Celebrando os 10 Anos do Caldeirão de Ritmos de ‘Arular’, Álbum de Estreia da M.I.A.

Há dez anos, ganhava forma a obra que traduziu a loucura dos novos tempos numa bem acabada fusão de vertentes dançantes com crítica social. E o melhor: sem perder o apelo pop.

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24 Março 2015, 5:05pm

Arular, o álbum de estreia da M.I.A., nascida Mathangi Arulpragasam, é o perfeito substrato da estética que traduziu o espírito da última década na música, na política e na cultura pop em geral. Há precisos dez anos, a indústria cultural da música andava meio desnorteada, todos os tipos de desdobramentos e fórmulas rítmicas vinculadas ao pop, rap, rock e à eletrônica pareciam escaldados. Daí surgiu essa ela, um furacão de descendência cingalesa nascida na Inglaterra, apresentando sua vanguardista fusão de hip hop, electro, dancehall e grime. Uma expressão de apelo global que continua sendo difícil de definir em poucos termos. Arular é um clássico contemporâneo que ainda estamos digerindo. Um retrato dos novos tempos filtrado por uma densa e caótica colagem de estilos como o UK garage, o Dirty South inglês, o hardcore rap nova-iorquino e até o Baile Funk carioca.

O discurso é influente e o som é contagiante. O clima político-sexual-festivo do álbum ganhou rapidamente as pistas do mundo todo com a ajuda dos emergentes blogs de mp3. Nas entrelinhas de suas batidas dançantes, M.I.A. agregou brilhantemente referências de seu passado no Sri Lanka, dando forma sonora e visual a todo o histórico de violência e luta vivido na pele por seu povo. As imagens que ilustram a capa do álbum, por exemplo, não foram escolhidas casualmente. Aquelas armas, mísseis, aviões e tanques que emolduram o retrato da cantora têm a ver com o clima tenso nas ruas do Sri Lanka pré-tsunami.

Arular, para quem não está ligado, era o nome de guerra do pai da M.I.A. quando ele foi soldado durante os confrontos no Sri Lanka. "Galang", um dos sons mais legais do álbum, fala do processo de adaptação da cantora à vida em Londres depois de ter deixado a terra natal da família, enquanto "Sunshowers" aborda o dia a dia dos combatentes na guerra civil e "10 Dollar" remonta ao problema da prostituição de menores. Sob a produção de Diplo, "Bucky Done Gun" é outro hit que mistura ritmos festivos com letras politizadas. Com direito a um sample de "Injeção", da brasileira Deize Tigrona, a letra faz menção a toda a fita dos ataques surpresa, saques e barbárie que M.I.A. já testemunhou.

A tônica transcultural de Arular veio com naturalidade, refletindo a própria trajetória pessoal da artista. Foi quando ela era ainda muito nova, aos seis meses de idade, que seus pais mudaram-se da Inglaterra para o Sri Lanka. Pouco tempo depois, viveu em Madras, na Índia, antes de retornar ao Sri Lanka bem na época em que eclodiram os embates que tiraram a vida de alguns familiares e amigos. M.I.A. conviveu pouco com seu pai, que era um devotado e ativo militante separatista, integrante da rebelião Tamil, durante esse período, mas teve sua vida estabilizada quando, junto dos remanescentes da família, conseguiu voltar para Londres.

O nome artístico "M.I.A." era a assinatura que ela usava nas pinturas quando ainda estudava artes. Mais tarde, conheceu o pessoal da banda Elastica, e fez umas fotos e artes para o segundo álbum do grupo, além de filmar a turnê norte-americana de promoção do disco. Nesse rolê, sua amiga Justine Frischmann, que cantava na banda, emprestou a ela o sequenciador Roland MC-505, com o qual foi se familiarizando na volta da viagem. Daí nasceu sua primeira demo, que foi parar nas mãos de Steve Mackey, do Pulp, e do produtor Ross Orton, do selo Showbiz.

Eles fizeram algumas mudanças na faixa "Galang", que foi lançada como single numa prensagem de 500 cópias já sob o nome de M.I.A. Não demorou para que os DJs londrinos começassem a pirar na música, incluir em suas discotecagens e produzir remixes e mashups. Logo veio o contrato com a XL Recordings, que relançou o single numa prensagem maior e bancou o Arular, em março de 2005. Quando Arular chegou ao mercado, boa parte de seu repertório já tinha vazado na internet, e a mixtape que ela produziu com o Diplo um pouco antes, Piracy Funds Terrorism, trazendo mashups do próprio álbum, ajudou a hypar a parada. Diplo até hoje tem um pouco de sua imagem vinculada ao sucesso de Arular. E, de fato, ele colaborou. Mas é um mito pensar que uma artista como a M.I.A. não meteria essa ficha sem ele por perto. Não dá pra voltar no tempo para ter certeza, mas aposto que o álbum causaria impacto mesmo sem aquela mixtape ou a participação dele. E a qualidade dos trabalhos que vieram depois está aí para sustentar essa percepção.

Numa entrevista recente, ela conta que o Diplo, com quem acabou tendo um relacionamento nessa época, ficou puto quando rolou o contrato com a Interscope. "Você não deveria estar nas revistas ou dando entrevistas. Você não deveria estar fazendo colaborações com pessoas famosas. Você deveria ser uma artista underground", ele teria dito, segundo M.I.A., enquanto eles estavam em turnê pelos Estados Unidos. "Foi só depois, quando eu gravei o segundo álbum sem a parceria dele, que comecei a desfrutar de tudo aquilo (...). Hoje, percebo que ele estava com ciúmes e mal podia esperar para ser o melhor amigo da Taylor Swift e dar uns amassos com a Katy Perry", provocou em entrevista à Rolling Stone gringa.