Acompanhamos a Gravação do Novo Álbum do Mukeka di Rato

Com produção dos “irmãos Rocha” Daniel Ganjaman e Fernando Sanches, ‘Hitler’s Dogs Stalin Rats’, o disco que representa o auge da banda segundo os próprios integrantes, está a caminho.

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09 Dezembro 2014, 2:10pm

Foto e vídeo por: Felipe Larozza/VICE

O Mukeka di Rato se reuniu em São Paulo para gravar seu sétimo álbum no estúdio El Rocha. Este será o terceiro trabalho de inéditas que a banda de hardcore formada em 1995 em Vila Velha (ES) lança desde o retorno do vocalista original à formação, o Sandro. Adentramos no estúdio pra dar aquela esguelha em como está ficando mais esse pescotapa sonoro bem na hora em que eles, mais o Ricardo Tibiu, estavam gravando os backing vocals num cover do Ratos de Porão que fará parte do repertório, "Guerra Desumana". A faixa não foi escolhida por Sandro, Mozine (baixo/voz), Paulista (guitarra/voz) e Brek (bateria) ocasionalmente. Na verdade, a fita tem a ver com a temática da obra a caminho. O trampo novo do Mukeka chega fortemente influenciado pelo crust e as letras estão um pouco menos humoradas do que nas produções anteriores, porém ainda criativas e finamente articuladas.

É que o disco, nomeado Hitler's Dogs Stalin Rats, fala de guerra. Aborda conflitos entre diferentes culturas e nações, e a conspiração entre máfias e governos contra o povo. Do pouco que testemunhamos sorvendo umas brejinhas que os caras fizeram questão de sair para nos comprar, já deu pra sacar que vem um discaço pela frente. Foi louco ter encontrado toda a galera por lá. Desde que deixei a casa dos pais, comecei a trampar em jornal diário e a pagar aluguel, nunca mais tinha trombado vários manos do rolê punk com quem voltei a trocar ideia por conta dessas pautas aqui na VICE, onde eu não preciso mais fazer matéria sobre novela. O Mozine fazia tipo uma década que eu não via. Foi até engraçado porque ele estava lá esperando chegar "a equipe da VICE", e quando me viu, veio se apresentar: "Prazer, Mozine". "Como assim, 'prazer', será que mudei tanto assim?", pensei. Só depois que o bicho se ligou em quem eu era e desacreditou. Caímos na risada.

Quase vinte anos se passaram e esses caras não perderam o gás nem o espírito "grind manco" - para usar um termo do próprio baixista - que os fez relevantes no punk tupi. Soma-se a isso a sensibilidade e a experiência dos irmãos Fernando Sanches e Daniel Ganjaman, que assinam a produção, e fica a certeza de que podemos ser surpreendidos com o melhor álbum do Mukeka até aqui. O bagulho vai ter até, pela primeira vez, umas faixas cantadas noutras línguas, no caso em inglês, espanhol e italiano. Segundo o Ganja, gravar um som tão específico como o do Mukeka, rápido, pesado e distorcido, requer algumas considerações. "Nos últimos anos, todos os convites de trabalho que tenho recebido são sempre buscando um som refinado e grandioso", disse ele. "O Mozine me ligou pedindo a gravação mais podre que eu já realizei na vida, e foi o que me fez topar no ato! Temos que confessar que o Fernando buscou 'errar' em alguns quesitos técnicos pra captar tal sonoridade e eu acredito que esse sempre foi o nosso diferencial trabalhando com artistas do segmento."

Ele comentou também a referência peculiar que a banda mandou pro estúdio: "Foi foda receber o Anti-Cimex como parâmetro de sonoridade de gravação. O próprio Mozine questionou a dificuldade de chegar nisso porque é impossível imaginar e reproduzir a precariedade com que a coisa foi concebida. Mas o intuito é deixar tão brutal quanto." O mais recente trabalho que o Ganja assumiu nessa praia foi a mixagem do penúltimo álbum do RDP, Homem Inimigo do Homem, em 2006. Muita gente associa o nome dele às mixagens e produções para artistas como Criolo, Racionais MC's, Sabotage, Planet Hemp, Tulipa Ruiz, coisa e tal. Mas quem é do movimento sabe que quando o El Rocha foi inaugurado, em 1997, sua clientela era composta basicamente por bandas punk/hc. "Naquela época, como os álbuns, EPs, demos e coletâneas eram gravados em curtos períodos de estúdio, devo ter sido responsável por mais de 100 discos nesse estilo. Foi uma escola absurda e que me ajudou muito na formação como engenheiro e produtor", lembra o produtor.

