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MC Côro foi a exceção à sua própria regra

Depois de participar da etapa global do Converse Rubber Tracks, o rapper cearense conta a sua fala sobre o difícil passado em Fortaleza e a esperança do futuro.

por Amanda Cavalcanti
11 Dezembro 2015, 4:00pm


Reprodução do Facebook.

Este conteúdo é um publieditorial da Converse Rubber Tracks.

Côro MC nunca teve a perspectiva de sair da periferia de Fortaleza — onde nasceu e morou a vida toda — para uma vida melhor: “O sonho das crianças não existe porque a única realidade para elas é ficar ali”. O rapper de 28 anos, revelação de Fortaleza que está começando a fazer fumaça no cenário hip hop com seu trabalho, passou a infância sem saber que ele seria a exceção para sua própria regra.

Criado dentro da igreja, o MC se viu sempre interessado por música e aprendeu desde cedo a tocar teclado, violão, flauta, entre outros instrumentos. “Na infância, eu era muito bom”, diz. “Hoje, se eu tentar arranhar acho que não sai tão bem”. Aos 18, 19 anos, porém, Côro começou a notar o que havia de errado em seu ambiente e tentar expressar isso de alguma maneira.

Após presenciar uma tentativa de homicídio de um amigo próximo, a prisão de um vizinho querido que “levou uma vida errada” e de ele mesmo ter uma experiência ruim com a “mesclada”, droga misturada de maconha e crack, Côro se deu conta de que o rap era seu caminho a ser tomado. “Eu já tinha notado que o mundo era um lugar muito errado”, conta. “Mas foi aí que percebi que eu gostava de escrever sobre isso”. Assim surgiu o RDF (ou Relatos de Fortaleza), primeiro grupo do rapper. Na banda, ele e outros MCs como Padêro e Sid, versejavam por cima de batidas de rappers já conhecidos, internacionais. O nome, “Côro”, ele ganhou como herança do apelido que ganhou em uma facção de grafiteiros da qual participava na juventude, a DR.

Ganhando visibilidade em Fortaleza, o grupo ganhou a oportunidade de trabalhar com o Erivan, fundador do primeiro estúdio de rap do Ceará, o Produtos do Morro, e gravou a primeira canção do RDF, “Neguim Buiú”. Quando entrou mais em contato com a cena, Côro teve uma surpresa: ela era muito maior do que ele esperava. “Pra mim, a gente ia estourar no Nordeste, porque não existia rap por lá. Mas a realidade foi um baque muito grande”. Com o tempo, o MC e seus parceiros perceberam que não seria tão fácil assim atingir o sucesso. A cena de rap do Ceará, segundo ele, era enorme e precária. Apesar de alguns grupos grandes como o Costa a Costa e o Comunidade da Rima, a grande maioria dos artistas tinha um tempo grande de estrada e nenhum sucesso decorrente.

Côro conheceu o MC Don L num ensaio do grupo Costa a Costa que ele acompanhou com seu companheiro de RDF Sid, e chamou a atenção do rapper imediatamente. “Nesse dia ele me mostrou umas rimas e foi massa porque senti que aquilo que a gente tava fazendo de levar o rap feito no gueto da orla de Fortaleza, esse lugar peculiar, pro Brasil e pro mundo teria uma continuidade”, conta Don. “Ele se tornou um cara de quem a gente acompanha a caminhada e só tem evoluído desde esse dia. Agora é levar as armas pra rua porque tem uma guerra lá fora, mas nada que alguém que vem de onde a gente veio não saiba lidar.”

A experiência com Erivan foi essencial pra que Côro levasse sua experiência musical a outro patamar. Foi assim, também, que o jovem rapper começou a se interessar por produção. Côro observou os sequenciadores e teclados do produtor e sentiu a necessidade de colocar arranjos mais elaborados em cima das batidas simples que serviam de pano de fundo pros versos do RDF. “A primeira batida que fiz foi numa lan house, mas era difícil porque no dia seguinte, quando eu voltava pra terminar, tinha que instalar o programa de novo (risos)”, conta. “Eu prestava atenção no que estava bombando na época e tentava me inspirar pra fazer as minhas próprias batidas.”

