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Music by VICE

Vodca, Groupies e Jatinhos Particulares: Por que Músicos Eruditos São Mais Porra-Louca que Roqueiros

Boris Beresovsky é um pianista assombroso e sabe tocar as músicas mais assustadoramente difíceis sem partituras. Ele, é claro, não é o único músico erudito que gosta de beber e farrear.

por Peter Culshaw
13 Outubro 2014, 7:26pm


Nosso escritor numa after party de um concerto na Rússia

Na minha jornada de escritor de segunda que circula pelo mundo, já passei por alguns sustos. Levei tiros nas ruelas de Havana. Tive discussões com chefes guerreiros jihadistas em Iêmen. Mas a ocasião em que mais cheguei perto da morte foi depois de uma noite bebendo com o brilhante pianista clássico Boris Beresovsky.

Fui encontrado dormindo sobre a neve às quatro da manhã, na porta de um cassino em Ecaterimburgo, na região dos Urais, na Rússia; a temperatura era de 30º C negativos. Toda manhã, mais ou menos vinte corpos congelados eram encontrados nas ruas; os corpos daqueles que, como eu, haviam exagerado no consumo daquele feitiço fermentado que é a vodca. E eu nem havia bebido demais. Tinha me controlado, bebendo cerca de uma dose para cada quatro ingeridas por Boris, e planejava sinceramente ir dormir à meia-noite, por aí.

Ecaterimburgo fica situada na fronteira entre Europa e Ásia. Tínhamos visitado o poço em que os revolucionários jogaram a família do czar Nicolau II depois de fuzilada. Essa aula de história foi seguida por um jantar e numerosos drinques na companhia de Dmitri Liss, um maestro da cidade. Ele estava nos contando sobre os públicos na cidade próxima de Novouralsk, que disse terem sido os mais receptivos – suponho que da mesma maneira que certas bandas indies são mais bem recebidas em certas cidades universitárias. Novouralsk é uma "cidade secreta": costumava nunca aparecer nos mapas, visto que era ali que os russos fabricavam armas nucleares e antraz. Hoje em dia, segundo me informaram, é um grande centro para mulheres que trabalham fazendo strip-tease na frente de webcams.

Minha derrocada se deu quando ele propôs de irmos ao cassino de lá. Eu respondi que não precisava de um novo vício, mas ele me subornou com um bolo de notas de rublo, dizendo que era sempre necessário desafiar os deuses da sorte. Perdi a maior parte do dinheiro, mas acredito que estava de fato começando a ganhar. Nesse ponto, minha memória começa a ficar nebulosa. Não havia nenhum bolo de dinheiro no meu bolso quando fui resgatado, mas pelo menos não entrei para a estatística dos congelados.

Apesar da vida agitada, Boris Beresovsky é um pianista assombroso, ao qual entregam prêmios como a outros músicos entregam multas de estacionamento, e sabe tocar as músicas mais assustadoramente difíceis (como as variações de Godowsky sobre os estudos de Chopin) sem partituras, usando o que ele chama de "memória das pontas dos dedos". Ele, é claro, não é o único músico erudito que gosta de beber, farrear e fazer coisa errada em geral. Um documentário exibido mês passado na BBC, com o título Addicts Symphony [Sinfonia dos Viciados], informou que o vício em bebida e drogas é abundante entre os músicos eruditos, e reuniu dez músicos que haviam enfrentado vícios, incluindo a destacada violoncelista Rachael Lander.

Sempre achei que o papel de hastear a bandeira da libertinagem era dos roqueiros. Cresci ouvindo as lendas de Keith Moon, Led Zeppelin e Stones arremessando televisões pelas janelas, entrando de limusine em piscinas, e instigando groupies em massa e ingerindo quantidades épicas de cocaína e heroína. Aqueles, contudo, eram outros tempos. Talvez haja exceções – o pessoal do Fat White Family parece muito divertido, mas a maioria das bandas de rock com que se topa hoje em dia está bebericando chá-verde, fazendo yoga, tratando com seus contadores pelo smartphone e discutindo nichos de mercado com seus chefes nas gravadoras. O Muse foi a última banda gigantesca que conheci – adoro aquele rock pomposo megalomaníaco com um toque de paranoia – e eles eram muito bem-comportados. Se lembro bem, chegamos a conversar sobre qual marca de água mineral eles preferiam.