O lançamento físico de Hitler's Dogs Stalin Rats, em CD digipack e vinil de dez polegadas, ficou para março de 2015, mas reza a lenda que em algum momento antes do final do ano já estará disponível no iTunes.

Noisey: Como é geralmente o processo de criação e gravação do Mukeka di Rato hoje em dia? Vocês se reúnem pra testar ou discutir as ideias ou fazem as coisas remotamente?
Mozine:
Atualmente é mais difícil do que nunca, porque o nosso baterista, o Brek, mora em São Paulo tem alguns anos já, uns dez anos. Eu, Paulista e Sandro moramos em Vila Velha. Então esse processo complica um pouco. Com relação às músicas, não tem nenhum mistério, não é nenhuma sinfonia. Base, bateria, refrão, repete três vezes [risos]. Um ou outro detalhe que complica às vezes, mas no geral é muito simples. Mas faz um pouco de falta a assiduidade de ensaiar, de tocar direto essas músicas. O Atletas de Fristo, nosso disco mais recente, foi assim também. Nós temos entrado um pouco crus no estúdio, sem estar com o negócio certeiro na cabeça. No Carne, que a gente fez na Deck Disc, a gente se reuniu numa casa e ficou três dias trancado. Dormia lá, fazendo as músicas... Entramos no estúdio sabendo muito mais do que aqui. Só que as músicas são simples, esse disco é mais crust. Então não tem muito problema. Quando o Brek foi pra Vila Velha visitar a família, tiramos um dia, ensaiamos e fizemos uma pré-produção bem simples, uma gravaçãozinha. Quando a gente veio fazer um show em São Paulo no Hangar, chegamos um dia antes, pra poder fazer um ensaio de quatro horas. E assim foi. Tecnologia, cara! Whatsapp! Vamos conversando pelo Whatsapp, discutindo as passagens das músicas. É basicamente o processo de sempre do Mukeka, que é simples, se encontrar e fazer. E como tem essa distância vamos dando um jeito, sacou? Eu acho que tanto a gravação do Atletas de Fristo como essa são um pouquinho cruas, mas essa está indo melhor. O Atletas... tinha música que nem sabíamos como seria. O arranjo das músicas foi o que o Brek fez na hora lá.

O que mudou no comportamento de vocês em estúdio com a experiência acumulada nesses quase 20 anos de banda?
Mozine:
Estamos bem mais seguros. Eu tava gravando o baixo mais cedo hoje, tinha um monte de gente aqui, e não tava nem aí, sacou? Antigamente, não é que eu ficava nervoso, mas alguém entrava... E, por exemplo, eu tô tomando cerveja aqui tem um tempinho já. Mas quando cheguei pra gravar o baixo eu tinha tomado uma cerveja só. Quando eu gravei uma outra banda minha, Os Pedrero, no Rio de Janeiro, eu cheguei lá tomando um monte de cerveja, gravei tudo duma vez, fui pra casa rindo: "Gravei tudo num dia!". Aí quando foi no outro dia eu vi que não valeu nada [risos]. O cara botou pra eu ouvir, tava tudo desencontrado. Sei lá, o negócio é simples, é hardcore, mas tem que ter o mínimo de cuidado pra sair legal.

