Masked protesters in Chile, December 2019
Identidade

30 fotos das feministas mascaradas do Chile

Elas tão bombando, mesmo com o governo tentando proibir máscaras em protestos.
10 Janeiro 2020, 1:53pm

Contas, penas, lantejoulas e pérolas enfeitam suas cabeças coloridas. Centenas delas. Algumas sozinhas, outras em grupos. Elas são todas diferentes, mas sua exigência é singular: parem de matar mulheres, parem de estuprá-las, permita que as mulheres participem da criação da nova constituição. Essas são as feministas mascaradas.

Usar máscaras era a norma no Chile nos anos 1980, por grupos esquerdistas encarando a ditadura. Máscaras eram um símbolo da resistência, revolução e insurreição. Nos anos 90, elas geralmente eram símbolos dos movimentos estudantis. Usar máscaras eventualmente começou a ser associado com criminalidade, em grande parte porque homens jovens mascarados faziam barricadas e jogavam pedras na polícia.

Mas hoje, o acessório vem se tonando um jeito cada vez mais prático de esconder sua identidade para evitar perseguição da polícia. Ele também funciona como uma barreira – mesmo que fraca – para o gás lacrimogêneo que a polícia joga de suas viaturas.

A associação negativa com manifestantes mascarados tem mudado nos últimos meses, com o acessório sendo reclamado por manifestantes feministas. “A perspectiva das máscaras mudou”, disse uma dessas manifestantes, Josefina, de 34 anos. “Mais e mais pessoas estão tomando as ruas, aí percebem que não podem andar com o rosto exposto. Você precisa se cobrir com algo assim ou um lenço, algo com que você possa cobrir os olhos, para se proteger do gás lacrimogêneo e tudo mais que a polícia joga pelo caminho. Você se vê coberta mesmo que não queira. Antes disso, eu tinha um sentimento negativo sobre pessoas mascaradas porque eram elas que quebravam coisas. Não mais.”

Josefina está andando por Santiago com uma caravana de mulheres participando de uma oficina de máscaras. Na mochila ela carrega uma máscara que ela mesma fez, com um zíper na boca. Nas mãos ela leva um grande cartaz dizendo “Máscaras Vermelhas na Resistência”.

“Somos mulheres e colocamos muito trabalho nisso. Coloquei muito amor na minha máscara. Fazer um traje de guerra, colocá-lo e gritar 'Dignidade' com todas essas mulheres aquece meu coração”, ela diz.

Dignidade é como o movimento social rebatizou a antiga Plaza Italia, o epicentro atual dos protestos em Santiago. Na pedra na base da estátua no centro da praça há uma nova placa de metal dizendo “Plaza Dignidade”.

A onda vermelha

Às 14h em Santiago, 50 mulheres de várias idades e origens se juntam num centro cultural a alguns metros da Plaza Dignidade. As mulheres se sentam num círculo no chão ao redor de um tapete bordado, uma tigela de incenso, com maté e frutas para compartilhar. Elas vieram para a reunião do “Mascarás Vermelhas na Resistência”, um grupo de mulheres que se encontra toda semana para organizar e criar intervenções artísticas em diferentes partes da cidade.

Depois que todas se apresentam, elas se dividem em grupos e seguem as instruções das costureiras, que distribuem moldes de papel para cada participante.

“O ideal é usar um tecido que estique”, diz uma das instrutoras, enquanto as participantes olham para os tecidos vermelhos numa caixa que é passada pelos círculos.

Cada uma escolhe seu tecido, o dobra no meio, e desenha o molde nele antes de cortar. Elas costuram com pontos internos as partes abertas dos lados curvos. Com giz branco, as mulheres se ajudam a marcar a posição dos olhos e boca antes de cortar os buracos. A máscara está pronta; agora é só decorar.

Pedaços coloridos de tecido são colocados no chão, assim como retalhos de pele falsa, com estampa animal, néon, seda e renda. Lantejoulas, pedrarias, laços, espelhos, contas e penas se espalham por toda parte. Com cola ou agulhas, as mulheres dão vida a seus alter egos.

O grupo de mulheres liderando a atividade faz isso há algum tempo. Depois da ascensão do movimento nacional feminista ano passado, elas começaram a realizar oficinas gratuitas ou de baixo custo para ensinar mulheres como fazer suas próprias máscaras. A intenção é compartilhar esse conhecimento e replicar essa oficina com outras.

“As mulheres mascaradas não mostram o rosto por medo de serem reconhecidas, não é uma questão de representação individual: o rosto delas é seu rosto, seu rosto é o meu rosto. Esse protesto é de todos e cada uma de nós, física e ideologicamente, vive num espaço de resistência”, diz uma declaração sobre as Máscaras Vermelhas. O documento é assinado pelas “mulheres mascaradas contra a lei antimáscaras”.

Foto por Carlos Molina.

“Esta é minha primeira máscara”, diz Javiera, 25 anos, enquanto trança tecidos azul e roxo para costurar em sua máscara. “Eu vim porque tudo que está acontecendo me arrepia. As máscaras feministas têm mais do que apenas olhos e uma boca. Nossas máscaras têm mais significado que as dos homens, que só servem para esconder. Gosto disso porque funciona como um contraponto. Não queremos apenas esconder nossos rostos, mas estamos nos representando do jeito como queremos ser vistas, ser ouvidas. As decorações não são apenas por estética; cada detalhe é importante para a mulher que usa a máscara. Cada mulher cria uma identidade para a máscara que reflete sua história.”