Em muitos dos músicos eruditos, contudo, a mensagem puritana ainda não surtiu efeito. Na verdade, alguns deles parecem querer copiar os roqueiros de antigamente. Houve uma inversão: nos anos 70, muitos roqueiros queriam ser como músicos eruditos. Gente do rock progressivo, como Emerson, Lake & Palmer e Yes, fez versões de músicas clássicas, de compositores como Bartok e Brahms. Hoje em dia, é o contrário que acontece: um compositor clássico de primeira estirpe como Philip Glass faz, por exemplo, versões orquestradas de coisas como Low, de Bowie. Neste mês, Steve Reich, provavelmente o principal compositor americano, está lançando um disco chamado Radio Rewrite, versão de uma música do Radiohead.

Eu me iniciei no mundo das festas da música clássica de maneira relativamente suave, com o violinista e aspirante a punk Nigel Kennedy. Ele, ou seu empresário, teve o bom senso de vender as Quatro Estações de Vivaldi como um disco de rock, e vendeu horrores (alguns milhões de cópias, e crescendo). Quando fui à casa dele, a primeira coisa que ele me disse foi: "se você precisar dar uma mijada, pode meter brasa no jardim". Acabei passando madrugadas na companhia dele em uma casa de jazz polonesa esquisita em Berlim, enchendo a cara. Eu o vi tocar em Hampton Court, um espaço a céu aberto do qual ele gosta porque "se chover os ricos filhos da puta ficam todos cagados". Uma vez me disse que sua orquestra favorita era a Filarmônica de Berlim, porque eles são "fodões. De verdade." Seria possível dizer que a persona punk adotada por ele é falsa – mas ela já durou tanto tempo que passou a ser verdadeira. Além disso, muitos dos punks originais eram garotos bonzinhos de classe média, como o filho de diplomata Joe Strummer.

Mas, para encher a cara de verdade, é preciso ir para a Rússia e a Ucrânia, que por acaso também têm os melhores músicos eruditos. O primeiro que conheci, em Viena, foi o violista mais famoso do mundo, Yuri Bashmet. Até mesmo quando íamos a restaurantes ele era várias vezes reconhecido, e as pessoas mandavam drinques para nossa mesa com frequência. Há histórias sem fim a respeito de suas festas insanas realizadas na dacha de que é dono, nos arredores de Moscou, de suas farras em clubes de jazz, e sobre terem de ir acordá-lo em hotéis diversos, ele atrasado para os ensaios e numa ressaca épica. Se Skream fosse violista, seria esse cara.

Ele costumava ser um roqueiro em sua cidade natal, Lvov, mas começou a sentir que "a música pop, em comparação com a clássica, era espiritualmente limitada". Quanto às groupies que tinha na época, "elas eram bonitas mas meio burras". Hoje ele elevou o status de um instrumento anteriormente fora de moda, fazendo com que muitos compositores escrevessem peças para ele. Diz que pode provar que mudou o status só mostrando suas alunas. "Vinte anos atrás, todas as garotas que tocavam o instrumento eram trágicas; tentavam compensar o fracasso em suas vidas. Hoje quase todas elas são felizes e muito bonitas. Disso posso ter orgulho".