Foto: Felipe Larozza/VICE

Que sons vocês mais curtiam no começo da banda e o que andam escutando hoje? Essas coisas acabam influenciando diretamente na música do Mukeka?
Mozine:
Desde o princípio, todos os quatro integrantes do Mukeka ouvem de tudo. Os caras sempre foram fãs de Fugazi – mais o Paulista e o Sandro -, umas coisas assim, mas ao mesmo tempo os dois também ouvem uns Napalm Death, uns troços nessa linha. O Brek sempre ouviu de tudo, e eu sou um cara que escuta mais uns negócios americanos toscos. Fora que a gente escuta samba, essas porra tudo. Nirvana, a gente gosta pra caramba e ninguém acredita... Nós também ouvíamos muito Pavement uma época, e ninguém acredita. Não vou dizer que tem influência direta de Pavement no Mukeka, mas se você pegar o Gaiola, por exemplo, tem uma música que é mais hardcore, tem outra que é um pouco mais crust, enquanto outra é mais punk rock. Todo disco do Mukeka segue um pouco essa linha. Nós até andamos conversando sobre isso. Todo disco do Mukeka naturalmente sai dessa forma. O Pasqualin é meio uma colcha de retalhos. Eram as primeiras músicas, primeiro disco, chegamos querendo gravar tipo 38 sons. O Pasqualin tem uma certa unidade, mas ao mesmo tempo hoje nós nunca mais faríamos um álbum com milhares de músicas.

Embora os discos do Mukeka sempre tenham essas diferentes sonoridades coexistindo, acompanhando um pouco da gravação dá pra perceber que o novo trabalho segue uma levada nitidamente crust. Isso foi planejado ou as músicas saíram naturalmente dessa forma?
Mozine:
Então, nesse álbum foi assim. A gente gosta de crust pra caralho, ouvimos isso a nossa vida toda, é influência. O nome Läjä Rex, da minha gravadora, tem uma grafia inspirada no Terveet Kädet que ouvíamos muito, Anti-Cimex... Estávamos conversando sobre isso e pensamos que seria legal fazer uma porra dum disco crust, só com músicas mais nessa linha. Mas não foi nada muito planejado, foi uma ideia que saiu assim num bate-papo. Inclusive posso até te adiantar um negócio, o nosso próximo vai se chamar 40 Carnavais e Uma Noite. Queremos fazer um negócio, que talvez... Não sei nem se a rapaziada vai gostar muito. A gente quer misturar umas baterias do Crass com umas coisas meio Minutemen, com samba. Não tem muito essa de "vamos pesquisar aqui o que está legal para fazer agora". Como não nos encontramos muito, geralmente essas coisas aparecem quando nos encontramos e ficamos juntos em turnê, tocando, falando... Daí que surgem as brincadeiras. Ontem mesmo, a gente anotou uma ideia de nome de música, "Grind Manco". Foi uma zoeira, imaginamos o Brek fazendo umas batidas de grind meio atravessadas, pulando umas peças assim, daí alguém falou "Parece um grind manco essa porra!". Essa ideia combina com a proposta do 40 Carnavais [risos]. Então, por exemplo, se a gente um dia vier a fazer esse som, vai ser igual várias músicas nossas... Um negócio que começou com uma piada, que a gente achou o nome legal, e a partir do nome desenvolvemos uma temática pra essa letra. A parada é muito livre, muito solta.

Esse álbum vai ser lançado pelo seu selo, a Läjä, né? Cara, com um esquema independente já tão bem amarrado, porque na época do Carne você abriu mão de lançar a parada por si mesmo e entregou na mão da Deck Disc?
Mozine: Tem essa minha outra banda, Os Pedrero. Quando gravamos o primeiro disco, muita gente dizia que o vocal da época, o Zuzu, cantava bem pop, parecido com o som dos Raimundos. E alguém da Sony pirou com Os Pedrero, os caras queriam lançar, apostando que ia fazer o maior sucesso. Só pra você ter ideia, pra se localizar no contexto, não tinha nem a Pitty na Deck ainda. Não sei nem se tinha o CPM 22 já fazendo sucesso. Só que aí esse vocalista desencanou da banda antes do lançamento do disco. O disco tava prensando quando o cara saiu. Mudamos de vocalista, mudamos tudo, e acabou não rolando. Resumindo essa história: esse olheiro da Sony, em determinado momento foi pra Deck. Aí o Rafa Ramos, que já conhecia a gente de nome, ligou querendo saber d'Os Pedrero. Nós mostramos pra ele uma demo do nosso segundo disco, e ele não gostou. Os caras queriam mais aquela situação do Zuzu e tal. Daí ficou esse contato com o Rafael. Então nós estávamos articulando a volta do Sandro ao Mukeka di Rato. O contato com o Rafa se iniciou por causa d'Os Pedrero, rolou tudo isso, e nessa onda ele contratou a gente pra fazer o Mukeka di Rato. Antes de gravar o Carne, Os Pedrero gravou com ele o Sou Feio Mas Tenho Banda. Ele quis conhecer a gente, ver como funcionávamos em estúdio. Mas aí gravou, ele me deu a gravação de presente, eu lancei pela Läjä, e na sequência fomos fazer o Carne com ele. A Deck nunca nos prometeu nada, e nós também nunca esperamos nada demais. Nunca tivemos uma expectativa profissional, somos muito conscientes do tipo de som que fazemos. Pra gente foi perfeito porque foi gasto zero, aprendizado de estúdio, o Rafa ensinou coisas que não sabíamos, lance de como se comportar no estúdio e tal. Essa correria que eu falei, nessa época não teve tanto isso. Conseguimos ficar no Rio um tempinho, num hotel, isso foi legal pra banda. Eu acho o disco bom pra caralho, comparo o Carne ao Gaiola, pra mim é um recomeço, a volta do moleque pra banda. E foram três clipes bem feitos, que o Rafa ajudou a fazer. Hoje em dia, o Carne tá na Läjä, ele me deu. Na época nunca ninguém criticou o fato do Mukeka ter ido pra Deck... Você ficou sabendo de alguma crítica, Sandro?

