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Encontramos uns Poemas Inéditos que Tupac Shakur Escreveu aos 17 Anos

O Noisey recebeu poemas manuscritos inéditos de autoria do rapper, de quando ele tinha 17 anos, que oferecem um vislumbre de Shakur antes muitos o conhecerem.

por Jeff Weiss
31 Outubro 2014, 2:38pm


Ilustração: Wikimedia Commons

Tupac Shakur é um dos rappers mais influentes de todos os tempos, conhecido por sua lírica progressiva, som impactante, e seu papel ao moldar a direção que o hip-hop seguiria. Apesar de ter falecido em 1996, Shakur continua sendo uma fonte de inspiração e fascínio para o público ao redor do mundo. O Noisey recebeu poemas manuscritos inéditos de autoria do rapper por meio de nossos amigos da Citizens of Humanity e da primeira agente de Tupac, Leila Steinberg. Os poemas, escritos ao longo de três anos, tendo início quando o rapper tinha apenas 17 anos, oferecem um vislumbre de Shakur antes muitos o conhecerem. Na esperança de começar a compreender a significância de Tupac no mundo moderno atual, pedimos ao escritor Jeff Weiss, co-autor de 2Pac vs. Biggie: An Illustrated History of Rap's Greatest Battle [2Pac versus Biggie: Uma História Ilustrada da Maior Batalha do Rap, em tradução livre] para escrever um artigo explicando o porquê de nos importarmos.

Se você quer entender 2Pac, deixe de lado a ilusão de que há um 2Pac para ser compreendido. Alguns o chamavam de camaleão, mas é melhor tratá-lo como a lanterna mágica do mundo do rap – um veículo para projetar qualquer forma, impecável ao jogar sombras. Ideais revolucionários e niilismo gângster eram artifícios, sinceros e apaixonados, mas passíveis de serem descartados quando chegasse a hora de rodar a próxima cena.

Os primeiros detalhes de sua vida parecem tão predeterminados que daria pra imaginar que vieram de um roteiro de um longa da Disney que conta a história de um garoto que virou rei escrito por Huey Newton. Boa parte da gestação de 2Pac se deu em solidão, enquanto sua mãe aguardava julgamento acusada de conspiração para explodir diversos marcos importantes federais. Seu padrinho era o poderoso dos Panteras Negras, Geronimo Pratt. Ele foi levado ao hip-hop no riquixá de um rei no clipe de “Same Song”, do Digital Underground. Sim, uma porra dum riquixá.

Os dançarinos de apoio do Digital Underground não deveriam ter se tornado as pessoas mais influentes de todos os tempos, mas nada disso faz sentido em pleno 2014. Os melhores artistas são intencionalmente ardilosos. Alguns criam mitos a partir de uma fantasia de infância; outros só esbarram em um tipo de espiral divina. Mas todos são complicados demais para serem categorizados. O maior truque de 2Pac foi convencer as pessoas que ele era exatamente como elas, até não ser mais.

Nascido Lesane Crooks, logo sua mãe o rebatizou como Tupac Amaru Shakur. O novo nome lhe conferiu o pseudônimo do último imperador inca, que ao ser executado pelos espanhóis, declarou: “Mãe Terra, seja testemunha de como meus inimigos derramam meu sangue”. Basicamente, o homônimo de Tupac não falou nada ao imperador de Habsburgo, Filipe II, além de “fodi sua vadia, seu gordo de merda”.

Criado em Nova York, Baltimore, e Oakland, 2Pac foi um dos primeiros rappers estilisticamente desenraizados. A agressividade forjou a estética. Ele era a diáspora encarnada. Em um artigo de 1992 da revista Source, ele afirmou que Grip It On That Other Level dos Geto Boys era seu disco de rap favorito de todos os tempos. 2Pac morava meio-período em Atlanta anos antes da cidade se tornar uma meca da indústria e até mesmo foi absolvido por ter atirado em dois policiais de folga. Antes de ser assassinado em uma noite escaldante de 1996 em Las Vegas, ele havia composto “To Live and Die in LA”, que misericordiosamente substituiu “I Love LA”, como hino municipal da Cidade dos Anjos.

