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Os Festivais de World Music do Norte Africano São Duas Vezes o Tamanho do Coachella

E as bandas que fazem parte destes festivais já estão dando trabalho às autoridades.
11 Agosto 2014, 8:45pm

Mehdi Nassouli, foto de Rachid Bourhim

Alguém me falou de um rapper, atualmente famosíssimo aqui no norte africano, chamado Muslim. Tente você buscar esse nome no Google. Mas a multidão no palco “urbano” (na verdade, à beira-mar) do Festival Timitar, em Agadir, chega a mais de 100.000, enquanto ele caminha tranquilão pelo palco. Estou com uns caras marroquinos, de Casablanca, e eles me contam que o grande hit dele se chama "Al Rissala" (A Carta) – uma exaltada crítica antiautoritária à corrupção e à ignorância nos altos escalões. As autoridades, é de se imaginar, talvez estejam nervosas; um rap semelhante, de um cara chamado El President, foi um dos estopins da revolução tunisiana.

Em outro palco, o Al Amal – a banda de reggae pesado de Alpha Blondy, com dez componentes, originária da Costa do Marfim – está cantando sobre "terroristas espirituais", que acham normal matar por motivos religiosos. Na noite seguinte, a heroína local Najat Atabou canta em defesa dos direitos das mulheres, enquanto a banda Mehdi Nassouli é categoricamente pós-moderna, quase de rock progressivo. Em um momento anterior do festival eu vi Marcel Khalife, um artista libanês que canta umas músicas revolucionárias palestinas empolgantes; várias vezes o público sacava qual era a música e cantava um verso ou dois antes que Khalife e sua banda se juntassem.

O festival Timitar é, em essência, uma celebração da cultura berbere. É uma cultura que historicamente tem sido oprimida nessa região, ainda que os berberes perfaçam quase metade do Marrocos, e sejam a população nativa. As origens da música berbere remontam a milênios antes da chegada dos árabes.

"É uma boa maneira de desabafar", diz Reda Allali, o vocalista dos roqueiros marroquinos da banda Hoba Hoba Spirit, referindo-se ao Timitar como um tipo de válvula de escape. "De qualquer modo, é um passo na direção certa – embora o caminho a percorrer ainda seja grande." Eles se comprazem do fato de que, no norte africano, é relativamente fácil criar ondas, escândalos e infâmia. "Em Londres, hoje em dia, ao contrário do que acontecia nos anos 70, parece que tudo é permitido, então nada consegue chocar as pessoas", ele compara.

Muslim, foto de Rachid Bourhim

Recentemente, na Argélia e em outros lugares, ocorreram algumas insurreições berbere. O festival talvez seja uma distração ao estilo pão e circo, como a cantora berbere saariana Malika Zarra – que hoje mora em Nova York – e outros acreditam. Mas as autoridades aqui são mais astutas e flexíveis do que nos regimes mais abertamente repressivos de outros pontos da região. É possível que esse seja um motivo de o Marrocos ser um país mais estável que seus vizinhos. Outro talvez seja a força unificadora, mesmo entre os mais radicais, do rei, ao que parece reverenciado por todos, e cuja foto, significativamente, estava ao lado do palco no espaço principal do Timitar, Place Al Amal.

Nos últimos anos, as autoridades montaram um canal de TV berbere, e a língua hoje é ensinada nas escolas. Parte desse ressurgimento é um esforço para substituir "berbere" – uma palavra estrangeira, importada, derivada de "bárbaro" – por "amizigh", que significa "homem livre".

Musicalmente, na última década, o Marrocos vem se firmando como um dos melhores países para realizar festivais; houve três que acabaram na semana anterior, e todos eles são pelo menos duas vezes o tamanho do Coachella. Na temporada, há o Festival Fez, um evento de música global, e outro em Casablanca, com o engenhoso nome de Jazzablanca. Além do Timitar, um dos maiores é o Festival Gnawa, mais doidão, em Essaouira, no litoral. Apelidado de "Woodstock negro", é onde, segundo as notícias, 100.000 pessoas usam simultaneamente a praia como dormitório. Além dele, há o Festival Mawazine, em Rabat, um evento pop gigantesco, que teve como estrelas gente do calibre de Rihanna e Stevie Wonder. Em conjunto, esses festivais atraem mais de 400.000 pessoas.