Sandro: Eu acho que um certo segmento, da galera mais anarco-punk, que acompanhou o grupo na fase anterior, a partir desse momento deixou de acompanhar. Pelo menos foi o que eu ouvi do pessoal de São Paulo, de Aracruz, da Bahia... Rolou essa crítica, sim, mas foi aquela crítica genérica, sem pegar o conteúdo. Aquela crítica pronta, sabe? Tipo, leu a manchete: "Ah, o Mukeka assinou com uma grande gravadora, então foda-se". Duvido que os caras prestaram atenção. Ouve o disco Carne. Ele é um disco azeitado? É um disco pra tocar no Faustão? Não é, né, cara! Nós aceitamos gravar com a Deck, mas nós sabíamos que não ia rolar nada estranho. Tipo, a gente só ia passar batom se quisesse, jamais aceitaríamos os caras passando batom na gente. E saiu o que saiu. De certo modo, teve um segmento da cena que deixou de acompanhar a banda. Fazer o que, né? As pessoas vivem às vezes na superfície.

Do que falam as letras novas e como vocês chegaram nesse jeitão humorado de fazer crítica social tão marcante?
Sandro:
Tem um paradigma disso dentro do punk que foi inaugurado pelo Dead Kennedys, eu acho. Não consigo ver outra banda antes deles que consegue explorar essa coisa do humor com a crítica. Acho que isso é mais do Mozine até, eu aprendi muito com ele, no início eu tinha umas letras que eram calcadas um pouco no panfleto, e com o tempo fomos aprendendo a mudar isso. O Mozine mais com essa veia dele mesmo, sarcástica, irônica. Mas talvez, esse novo disco não tenha tanto a ironia e o sarcasmo porque pra falar de guerra, tanto a guerra entre nações como a guerra que as máfias e o estado travam contra o povo, é um pouco difícil. Nesse disco você vai achar alguma coisa ali que tem esse lance, mas a própria temática dificulta a exploração dessa linguagem. Esse álbum fala desses dois tipos de guerra, as letras giram nesse eixo. Tanto que escolhemos até um cover do Ratos de Porão pra gravar, "Guerra Desumana". Dentro desse contexto, dá pra ser sarcástico, mas não dá pra ser muito humorado. Por exemplo, o Atletas de Fristo é um disco mais humorado, já o Carne, nem tanto. O Carne é mais sarcástico, e não irônico, porque é diferente, né. Nesse novo não tem muito isso, mas também tentamos escapar ao panfleto.

Foto: Felipe Larozza/VICE

Estamos aqui no Rocha, um estúdio que já gravou tantos discos de hardcore, e só agora vocês quiseram experimentar para ver como o Mukeka soaria com a produção dos caras?
Mozine: Na verdade esse é o primeiro disco que a gente grava em São Paulo. Gravamos em Brasília nosso primeiro disco, mas simplesmente por falta de conhecimento, porque assinamos com a RVC que era de lá. Não tô falando mal, mas é que nós não escolhemos. Foi tipo assim: "Pintou? Vamos lá, vai ser maneiro"... Mas, enfim, esse foi o primeiro disco em que a gente escolheu. Eu já tinha gravado em São Paulo com outra banda minha, o Merda, com o Chuck (Hipólito, do Vespas Mandarinas). Mas do Mukeka, é uma parada inédita escolher sair de Vitória pra gravar. Costumamos gravar muito por lá mesmo.