E as histórias são amargas. Elas são compartilhadas entre estranhas. Risos e lágrimas fluem entre os pontos enquanto memórias de estupro, violência e amor abusivo são compartilhadas. O valor da máscara vai além do acessório em si, é uma questão de um processo coletivo de criação, significa conhecer outras mulheres e criar uma rede de apoio.

Foto por Carlos Molina

“Esses são espaços femininos para compartilhar afeição, compartilhar chá enquanto elas criam algo com as próprias mãos”, diz a historiadora feminista Hillary Hiner. “Essa é uma prática feminista muito antiga. Muitos grupos feministas são dedicados a artesanato: tricô, bordado, costura. É uma recontextualização dessas tarefas, que são trabalhos de mulher há séculos, e agora servem um propósito mais feminista. As máscaras servem como um símbolo de rebelião, revolução e abordar a história de uma perspectiva feminista.”

Ximena, 63 anos, usa máscaras desde os anos 80. Ela estava protestando com seu coletivo de mulheres, que trabalhou para converter uma antiga câmara de tortura usada durante a ditadura num memorial, quando decidiu usar o banheiro no centro cultural – foi assim que ela topou com essa oficina. A cena, ela diz, trouxe memórias de sua juventude. Na época ela se organizava com outras mulheres no mesmo prédio durante a Unidade Popular, o governo socialista liderado pelo esquerdista icônico do Chile Salvador Allende. A ditadura tomou o poder em 1973. Ximena ainda carrega a máscara na bolsa: um lenço preto com dois buracos para os olhos, um grande R de resistência pintado com tinta branca. Ela disse aos filhos que quer ser enterrada com a máscara.

Depois que as mulheres terminam suas máscaras, elas se vestem de vermelho e andam em massa até a Plaza Dignidade. Quando chegam ao ponto de encontro, o grupo cresceu para 200 pessoas. Todo mundo coloca suas máscaras e começa a cantar e dançar com “Um estuprador no seu caminho”, uma música do coletivo feminista Las Tesis, que se tornou um hino feminista no Chile e no mundo. “Não foi minha culpa, nem de onde eu estava e como estava vestida. O estado opressor é um homem estuprador”, a onda vermelha canta.

Feministas combatendo a lei antimáscaras

No começo de novembro, a administração do presidente Sebastián Piñera introduziu uma lei no Congresso para penalizar o uso de máscaras em espaços públicos. A lei proíbe o uso de qualquer obstrução facial durante os protestos e aumenta a multa por conduta desordeira se uma pessoa tem o rosto escondido. A pena máxima pode ser de três anos de cadeia. A lei foi aprovada no Senado e está em processo legislativo. Enquanto isso, as máscaras estão se tornando mais e mais predominantes.

Foto por Carlos Molina

“Essa lei é um blefe para desviar a atenção do que é importante. Somos totalmente contra”, diz Andrea, 29 anos, que usa uma máscara branca com orelhas de coelho, óculos de proteção transparentes (o que é comum devido ao aumento do número de ferimentos nos olhos) e batom preto.

Andrea é membro do Complejo Conejo (Complexo Coelho), um coletivo de arte têxtil dedicado ao direito ao anonimato. Considerando o contexto social, elas decidiram se devotar a criar máscaras com tecidos doados, que depois distribuem de graça em manifestações no centro de Santiago.

“Queremos que as pessoas usem máscaras como um rosto para lutar e se defender”, ela diz. “O direito ao anonimato anda de mãos dadas com a liberdade de expressão, de não ser punida por exigir direitos humanos básicos. Quem são os mascarados? Não são criminosos, agora é todo mundo.”

Foto por Carlos Molina

Até o momento, apesar das ameaças diárias nas redes sociais, o Complejo Conejo já distribuiu mais de 700 máscaras, e elas brincam que não vão parar até que todo o Chile esteja mascarado. Elas têm tido tanto sucesso na distribuição de máscaras que começaram a receber encomendas de outras regiões do país e do exterior. Para atender a procura, elas desenvolveram um tutorial para que as pessoas possam fazer suas próprias máscaras.

Andrea e sua equipe estão entregando máscaras na Plaza Dignidade. Enquanto algumas seguram cartazes dizendo “Máscaras Grátis! Pelo direito ao anonimato”, com as máscaras penduradas num varal, outras atendem a fila de dezenas de pessoas esperando para pegar seu acessório. Hoje elas têm um convidado especial, um membro do Protected Data, uma fundação que trabalha com direitos de privacidade e proteção de dados pessoais, que está respondendo perguntas sobre a lei que proíbe o uso de máscaras.

Foto por Carlos Molina

Uma das sortudas na fila é Antonia, que recebe uma máscara laranja com estampa de onçinha azul metálico.

“As máscaras se tornaram úteis, por um lado, para nos cobrir porque eles estão nos envenenando, mas também nos tornam mais visíveis”, diz a mulher de 27 anos. “Essas máscaras servem para trazer visibilidade para nossas propostas, nossa própria agenda, e para nos identificar como grupo. Se você encontra uma parceira com a máscara, você sabe que pode encontrar apoio nela.”

Foto por: Carlos Molina

Veja mais do trabalho de Mila Belén no [Instagram](https://www.instagram.com/mila.belen/)._

Matéria originalmente publicada pela VICE América Latina.

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Tradução do inglês por Marina Schnoor.