Como Sobreviver à Melhor Festa do Mundo: O Carnaval de Trinidad

Olhando para trás, eu deveria ter sacado que não devia me envolver pessoalmente com um enigma como Trinidad. As coisas nunca dão certo com esses tipos misteriosos.

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03 Abril 2015, 2:00pm


Todas as fotos são do autor, a menos que sejam creditadas de outra forma.

Antes de começar, quero deixar claro que não fui vagabundear pelo Porto de Espanha com uma corrente de diamante fake porque curto festas muito loucas. Eu tenho narcolepsia (não, não que nem a Carol em Gigolô por Acidente e não, não preciso de bóias quando saio para comer uma sopa), então normalmente só vou a festas se é algo excepcional produzido pelo meu circuito favorito. Fui para Trinidad porque sua incongruência com o resto das Antilhas era intrigante. Enquanto a maioria das ilhas depende quase totalmente do turismo, Trinidad não se dedica àquele lance de colocar um mini guarda-sol no seu drinque. O turismo totaliza apenas 8% de seu PIB, um mero adendo à pequena e rica em petróleo "América do Caribe".

Passando longe do arquétipo da Índia Ocidental, a população de Trinidad é uma mistura de indianos orientais, africanos, asiáticos e árabes que não apenas coexistem, mas que se amalgamaram completamente e criaram um sotaque sexy e uma cultura incrivelmente inclusiva. Apesar dessas qualidades cativantes, Trinidad existe de forma quase anônima, tendo sua autonomia sufocada ao ser equivocadamente estereotipada como um alter ego da Jamaica – equivocado porque Trinidad e Jamaica não são nada mais sinônimos do que a nadadeira de uma foca e o meu braço. Enquanto a embaixada do Bob Marley garantiu à Jamaica um referencial do espírito das Antilhas, Trinidad assumiu o papel do cara quieto que você nem lembra o nome direito mas que, enquanto os adolescentes populares estavam vomitando litros, estava em um porão caribenho passando trotes tentando descolar uma grana e hoje em dia é um milionário de 25 anos. Olhando para trás, eu deveria ter sacado que não devia me envolver pessoalmente com um enigma como Trinidad. As coisas nunca dão certo com esses tipos misteriosos, mas eu era jovem na época – três semanas atrás – e inocente demais para não atender a chamada do Carnaval.


J’ouvert. Todas as fotos são do autor, a menos que digamos o contrário.

Segunda de Carnaval. Foto por Mark Romany.

No momento em que embarquei no meu voo para Porto de Espanha, estava sonhando acordado. O mundo tinha evoluído para uma versão que o John Lennon sempre teve esperança que um dia aconteceria: os estranhos faziam contato visual, falavam uns com os outros e estávamos todos unidos pelo fanatismo pelo Carnaval. Seguindo minha viagem a bordo de Um Vôo Muito Louco, mal tive tempo de devorar esses sanduichinhos caribenhos antes de começar a me embebedar. Aliás, “se embebedar” significa ficar muito louco, e é crítico o fato de você saber disso sem ter ido para Trinidad. “Trocar ideia” também é útil e não deve ser confundido com se embebedar. “Fête” é uma festa massa com quantidades absurdas de álcool, onde um limão não é uma fruta, e sim um encontro informal por um período de tempo indeterminado; com quantidades absurdas de álcool. Para os cidadãos de Trinidad, existem poucas coisas tão importantes quanto se embebedar e trocar ideia, e para entender por que, você primeiro precisa entender o que é o Carnaval e como ele chegou até aqui.

A história começa no fim do século XVI, quando colonizadores franceses trouxeram o Carnaval pré-quaresma (e escravos africanos) para Trinidad. Nos dias que antecediam a plantação da Quarta-feira de Cinzas, os donos faziam festas de gala extravagantes para os ricos e racistas e seus escravos, que eram proibidos de participar, e começaram a fazer suas próprias celebrações secretas (que em sua maior parte consistiam em se vestir dos pés à cabeça e sacanear seus mestres).

Depois da emancipação de 1838, os ex-escravos finalmente tiveram a liberdade de tirar seu Carnaval dos quarteis de quintal, e então o levaram às ruas para celebrar o fim da escravidão com muita música e dança. No entanto, em 1881, o regime colonial britânico encerrou este festival da liberdade fazendo uso da força bruta (esses caras não perdem tempo) e baniram os batuques e cânticos africanos na ilha. Cinquenta anos depois, o proletariado festivo mascarado desafiadoramente se mobilizou novamente, dessa vez como uma orquestra de talheres, tampas de lata de lixo e tambores de óleo, a partir dos quais desenvolveram o tambor de aço – o único instrumento acústico não-eletrônico inventado no século XX. As enormes facções dos ex-escravos da Índia, China e do Oriente Médio, que haviam sido trazidos após a abolição da escravatura para sustentar o crescimento comercial de Trinidad, também ajudaram a ressuscitar a folia, criando festividades com sua música folclórica nativa.