E o que motivou essa escolha? Alguma razão especial?
Mozine: Isso aqui é uma tentativa de resgatar aquela coisa que te falei, que tá fazendo muita falta. Eu sinto falta da banda, sinto falta de coisas como quando gravamos em Brasília. Quando a gente foi fazer a capa do disco... os quatro dormindo lá, numa fazendinha, nos colchõezinhos... Dá saudade. Porque o nosso relacionamento é muito bom, mas somos um monte de velhos, né [risos]. Então, tem atrito. Mudou. Não é mais aquele clima de acampamento jovem de 15 anos em que tudo é legal. Igual ontem, saindo da gravação, fui embora com o Sandro, tomamos um lance e fomos dormir. Eu sinto falta um pouco disso, sacou? Tem uma coisa que os caras nem sabem, já particulando: pro próximo disco do Mukeka, eu queria me trancar numa casa, ou num sítio, fazenda, e montar um negócio lá, isso é um negócio que ainda não fizemos.

Tipo Exile On Main Street...
Mozine:
Não é nada inovador, mas o Mukeka vai buscando as coisas. A fórmula é fácil, hoje em dia dá pra fazer um disco até sem que o Brek precise ir pra Vitória. Mandava uns beats pré-gravados, montava e pronto. É que acho importante a banda ter momentos de reunião.

Vocês já devem ter passado por fases em que ficavam de saco cheio um do outro. O que aconteceu para que a convivência se tornasse mais harmoniosa, mais de boa?
Mozine:
Eu tenho uma teoria sobre isso. Acho que a partir do momento em que conseguimos nos estabelecer com nossas profissões – o Sandro é pesquisador e professor, o Paulista é bancário, o Brek é publicitário e eu tenho um selo -, a partir do momento em que o dinheiro gerado pelo Mukeka não é fundamental, mas sim um "plus a mais" [risos], nós passamos a ficar mais relaxados. A pior coisa de ter uma banda como o Mukeka, na minha opinião, é chegar nos lugares. Eu me estresso muito em viajar. Acho muito chato, porque a gente mora em Vitória e os voos de lá não são bons. Temos que fazer escalas horríveis e essa parte me estressa. Só que quando eu chego no local do show, esqueço todos os problemas. É festa. Numa época do Mukeka, quando tentamos viver de banda, eu lembro bastava um show cair, um contratante não pagar... Que, bicho, era uma doidera! Gerava treta. Agora já tem muito tempo que não rola um atrito sério.

Sandro: Acho que é isso mesmo. A coisa muda com o tempo, mas a gente vê que está em outro contexto. Já tivemos mais desentendimentos por causa disso, ou por causa de gravação, letra. Mas hoje já estamos meio velhinhos, e conseguimos superar isso aí.

Dever ser muito louco fazer parte de uma banda de hardcore tão longeva e clássica como o Mukeka porque você acaba tocando para diferentes gerações. Vocês perceberam o público meio que se renovando nos shows ao longo do tempo?
Sandro:
O público se renova, a cada cinco, dez anos. As pessoas perdem aquela explosão da juventude, e às vezes não é nem por gosto, é por conta das próprias obrigações da vida. Nego tem que comprar leite, comprar fralda, feijão... E às vezes não acompanha tanto... Mas o que eu acho mais bacana do Mukeka nesse processo todo de acompanhar diferentes gerações é que várias pessoas que a gente encontra aí nesse rolê todo doido, tem moleque novo e cara velho que vem, puxa conversa, e fala "Porra, vocês mudaram minha vida". Igual esses dias no Hangar, eu tava conversando com um cara do Mato Grosso do Sul, de um lugar distante da capital, ele tem uma banda chamada Xupakabras. O cara falou que tinha muita influência do Mukeka. Aí eu perguntei como chegou o som do Mukeka pra ele. E ele descobriu pela MTV. Pra você ver, isso é uma coisa que deixaria os punks doidos, mas foi o modo que encontramos de fazer nossa mensagem chegar. O que eu acho mais legal do nosso trabalho é isso, saber que nessa porra-louquice toda nós tocamos um cara lá do interior do Mato Grosso do Sul, incentiva o cara a montar uma banda, a tentar um curso de relações internacionais, de administração, contabilidade, jornalismo, sociologia, publicidade, do caralho a quatro que for... Acho que o Mukeka trouxe algumas referências pras pessoas, que não são necessariamente óbvias, e sim calcadas na provocação e na reflexão, e que fez as próprias pessoas se sentirem provocadas a mudar as coisas em suas vidas. Acompanhar uma cena independente, ou então ser um profissional ético e fazer algo digno pro mundo.