O mais antigo dos quatro grandes festivais marroquinos (Fez, Timitar, Gnawa e Festival Mawazine) é o Festival Fez de Música Sagrada Mundial, que celebra sua 20ª edição este ano, e tem uma pauta política diferente. Criado inicialmente em resposta à Primeira Guerra do Golfo, como um "facho de tolerância", convida artistas de primeira categoria de diferentes fés. O rol deste ano inclui gente como os jazzistas da The Hot 8 Brass Band, de Nova Orleans, o revival da música hindu antiga Wasifuddin Dagar, e Mor Karbasi, que canta músicas judaicas latinas. Geralmente há alguma estrela ocidental de tendências esquerdistas, como Björk, que compareceu alguns anos atrás, ou Patti Smith, que tocou ano passado. A grande atração deste ano foi o maior pop star do Iraque, Kadim Al-Sahir. Quando me encontro com Al-Sahir, ele desabotoa a camisa e me mostra uma letra de música tatuada no peito. É da sua "A Escola do Amor", escrita na Guerra do Golfo de 1991. "Guardei essa música e algumas outras num quarto e dormi no outro, para que, se caísse uma bomba, um de nós sobrevivesse", me conta ele. "Coloquei um bilhete junto da música dizendo: 'por favor, dê isto para alguém que entenda de música'". Ele conta que seu dever é apresentar alguma coisa do Iraque de "poesia, beleza e música": o lado ignorado pelas manchetes. A música dele que faz todos virem abaixo essa noite é "Beleza e seu Amor", dedicada à cidade de Bagdá. "A cidade é como uma moça linda", explica. "Mesmo quando sou infiel, morando em outras cidades, é com ela que sonho. Uma cidade de cantores, artistas e filósofos". O Festival Fez, diz ele, é como Bagdá costumava ser.

Nascido no norte do Iraque, Al-Sahir chocou os pais quando, aos 12 anos, vendeu sua bicicleta e comprou um violão, dizendo que queria seguir a precária carreira de músico. Estudou com afinco e foi aceito na renomada Academia de Música de Bagdá, depois de participar de uma banda de rock: "Eu tinha cabelão e ouvia os Beatles, e também música árabe e compositores como Beethoven". Convocado pelo exército aos 21 anos, ele continuou em Bagdá, embora seu melhor amigo e muitos outros conhecidos tivessem perecido na guerra contra o Irã.

Não demorou para que se visse metido em problemas com as autoridades, que lhe pediram que mudasse a letra de uma música chamada "Mordida de Cobra" – entendida por muitos iraquianos como uma crítica à Guerra Irã-Iraque. Outra música, que tinha um vídeo de 4.000 pessoas cantando junto "estamos vivendo numa sucursal do inferno", também foi censurada. Quando o chamaram para aparecer em programas que faziam oposição virulenta a Saddam e ao regime, não teve como recusar. "Não tinha escolha. Eu estava assustado, mas sempre quis ser livre e independente". Ele agora tem casas em Paris e no Cairo.

Kadim Al-Sahir e o grande astro do Senegal, Youssou N'Dour, retornam sempre que podem, já que amam o que há de Sufi (as tradições islâmicas místicas) no Fez. Youssou, especialmente, é ligado à Irmandade Tijani, que tem milhões de seguidores no oeste africano e cujo santuário fica na cidade. Conheci Ibrahim Tijani, que comanda o setor de mídias sociais da irmandade; eles têm seguidores em locais tão díspares quanto a Rússia, a Indonésia e os Estados Unidos. As pessoas fazem tours virtuais pelo santuário através de seus computadores. Ibrahim é o editor de uma página no Facebook, e entende tudo de tecnologia. Mas será a internet realmente uma força em prol do bem espiritual? "É como uma faca. Depende de quem a utiliza", diz Ibrahim. O Fez Festival segue se renovando, apesar dos muitos desafios inerentes à organização de um evento desse porte. O programador de música Alain Weber menciona algumas ideias intrigantes – desde rituais africanos até uma presença maior da dança – que farão o festival continuar atual na medida em que se expande. Um dos maiores motivos de esperança são as cantoras jovens, como Nouhalia El Khalai, uma menina de 14 anos que executa com maestria composições malhun semi-clássicas, ou as crianças se deleitando com a música nos shows diários das Noites Sufi, em Dar Tazi. O puro deleite de um grupinho de meninas de oito anos sentadas perto de mim ao ouvir a música da banda de Yassine Habibi, da cidade de Meknes, já é uma.

Os únicos grupos que não comparecem são aqueles dos campos de refugiados no Saara, onde há uma disputa territorial de décadas entre o Marrocos e a Frente Polisário, que luta pela independência. O festival, no entanto, tem grupos judeus e cristãos, assim como islâmicos e outros músicos. Atribuem a ele uma importância vital, sendo o extremo oposto dos fanáticos do EIIL, que tomaram uma grande porção da Síria e do Iraque, e a rebatizaram de Estado Islâmico. Caso eles tenham sucesso, não haverá mais música (a música distrai do caminho para Alá, dizem eles), e nem educação para meninas.

Contudo, é bem provável que a própria cidade de Fez seja a verdadeira estrela do festival. Nela, uma universidade foi fundada dois séculos antes de Oxford e Cambridge (por duas mulheres) e, depois de alguns dias, me pego lendo um trecho de Idries Shah sobre Fez. Diz assim: "É um centro de aprendizado, um lugar onde a transmissão acontece. É onde se passa o bastão adiante". Faz todo sentido.

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Tradução: Marcio Stockler