Coisas que Fazem Corações Partirem

Sorrisos bonitos

Risadas enganadoras

E pessoas que sonham de olhos abertos

Crianças solitárias

Clamores sem resposta

E almas que desistiram da esperança

A outra coisa que parte corações

São contos de fadas que nunca se realizam

E pessoas egoístas que mentem para mim

Pessoas egoístas como você

O Sorriso do Cupido II

Fui lá fora para sentir a chuva

E fiquei lá um tempo

Quando acabou a chuva, veio o sol

E este foi o Sorriso do Cupido

Nada disso explica os paralelos aleatórios, incluindo aí um elo vitalício forjado com Jada Pinkett em uma escola de artes de Baltimore (uma amizade que depois fez Will Smith sentir algo). Durante o tempo em Nova York filmando O Lance do Crime, ele também criou alianças com o terrível Haitian Jack e Madonna e Mickey Rourke. Durante seu encarceramento por conta de acusações de abuso sexual, 2Pac começou trocar cartas com Tony Danza. Comenta-se que ele estava cogitado para o papel de Bubba Gump. Ele usava Versace antes de Biggie “copiar seu estilo” e décadas antes dos Migos.

Antes, durante, e depois das entrevistas para o livro que co-escrevi sobre 2Pac e Biggie, me deram diferentes razões para explicar seu legado. Alguns disseram que ele era o maior rapper de todos os tempos por ser o único intelectual e estilisticamente rico o bastante para que alguém pudesse dar uma aula na faculdade sobre. Outros não conseguiam articular; só batiam no peito e diziam “Pac me pega bem aqui”.

Isso ia de acordo com o que um motorista do Uber armênio me falou sobre 2Pac ser seu rapper favorito ao crescer no caos pós-soviético. Nem ele nem seus amigos entendiam inglês, mas absorviam por completo a angústia e raiva nas canções. Se você for até a África Subsaariana, encontrará murais e pinturas dedicadas a 2Pac em qualquer mercado. Ele transcende diferenças linguísticas e culturais. Talvez em partes isso se deva ao visual coberto de couro meio rockstar (atualmente vendem-se macacões All Eyez On Me de couro na Top Shop). Mas talvez seja apenas seja só uma força bruta irrestrita, séculos de raiva convertidas em nitroglicerina.

Pode-se apontar para um jovem Boosie “mandando a real” no estúdio, pôster do 2Pac na parede como lembrete. Ou Gibbs ou Jeezy ou DMX ou Eminem ou Wayne ou seja lá quem for. Ja Rule tinha a tatuagem “Pain is Love” [Dor é Amor] no seu braço, 2Pac radiava isso.

Talvez o Biggie estivesse certo quando disse à Vibe em 1995 que os últimos dois anos da vida de 2Pac eram ele incorporando Bishop, personagem interpretado no filme Juice. Mas a contagem de corpos importa menos do que os corações que se ganha. Sua voz sangrava. Ele chorava sem parecer sensível. Ele evitava as dicotomias que prendiam muitos de seus imitadores.

Um Amor Tácito

O que falar de um amor tácito? Ele enfraquece sem nome?

Este amor merece existir sem um título?

Porque não ouso partilhar seu nome

Isto me faz cruel e frio?

Negar o mundo de minha salvação

Porque escolhi deixá-lo crescer

As pessoas tendem a engasgar

Diante daquilo que não entendem

Não deveria eu estar cansado

E negar este amor ao homem?

Um amor tácito

Que ninguém nunca conhecerá

Mas este é um amor que perdura

E no sigilo cresce.

Uma anedótica conversa com Kyambo “Hip-Hop” Joshua, atual Vice-Presidente Executivo da Def Jam, ficou na minha cabeça. Ele disse ter descoberto que 2Pac falava com os jovens de sua geração de um jeito que Biggie não conseguia. Suas mensagens eram mais simples e diretas. A coisa mais próxima que o rap tem de um Bob Marley. Talvez eles não fossem os mais habilidosos que o gênero tinha a oferecer, mas eram os melhores em capturar a simplicidade que une todas as pessoas. Ele nunca perdeu aquele comportamento “foda-se” e a volatilidade adolescente. Gírias e sons tornam-se datados, mas amor e ódio nunca saem de moda.

Logo, estes dois poemas descobertas recentemente. Eles são, essencialmente, faixas-bônus da época de Rose That Grew From Concrete, dizeres abruptos de um adolescente que dialogava com o núcleo do que ele mesmo era. As camadas estão ali. A máscara não. Eles não tomarão o lugar de Folhas de Relva, mas são fontes primárias e sinceras de um dos grandes. Como pós-adolescente, ele tentou compreender o que mostrar e o que guardar pra si. São sinais tristes e solitários de um investigador que nunca viveu o bastante para descobrir o que procurava. Você pode notar um romantismo brega e um ceticismo amargo, o marginal que esperava ser

Jeff Weiss é um escritor de Los Angeles e co-autor de um livro sobre 2Pac e Biggie, além de administrar o site cultural Passon of the Weiss. Siga-o no Twitter.

Tradução: Thiago “Índio” Silva

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