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A Embaixada dos EUA Azedou o Esquema do Côro MC no Converse Rubber Tracks

O rapper cearence, selecionado para gravar no lendário Sunset Studio, em Los Angeles, teve seu visto negado duas vezes. Para ele, a explicação é uma só: “Temos cara de pobre”.

por Eduardo Ribeiro
10 Setembro 2015, 7:52pm

O projeto Converse Rubber Tracks WorldWide tem a proposta de promover um intercâmbio global com 84 bandas, patrocinadas e selecionadas pela marca, para gravar em 12 icônicos estúdios ao redor do mundo. Do Brasil, sete artistas em início de carreira foram escolhidos para gravar no exterior, entre eles o rapper revelação de Fortaleza Côro MC. A lista foi divulgada há apenas uma semana, e no regulamento consta que cada um dos artistas terá até dois dias livres em um determinado estúdio. Quando o Côro ficou sabendo que ia poder desfrutar de toda a técnica e infraestrutura do mítico estúdio Sunset Sound, em Los Angeles, ele ficou felizão da vida. Mas o dito do "alegria de pobre dura pouco" se fez presente de novo, e o Côro sentiu na pele e na alma o peso da sabedoria popular quando teve o seu visto negado pelo Consulado dos Estados Unidos no Recife, onde ele colou a fim de tentar se agilizar para a viagem.

“Nós fomos lá fazer o procedimento, e logo na primeira entrevista tivemos o visto negado. Negaram o nosso visto duas vezes. Na primeira negativa, disseram que a gente não tinha vínculo o suficiente para comprovar que íamos só fazer a produção da faixa lá fora”, ele me contou ao telefone. Na pura ingenuidade, o Côro achou que tinha se ferrado por não levar as passagens e o regulamento do projeto. Depois, ele foi sacar que o buraco era mais embaixo. “Pensei que eles estavam só pedindo mais documentos que comprovassem que realmente faríamos viagem de ida e volta. Contatei o pessoal lá de fora, com quem fechamos de participar, e eles mandaram mais documentos do projeto, o regulamento, e até uma matéria da Forbes”, detalha.

Como o regulamento permite que o artista viage com mais quatro parceiros criativos, ele chegou acompanhado, para a segunda entrevista, do Carlos Gallo e dos camaradas do RDF, grupo do qual faz parte. Ele fez tudo direitinho, agilizou os comprovantes de passagem, mostrando que já estavam pagas e tudo mais. Chegando lá, segundo ele, foi recebido com constrangimento. “A moça chamou o próximo e, quando viu o Gallo, já olhou com aquela expressão, meio como quem diz ‘O que esses caras estão fazendo aqui de novo?!’. Aí ela nos envergonhou dizendo bem alto: ‘As coisas não ficaram claras da outra vez que vocês estiveram aqui?’”.

Novamente, Côro escutou o mesmo argumento de que nada daquilo comprovava vínculo forte com o Brasil, garantindo o retorno. Ele conta que “a atendente respondeu que achava muito estranho uma banda marcar duas entrevistas em menos de três dias”. Então veio o supervisor do departamento, conversou em particular com o Côro, refez todas as perguntas da primeira ocasião, examinou mais uma vez a documentação, e chamou o restante do grupo. Enquanto os meninos se aproximavam, o supervisor já lançou mão de cinco folhas. “Nessas eu já sabia, aquelas eram as folhas que eles dão quando negam o visto”.

Depois de ter passado por toda essa fita, a interpretação do Côro sobre o significado do termo “vínculos fortes com o país” é uma só: uma conta bancária abastada. “Foi por causa do lance de dinheiro”, protesta, “se eu tivesse um monte de dinheiro no banco, eles teriam aprovado. Tava na cara desde o começo. Do meu lado havia um cara que era dono de uma construtora, e uma outra mulher que era gerente de vendas da loja do marido dela. Todo mundo rico, daí passa. Acho que imaginaram que nós queríamos mesmo ir pra ficar, porque temos cara de pobre. Somos pobres. E eles sabem que lá é a terra do rap, né."

Carlos Gallo está indignado. Quem sabe, se a viagem deles fosse para gastar dinheiro em Miami, como disse o Don L, estaria tudo certo. Mas um artista brasileiro de rap, lutando para realizar um sonho... Ah! Isso não conta ponto. Ele e o Côro queriam até fazer uma denúncia, mas os dois não têm provas do que consideram um “tratamento frio e preconceituoso”. “Eu nunca passei por uma situação assim. Mas não pode nem entrar com gravador lá, pra registrar a conversa e mostrar pra um advogado. Eles mandam lá, literalmente. É osso!”, desabafa Côro. O Noisey contatou a assessoria de imprensa do consulado norte-americano relatando o caso e questionando a razão de se impedir que um artista possa viajar como participante de uma ação cultural legítima. Só disseram que, por lei, os motivos de negação de visto nunca são comentados ou revelados.

Na intenção de amenizar as coisas, checamos com a Converse e a marca garantiu que ainda vai rolar o Rubber Tracks do Côro, porém não na gringa. Será num estúdio brasileiro participante do projeto. O Côro MC pretende conseguir gravar uma nova faixa e também mixar o restante do seu álbum, que já está pronto. É um trampo que ele fez em parceria com o Billy Gringo. O rapaz está contente com a chance garantida, claro, só que não menos puto com o que aconteceu. “Já tava tudo esquematizado com o cara que ia ser o técnico. Ele até já tinha falado que daria tempo de fazer”, lamentou.

A VICE e o canal Noisey, que colaboram na curadoria e produção do Converse Rubber Tracks e que indicou a participação do Côro MC, continuará acompanhando o desenrolar dessa história.


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