A essa altura eu já me viciara em passar o tempo na companhia desses caras, apesar do que as viagens à Rússia estavam me custando em roupas e equipamentos comprados na North Face. Recebi o chamado para entrevistar Válery Gergiev, um maestro lendário – para muitos, o melhor do mundo. Eu o encontrei na pálida e espectral cidade de São Petersburgo. É claro que, como em todas as minhas noites na Rússia, acabamos com o rabo cheio de goró (ou seja lá qual for o equivalente russo... baboushkado? glassnostado?) A noite terminou por volta de cinco da manhã, porque, se você é Gergiev, naquela cidade não te expulsam dos restaurantes. Ele tem até o seu próprio comboio, caso precise percorrer a cidade às pressas.

Gergiev parece uma pessoa que há muitas décadas não tem uma boa noite de sono, o que talvez seja mesmo verdade. As pessoas falam de sua "energia demoníaca", e ele preside uma empresa que inclui 80 cantores, 200 dançarinos, 180 músicos, e uma equipe técnica e administrativa composta de dezenas de pessoas. É alguém que, de acordo com sua irmã, Larissa, "não sabe cozinhar, lavar roupa ou fazer qualquer tipo de tarefa dentro de casa". Ele celebrou seu aniversário de 50 anos casando com uma menina de 19.

Mas às dez horas da manhã seguinte, ele estava conduzindo Tristão e Isolda, de Wagner, transformando a ópera em um Led Zeppelin da época de "Kashmir". Gergiev tem uma energia fenomenal, e sabe-se que chegou a conduzir três concertos em países diferentes num único dia. Naquela noite, mais tarde, enquanto a ressaca ainda rachava minha cabeça, assisti à estreia da nova versão de Gergiev para a ópera A Noiva do Czar, de Rimsky-Korsakov, raras vezes levada ao palco. Depois, fomos a um jantar de gala ao qual compareceram patrocinadores e críticos. O designer da ópera propôs inúmeros brindes ao gênio de Gergiev antes de deslizar inconsciente para debaixo da mesa.

Mas aquela noite me trouxe uma lição de moral. Um oligarca da mesa me perguntou se eu não precisava de uma carona para casa. Eu disse que meu hotel era ali virando a esquina, mas que ficava agradecido pela oferta. Ele estava se referindo a uma carona de volta para Londres, em seu avião particular. Um outro oligarca levantou as orelhas. Acontecia que o primeiro tinha um Gulfstream 4. O outro mencionou, como quem não quer nada, que tinha um Gulfstream 5 – que possui mais janelas, e no qual, de alguma forma, não é preciso se curvar para entrar. O primeiro oligarca ficou verdadeiramente puto e fechou a cara pelo restante da noite. A moral da história é que, para algumas pessoas, a coisa nunca tem fim. Você pode imaginar que, se tem um bom jatinho particular, talvez não lhe falte nada, mas não, é necessário que seja o melhor.

Eu poderia ter dado a coisa por encerrada, mas várias pessoas me contaram sobre um cara na Sibéria ainda mais intenso que Gergiev. Então peguei um voo noturno para Novosibirsk para conhecer um sujeito tremendamente louco chamado Teodor Currentzis, que faz declarações do tipo "eu vou salvar a música clássica", e a sério. Entendi o que ele queria dizer depois de ouvir uma versão conduzida por ele de Dido e Eneias, de Purcell, que era como um soul que haviam acabado de compor. Seguiu-se, é claro, uma noite ruidosa movida a vinho e ainda mais vodca. "As garotas todas estão apaixonadas por ele, e ele adora", me disse uma aluna. Currentzis, com seus cabelos longos tipo Lord Byron, se classifica como um "narcisista anarquista". Ele participava de bandas "neo-românticas industriais" e cita os nomes de bandas pós-punk obscuras como Nurse With Wound. "Sabe", me disse ele, "eu preferia o Joy Division quando se chamava Warsaw".

Não estou dizendo que você precisa ser um destruído para ser interessante. O que estou dizendo é que prefiro passar a madrugada com gente como Currentzis e Gergiev do que com o pessoal do Mumford and Sons ou do Clean Bandit. Basicamente, se você está em busca de um comportamento rock 'n' roll, tem que procurá-lo no mundo da música clássica.

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Tradução: Marcio Stockler.

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