O Carnaval, que a essa altura não tinha mais nada a ver com a preparação para a penitência, se tornou uma consolidação de culturas, e no início dos anos 60 os sons indígenas de uma pátria de muitos se fundiram para a ascensão de um gênero único e transcendente: o soca. Promovido pelo compositor Garfield Blackman (também conhecido como “Lord Shorty” ou “The Love Man”, pai de 23 filhos), o som soca emergiu como a voz onipresente dos oprimidos, mas não atravessou as fronteiras das classes sociais até uma década depois, quando as lendas do calypso Lord Kitchener, Mighty Sparrow e David Rudder infundiram o gênero com suas letras provocantes, que agora são uma característica própria. Insinuações sexuais associadas a ritmos sincopados seduziram as massas.

Este golpe cultural da tomada dos séculos é o motivo pelo qual hoje os cidadãos de Trinidad têm esse talento para festas, ou para se embebedar e trocar ideia.


Terça-feira de Carnaval – no agito com seus dreads. Foto por Mark Romany.

O que realmente coloca o Carnaval de Trinidad em todo um outro patamar é sua proporção. É o segundo maior Carnaval do mundo, ficando atrás somente do carioca, mas ainda mais impressionante que o seu tamanho é seu pleno vigor. Esqueça o miserável Mardi Gras, o Carnaval de Trinidad dura dois meses inteiros. Ele continua, continua… e continua. Acho que é por isso que uma vez que você entra no modo Carnaval, não volta mais.

Já que não posso tirar 55 dias consecutivos de férias (e nem consigo ficar acordado por tanto tempo), não consegui ir a centenas de festas, mas cheguei a Trinidad a tempo para a Semana do Bacanal, os sete dias mais selvagens do calendário gregoriano. Apesar de que eu não os chamaria de dias, já que dia e noite são conceitos irrelevantes quando você nunca dorme. É o pior pesadelo para um narcoléptico: uma farra alcóolica em cruzeiros, as festas mais descoladas (ao ar livre porém com menos obesidade envolvida), os blocos de rua deixam os brasileiros no chinelo, DJ sets do Major Lazer, e um show surpresa do Machel Montano, que não se apresentou em um palco (isso seria convencional demais), e sim no meio de uma festa das tintas na floresta tropical, durante o nascer do sol. Essa festança a nível nacional constrói um momentum durante cinco dias antes de chegar às duas da manhã de uma segunda com a J’ouvert, a última festa que eu tive que enfrentar o mundo ostentando uma roupa coberta de jóias que já foi citada anteriormente.


A AMBUSH, do Exército de César – o que acontece na moita, fica na moita.


Foto por Mark Romany.

A forma mais fácil de compreender a J’ouvert é dando uma olhada no festival das cores indiano fazendo um P90X sob efeito de esteroides. No meio da noite dezenas de milhares de pessoas fazem uma peregrinação para o Porto de Espanha para cobrir uns aos outros com chocolate, barro e tinta (representando a desintegração da raça e classe), enquanto agouram seções rítmicas – bandas enormes compostas apenas por instrumentos de percussão – deixam as ruas escuras de pessoas indefinidas ainda mais assustadoras.

E então, no raiar do sol, começa a maior festa da semana. Não estamos falando de algumas milhares de pessoas usando crop tops neons e bandanas florais dando soquinhos no horizonte. A segunda e terça de Carnaval, o clímax da Semana do Bacanal, é um buraco negro pornográfico de álcool excessivo e corpos nus que fazem o Mardi Gras parecer um festival religioso.

Clássicos animados de soca do Olatunji, Farmer Nappy, Fadda Fox e Flipo explodem pelas caixas de som com subwoofers do tamanho do meu quarto, causando uma onda de choque cataclísmica que destrói tudo que vê pela frente exceto os caminhões soca (com 18 rodas e tunados com auto-falantes) e cinturas sinuosas:

Por 48 horas consecutivas, Trinidad existe em um vácuo desprovido de qualquer coisa a não ser bundas colidindo ferozmente contra testículos. Mesmo se eu tivesse invadido todas as casas de fraternidade ao redor da América, jamais conseguiria terços o suficiente para expressar meu espanto com a total falta de inibição dos habitantes de Trinidad. A única vez que vi pessoas tão desenfreadas na América do Norte foi no café da manhã de graça no quintal do Marriott.

