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Exclusivo: Ouça o Novo Disco Homônimo do Holger

O Holger amadureceu, mas sem cair do pé.

por Lucas Panoni
04 Novembro 2014, 1:18pm

O Holger mudou. Como quando a gente percebe que tá colocando menos açúcar no café preto porque glicose em excesso ataca o estômago, que tem que fazer a barba com mais frequência pra não ficar com a cara bagunçada e que acordar cedo na real nem é uma ideia tão ruim. Tanta mudança é sinal de experiência, afinal, a brincadeira não começou agora. Tem pelo menos seis anos.

As oscilações do Holger são perceptíveis até pelos menos iluminados. Um eremita descobrindo a internet poderia ter a sorte de trombar na banda enquanto perambula por páginas como a do André Paste ou da Avalanche Tropical. O negócio é que o trânsito do Holger é mais intenso.

A cada dois anos, um disco novo, “como retratos do que vivemos em determinado momento e lugar”. E entre idas e vindas, chega um trampo carregando o peso do nome que se reinventa, como que para começar um ciclo novo.

Tanta auto-afirmação pode ter a ver com mudanças na formação da banda. Como já dissemos aqui no Noisey, o baterista Arthur foi estudar na gringa e eles ficaram órfãos. Mas podemos ficar tranquilos, porque “ele não chegou a gravar muita coisa, só uma bateria, porque algumas músicas nem bateria tem”, me contou Pata, por telefone.

Então, pois é, troquei uma ideia rápida com o vocal do Holger pra absorver alguma polpa dessa transição e saber mais sobre a novo disco que carrega o nome da banda, lançado pela Balaclava Records. Bate bola, jogo rápido:

Noisey: A galera fala que discos homônimos são batizados assim porque definem a banda. Isso aconteceu com o Holger?
Marcelo "Pata" Altenfelder:
Eu acho que tem bem essa via mesmo, de se reapresentar, uma vez que o Arthur tá saindo fora e a gente tá se redescobrindo. Entre idas e vindas, de cantar em inglês, cantar em português, fazer indie rock, música eletrônica, acho que foi a primeira vez que a gente percebeu que ainda é a mesma banda do primeiro EP que a gente lançou, em 2008, independente de que caminho a gente vai. Foi meio na linha de às vezes você trombar com uma pessoa que não vê por anos e anos, e ver que a essência é a mesma.

Totalmente. Mas o que mudou de 2008 pra cá?
Cara, todo mundo ganhou um monte de pelo no peito, um pouco de barba, casou, essas coisas. A gente viveu esse tempo. Não que a gente tenha virado ermitão, ou pessoas verdadeiramente maduras, muito longe disso, mas as experiências vividas e como tudo isso influenciou nossa vida pessoal influenciou da mesma maneira na composição e tudo. Entre defeitos e qualidades da Holger, uma qualidade é que a gente foi sempre muito sincero, de fazer música sobre o que a gente tá vivendo, então, o que mudou na nossa vida pessoal acabou acompanhando musicalmente, em todos os discos.

Muito louco. E como vocês acham que podem se definir hoje?
Não sei, acho que uma das coisas de se afirmar é também assumir que a gente tá fazendo a parada que a gente gosta e do jeito que a gente gosta, sem grandes pretensões além de estar satisfeito com o trampo que tá fazendo. Então, realmente, nossa grande busca é sacar quem a gente é realmente, e não tem muito mais o que ser, a não ser nós mesmos, e se divertir pra caramba com isso, que é o que a gente faz.

Você falou de amadurecer, mudar e tal. O processo de composição desse disco teve a ver com isso?
A gente sempre altera muito nosso processo de composição né? Nesse disco a gente usou bastante o Ableton, então achamos que fosse ficar mais eletrônico. Só que, ao longo do processo, até pra deixar um pouco a música eletrônica de lado, passamos a ouvir as boas e velhas bandas de indie rock e de música brasileira que a gente gosta tanto. E por estar usando esse recurso, a gente conseguia se encontrar todo dia, durante seis meses, com o pretexto de fazer música e tomar uma cerveja. E depois de quase perder a família por ter desaparecido por seis meses, a gente chegou com umas vinte músicas prontas e falou “vamos gravar o que der e ver como a gente vai montar esse disco”. Gravamos onze músicas e acabamos amarrando uma história. Eu não diria que é um disco maduro. A gente pode ter amadurecido, mas maduro esse disco não é.

Tem muito pra amadurecer ainda?
Acho que enquanto a gente estiver vivo e juntos, vamos ter o que amadurecer, mas sempre vamos carregar essa cara de molecada junta.

Saquei. Pra você, quais foram as maiores influências, que você pode citar, para este trampo?
Pô cara, eu vou dizer que foi o Perfect From Now On, do Built to Spill, mas na verdade foi tudo que a gente tava ouvindo né? A gente curte ouvir música, então desde o som que toca na balada, no DJ set da Avalanche, até a banda dos amigos que eu vejo, ou os discos clássicos que eu ouço há anos... Porque na verdade, eu acho que não é o som que influencia, é mais a vivência. E nessa vibe de chamar Holger, a gente achou um caminho. Porque tem essa pira de que quando você forma uma banda, quer fazer seu som meio semelhante às bandas que você gosta. Só que dessa vez a gente não teve a intenção de soar como este ou aquele. Mas sim algo que a gente vai absorvendo, como quando a gente come arroz, feijão e bife e isso vira músculo e gordura. Seria injusto eu dizer que uma banda me influenciou mais ou menos que uma noite foda ou uma viagem. Tudo isso foi influenciando a gente, e o disco só poderia ter sido feito por nós.

Eu fiquei sabendo que estão rolando uns shows surpresa em São Paulo. Me conta sobre isso.
Tá tudo amarrado, cara. A gente tocou usando backtrack por dois anos, e foi uma experiência legal, a gente adquiriu um formato quase de banda gringa, de colocar o som eletrônico perfeitinho saindo do computador e tocar guitarra em cima. Mas isso perde muita personalidade e a gente falou “putz meu, vamos pra outro lado”. Agora a gente quer ser uma banda que se tiver duas caixas de som pra ligar as vozes e duas tomadas pra ligar amplificador, dá pra gente tocar. A gente alugou um gerador e saímos tocando por aí. A gente quer fazer isso sempre, tocar em qualquer lugar que tenha duas tomadas, é tudo que a gente precisa. Então, se alguém quiser chamar a gente pra tocar numa festa caseira, qualquer lugar, tendo duas tomadas 110v a gente se vira com o resto.