

Ela continua: “Aí pensei 'não, preciso corrigi-las'. Então eu disse pra menina 'olha, raspei minha cabeça para levantar dinheiro para caridade'. Na verdade já tive um tumor no cérebro – aí eu disse para a mãe '[Mas] não suponha que estou doente'. Ela me olhou meio constrangida, como querendo se desculpar”.

Kitty

Grace originalmente raspou a cabeça para levantar dinheiro para o Brain Tumor Charity – um serviço de psicologia que a ajudou durante seu tratamento. Mas ter um tumor não foi um fator direto para o corte de cabelo. Apesar disso, ela ainda cruza com essa suposição de tempos em tempos – o que parece uma coisa muito de gênero – em todo o tempo que tive a cabeça raspada, nunca tive a impressão que as pessoas achavam que eu estava fazendo quimioterapia. Talvez um lado positivo do isolamento é que um número cada vez mais de mulheres de cabeça raspada possa acabar com essa estigmatização por gênero.

Mesmo que as visões sobre cabeça raspada possam ser diferentes por gênero, uma coisa as liga – raspar a cabeça é uma resposta extremamente catártica para o stress. Joely estava viajando pelo Peru quando a pandemia começou, um país onde o isolamento é muito mais restrito que nos EUA; ela não podia se exercitar, tinha polícia por todo lado, e quando conseguiu ir embora, ela teve que usar uma máscara o tempo todo.

Joely

“Nada muito emocionante aconteceu por muito tempo porque eu não podia fazer nada”, ela diz. “Então raspar a cabeça foi um alívio enorme. Pensei 'Vou fazer algo interessante, assim, quando voltar pra casa, alguma coisa emocionante vai ter acontecido'.” Resolver as coisas com as próprias mãos é algo que ecoou nas conversas que tive com homens e mulheres que rasparam a cabeça.

“A pandemia é uma situação estressante pra todo mundo”, diz Kitty, “ficar preso em casa, não poder seguir com sua vida normal. Raspar a cabeça me fez sentir que estava no controle de alguma coisa – foi meio que uma resposta ao stress, acho. Foi bastante libertador”.

Para Robyn, raspar a cabeça é um jeito de tirar o melhor da pandemia. “Essa é uma janela de oportunidade para as pessoas”, ela diz. “Agora é hora de fazer algo que você sempre quis mas nunca teve coragem. Para as mulheres, é muito catártico e um bom jeito de entender melhor sua relação com seu cabelo.”

Além disso, você simplesmente pode. O que mais você tem pra fazer?

@jamesdgreig

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