O Carnaval de Trinidad é, sem dúvida, a coisa mais divertida que você pode fazer no planeta Terra e se você tem algum pingo de amor próprio, irá à peregrinação pelo menos uma vez na sua vida.

J’ouvert é tipo a festa indiana Holi sob efeito de esteróides.


As diabinhas do chocolate da J’ouvert: os foliões cobrem uns aos outros de chocolate derretido e festejam nas ruas até o sol raiar.


A AMBUSH, do Exército de César.

A RESSACA PÓS-CARNAVAL

Entretanto, a melhor festa do planeta não é feita apenas de arco-íris e álcool, e é importante você saber que está correndo um grande risco ao participar do Carnaval de Trinidad: lidar com a ressaca é uma merda. Cadê o Alcoólatras Anônimos? Antes de ir para Trinidad eu achava ir pra balada tão divertido quanto uma fissura anal, mas quando voltava para casa a única coisa que conseguia pensar era em descolar uma nova festa. Finalmente entendi como o Garfield se sentia com sua obsessão em conseguir a próxima lasanha.

A epidemiologia da Depressão Pós-Carnaval, conhecida em Trinidad como tabanca do Carnaval, não foi decifrada totalmente, mas sabemos que é um efeito colateral de uma euforia extrema vivenciada pelos frequentadores. Ela parece predominar entre os residentes da América do Norte e Europa, onde seu surgimento geralmente ocorre após a volta para casa e o fato de terem que lidar com a dura realidade que séculos de estatutos puritanos fizeram com a foça vital de suas culturas, feito uma espécie de envenenamento por chumbo.

A Depressão Pós-Carnaval é incurável. Mas, com as ferramentas certas, os sofredores podem continuar levando sua vida marginalmente satisfatória. Se você acha que você mesmo ou alguém que você conhece pode sofrer de ressaca moral, favorite essa lista e lembre-se que a ajuda está a apenas um clique de distância.

DJ PRIVATE RYAN

Walshy Fire do Major Lazer e o DJ Private Ryan tocando e praticando controle mental na festa 24h muito louca de soca.

Nascido e criado em Trinidad e tendo frequentado incontáveis Carnavais, Ryan Alexander, mais conhecido como DJ Private Ryan, lidera uma das iniciativas mais antigas para combater a ressaca moral. Sua mix Post Carnival Relief ‘Road Remedy’ [Alívio Pós-Carnaval ‘Remedinho Para a Estrada], lançada todo ano imediatamente após o Carnaval, reúne os maiores experts da ressaca moral em um único MP3. A deste ano inclui grandes hits dos astros soca como Kerwin du Bois, KES the Band, Bunji Garlin, Erphaan Alves, Machel Montano Lyrikal, Olatunji, Farmer Nappy, Benjai, Fadda Fox e Skinny Fabulous.

A GRAVADORA FEEL UP

A Feel Up Records, do Brooklyn, foi criada pelo Chris Leacock, vulgo Jillionaire, integrante do Major Lazer e um corajoso líder na luta contra o desaparecimento da música soca. Seu último trabalho é um remix de Circles, um dos grandes hinos do Carnaval de 2015. A Feel Up proporciona diversas mixtapes grátis como parte de uma iniciativa filantrópica chamada “Free Ting Fridays”, porém eles cobram entrada em seus eventos comunitários, como por exemplo o tour Chicken and Beer. A turnê de 2015 se iniciará em Toronto no dia 5 de setembro durante a Semana Musical Canadense, sendo as próximas paradas em Miami, Nova York, Los Angeles e muitas outras cidades. As datas exatas ainda serão anunciadas, então siga a Feel Up e o Jillionaire para ficar por dentro.

MAJOR LAZER

Apesar de não serem exclusivamente produtores de soca, os caras do Major Lazer não têm limites quando o assunto é fazer com que o gênero conquiste fama internacional. Ao criar Sound Bang e It’s A Carnival (logo acima), esses ativistas nos fazem chegar mais perto de um mundo onde cada pessoa, não importa onde ela tenha nascido, tenha acesso garantido à música soca.

E mais: convenci meu camarada Jillionare a fazer uma playlist com as músicas mais massa do Carnaval deste ano. Então aperte o play logo abaixo e faça um brinde à esta publicação.

A PLAYLIST DE CARNAVAL DO JILLIONARE


Jillionaire, do Major Lazer, na terça de Carnaval.

Se você não puder ir para Trinidad ano que vem, não se desespere. Você mora no Brasil. Use camisinha.

Tradução: Stefania Cannone