Essas inspirações ficam claras no primeiro trabalho solo do rapper, de 2012, o EP O Começo ‐ Uns samples, uns sonhos e um puro sentimento, que não tem esse nome aí à toa. As batidas, que usam samples como base na maioria das vezes, são trabalhadas em muitas texturas e instrumentos, lembrando a turma do rap gringo que estavam bombando no começo dos anos 2000 – Jay‐Z, Snoop Dogg, Kanye West. Já nos seus singles mais recentes, o rapper investe em batidas mais modernas, bebendo um pouco no trap.

Conforme suas habilidades de produtor cresciam, o rapper começou a ver o futuro na carreira solo, mesmo sofrendo com o preconceito que ainda assolava o rap. “O rap vai ser marginalizado pra sempre por ser oriundo da periferia, a gente não pode fugir disso. O que dá pra fazer é mesclar com outros sons, pra não sair das nossas raízes mas conseguir chegar a outros lugares.”

Com isso em mente, o produtor se inscreveu para uma vaga no projeto Converse Rubber Tracks Worldwide, que selecionaria 84 artistas pra gravar em 12 grandes estúdios ao redor do mundo. Côro foi escolhido para desfrutar de até dois dias no Sunset Sound, conhecido estúdio de Los Angeles. Com tudo preparado pra viagem, Côro teve uma enorme decepção no Consulado dos Estados Unidos e teve seu visto negado. Segundo o rapper, temiam que ele ficasse por lá, pois o MC não tinha nenhum “vínculo” com o Brasil.

“Esse vínculo que eles queriam que eu tivesse eu nunca tive nem nunca vou ter, que é posse, dinheiro na conta”, diz. Depois de ter o visto negado pela segunda vez, a Converse decidiu por rearranjar a sessão de Côro para o estúdio Toca do Bandido, no Rio de Janeiro, onde o rapper gravaria seu novo disco. A sessão foi um sucesso. “Ter minha viagem a Los Angeles cancelada me proporcionou a pior sensação que eu já senti, mas participar do projeto foi a melhor coisa que já me aconteceu”, o MC diz, sobre a experiência.


Com a rapa no Converse Rubber Tracks. Divulgação.

Durante as gravações, Côro teve a surpresa de contar com a presença do ídolo MV Bill. Os rappers conversaram, trocaram experiências e conselhos e o que era pra ser uma conversa de uma hora acabou se estendendo por mais cinco. Os dois já tinham se encontrado em 2006, quando Côro entregou um CD com suas canções a Bill, que contou ao pupilo que ainda tinha o CD em casa. “Foi muito gratificante. Foi uma conversa de amizade, mesmo”, disse Côro. Bill também deu seu parecer sobre a conversa: “A gente se deu muito bem e, quando ele me mostrou a música dele, rolou uma admiração mútua. Conhecer e gostar dele fez com que eu tivesse o ouvido mais aberto pro seu trabalho”, conta.

A Rubber Tracks deu um 180º na carreira de Côro. “Quando fui selecionado para o projeto, cheguei a ouvir minha mãe dizer ‘tomara que ele se decepcione de vez e desista’. Tudo que ela quer é que eu tenha uma vida normal, e no fundo eu entendo ela. Mas com o projeto eu conheci novas pessoas, fiz contatos e adquiri conhecimento importante pra minha carreira. Posso dizer que minha mente é outra agora, graças a isso.”

O objetivo maior de Côro, por enquanto, é tocar pelo Brasil inteiro. “Quero tentar fazer o meu projeto circular o país, tentar fechar alguma parceria para gerenciar minha carreira.” Hoje em dia, o que move Côro a continuar seu trabalho, apesar de ter parado de frequentar a igreja novinho, é sua fé em Deus. “Eu não tenho mais religião, doutrina. Não quero ser preso a esse tipo de coisa. Mas a fé vai além disso!”, diz o rapper. Resta saber aonde a fé e o trabalho pesado levará o Côro MC – se eu pudesse apostar, diria que bem longe.

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