Quando o Mukeka começou, vocês nem sonhavam que a banda duraria tanto tempo ou influenciaria tanta gente, falaí?
Mozine: Rapaz, era tudo muito despretensioso. Começou eu, o Brek e o Dudu, que foi o nosso primeiro guitarrista. Mas o Sandro logo entrou, eu tava procurando vocalista e me indicaram ele. A gente ensaiava no banheiro de um ginásio lá, o Tartarugão [risos].

Sandro: É, mas antes era no sótão do laboratório de análises clínicas [risos].

Qual foi o auge do Mukeka di Rato, na opinião de vocês? Teve uns anos que vocês faziam parte daquele apanhado seleto de bandas underground que entupiam o Hangar 110 ou qualquer festival. Lembro que a molecadinha de banda nova adorava marcar show junto com Mukeka, Noção de Nada, Dead Fish, Street Bulldogs, porque eram os grupos que mais atraiam público...
Mozine: Se fosse pra fazer um gráfico da história da banda, veríamos que o Mukeka teve uma ascensão muito alucinada, depois caiu numa fase, voltou, se estabilizou, mas nunca mais alcançamos aquele pico. Mas eu vou dar uma filosofada [risos]... Acho que na real o auge do Mukeka é conseguir fazer o que fazemos agora. Conseguir manter uma linha de pensamento coesa, fazer um disco de crust, um disco de samba... É Mukeka, é coeso pra caramba. E manter uma linha de relacionamento também é muito bom. É uma merda você estar numa banda, viajando com um cara com quem você não queria estar, rusgas mal resolvidas... Por isso, pra mim, o nosso auge é agora. Óbvio que numa época teve um público maior...

O Gaiola, por exemplo, esgotou várias prensagens num contexto em que neguinho se matava pra conseguir vender mil cópias...
Mozine: O Gaiola chegou às 12 mil cópias, se não me engano. Fora os 500 LPs. Foi uma fase que, em termos mercadológicos, rendeu. O final da promoção do Gaiola com a saída do Sandro, ali começa o declínio, vamos dizer assim. O Sandro saiu do Mukeka de forma muito abrupta, do nada, e nós colocamos o Bebê de um jeito muito impensado também. Não tô querendo criticar, não, porque o Bebê, naquele momento, segurou um rojão do caralho. Poucos caras teriam saco pra segurar aquilo ali. Mas ao mesmo tempo não posso dizer que foi algo planejado colocar o cara. Ele tava próximo e se incorporou. Os discos de estúdio com o Bebê eu acho muito bons, só que esse período aí foi o pior de relacionamento entre a banda. Nós tínhamos muitas críticas pra ele nos shows, musicalmente falando. Rolava um problema com ele. Ele interagia com a galera, mas tinha muita gente que reclamava.

Mas aí o Sandro voltou pra banda e ficou tudo certo...
Mozine: Olha só como são as coisas, quando o Sandro voltou pro Carne, uma determinada geração, que pegou a fase do Bebê, achou ruim, questionando o cara que era o vocalista original! [risos] Chegava gente torcendo o nariz: "Quem é esse cara aí?!". Esse cara é quem montou a banda, porra! [risos]. Fala aí que não é o auge um monte de cara velho, com filho, conta pra cacete, se dando bem e fazendo hardcore? Naquela época, minha maior preocupação era uma conta da Claro, de R$ 100, pra pagar. Hoje em dia tem preocupação com doença, morte, um monte de coisas... [risos] e nós ainda estamos aqui, fazendo shows nuns lugares longe, aos quais é desgastante ir. E a gente se entrega quando vai, sacou? É aí que realmente rolam os 40 Carnavais e Uma Noite...