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Conheça o Brasileiro que Fez a Capa do ‘Repentless’, o Novo Disco do Slayer

“Quando o próprio Tom Araya e o Kerry King entraram em contato comigo, vi que o bicho ia pegar. Pra mim, nada está além de Slayer”.

por Lucas Panoni
18 Junho 2015, 10:00pm


A capa do próximo disco do Slayer, Repentless, feita pelo brasileiro Marcelo Vasco.

Marcelo Vasco é carioca, mas mora nas frias serras gaúchas da cidade de Carlos Barbosa há alguns anos. Sob a alcunha de Mantus, ele é guitarrista do Pátria, uma banda de black metal na ativa desde 2008, com mais de cinco discos lançados e shows feitos na Noruega, o país-referência no gênero. Ele também trabalhou um tempo no departamento gráfico do selo de metal Indie Recordings, de 2007 até o começo deste ano, fazendo trampos de ilustração. Vasco já fez capas para o Dimmu Borgir, Obituary e Cavalera Conspiracy, entre outros, ou seja, é pouco foda?

Como se nada disso bastasse, o nome dele agora é anunciado como “o brasileiro que fez a capa do novo disco do Slayer”. Repentless, o tal novo disco, sai em 11 de setembro, e sua arte de capa, divulgada nesta terça (16), ficou bonitona, detalhadíssima e, por que não, polêmica. Marcelo quase não acreditou quando ficou sabendo que seu trampo havia sido escolhido, porque sabia que estava diante de uma “oportunidade de ouro”: “Quando o próprio Tom Araya e o Kerry King entraram em contato comigo, vi que o bicho ia pegar”.

“Pra mim não há nada além de Slayer”, diz Vasco. E como muita gente concorda com ele, fomos atrás de saber quem é, onde vive e do que se alimenta este ilustrador que vai entrar pra história da maior banda de metal de todos os tempos. Ouça a nova música do Slayer enquanto lê a entrevista abaixo:

Noisey: Você trampa com ilustração mesmo?
Marcelo Vasco:
Sim, trabalho com arte gráfica há muitos anos, basicamente desde 1996 quando passei a me interessar mais sobre esse mundo. No começo fiz trabalhos mais "amadores" pra amigos e a coisa foi andando com o passar dos anos. Desde 1999 trabalho profissionalmente. E vivo das minhas artes direcionadas ao mercado do heavy metal desde 2007, quando larguei tudo e me dediquei apenas a essa área.

Foi o metal que te motivou a fazer trampos nesse estilo?
Com certeza. Minha paixão pela música e pelo heavy metal começou bem cedo. Toco violão desde os meus nove anos e guitarra desde os 13. E sempre fiquei muito entusiasmado com as capas dos discos, naquela época ainda eram LPs em vinil. Pra mim eram como quadros, verdadeiras obras de arte.

Quais eram as suas capas preferidas nessa época?
Muitas capas de death metal da época. A primeira capa do Dismember é fantástica, sou apaixonado por ela, acho que é a minha preferida, assinada pelo grande Dan Seagrave. Certamente o Dan e o HR Giger foram uma das minhas maiores inspirações artísticas. As próprias capas do Hell Awaits, Reign In Blood e South of Heaven do Slayer me marcaram muito. As capas do Cause of Death e do The End Complete do Obituary, e também as do Sepultura: Beneath The Remains e Arise. Enfim, são inúmeras capas que fica difícil de lembrar e citar aqui. Mas essas com certeza são clássicas que merecem destaque. São verdadeiras obras. Eu sou suspeito pra falar desses caras aí.


Capa do primeiro disco do Dismember, Like an Everflowing Stream, feita por Dan Seagrave.

Pode crer. E como foi o processo da capa do Slayer?
Tudo começou através da Nuclear Blast, que é o selo atual do Slayer. Já tínhamos trabalhado juntos anteriormente e então eles me perguntaram se eu gostaria de propor uma capa para o novo Slayer. E que haveriam outros artistas envolvidos, tentando a mesma coisa. Eu topei na hora pois o Slayer é a minha banda favorita desde que eu era moleque, então isso seria não só uma realização profissional, como também pessoal. Eles então me passaram o título do álbum e a letra de "Repentless".

Trabalhei em vários rascunhos iniciais e eles acabaram gostando de um dos caminhos que eu propus. A partir disso começamos a trabalhar juntos, eu, o Tom Araya e o Kerry King, em cima dessa ideia, até a finalização da capa.

O conceito geral é meu. Eles me deixaram extremamente livre pra criar, o que foi muito legal. E eu como fã queria algo impactante, agressivo e polêmico, enfim, a cara do Slayer. Fugindo de modernidades, algo que tivesse uma conexão forte com os primeiros álbuns.

Você pode mostrar algum rascunho?
Infelizmente não posso mostrar os rascunhos. Desculpe. Mas posso te dizer que nunca trabalhei tanto em cima de uma capa, aprimorando cada detalhe junto com eles. Experimentando diversos caminhos, até que a gente chegasse no melhor resultado. Como eu disse, levei em torno de uns três meses se contarmos do ponto zero.

E só de rascunhos de lá pra cá, eu tenho de 60 a 80 diferentes. Foi realmente um trabalho muito minucioso. Ela é uma capa que se for vista em alta escala, num formato realmente grande, vai ser perceptível cada detalhe de textura. Pois a ideia é que fosse na vibe de uma pintura antiga e danificada, de séculos atrás. No zoom é possível vc ver até a textura da tela, como se tivesse sido pintada realmente a mão. E eu não sou pintor. Meu trabalho é 95% digital eu diria.


A arte de capa do Nail Them To The Cross, do Dark Funeral, também foi feita por Marcelo Vasco.

Você se sentiu desafiado?
Com certeza! Esse foi o meu maior desafio. Perdi muitas horas de sono trabalhando nisso incessantemente. Tudo por um motivo super plausível, claro. E eu sabia que essa era a minha oportunidade de ouro. Fui o melhor que pude, num intervalo muito curto de tempo. Acho que isso também contou pontos pra mim. E me mostrei sempre pronto a enfrentar qualquer obstáculo, estava sempre disponível pras ideias e modificações que eles tiveram durante o percurso. Foi bem cansativo mas no final motivo de grande orgulho pra mim.

E como foi pra você receber a notícia?
A notícia veio recentemente pra mim na verdade. Eu sabia que estava chegando perto e estava entre os escolhidos já algumas semanas atrás. E quando o próprio Tom Araya e o Kerry King entraram em contato comigo, vi que o bicho ia pegar. Mas ainda assim foi difícil pra mim, de acreditar que eu estava alcançando isso. Até agora a ficha não caiu. Só uns dias atrás é que eles de fato me disseram: “Pronto, é você que vai fazer nossa capa. Tá tudo acertado!”

E na sequência disso houve um trabalho mais fino em cima dos detalhes da capa inclusive, pra ter certeza que tudo estava de acordo. Ver ela pronta e finalizada foi um alívio enorme, no melhor dos sentidos, e com sensação de dever cumprido. Pra mim nada está além do Slayer. Eles têm sido minha banda favorita desde moleque. Então o que eu consegui é impagável, sem palavras.


Arte para o single de "Born Treacherous", do Dimmu Borgir, feita pelo Marcelo Vasco.

O que me chama atenção nas capas de metal é que elas geralmente são bem cheias de detalhes. Por curiosidade, quanto tempo leva de um projeto em branco até a ilustração final?
Tudo depende muito da inspiração e da criatividade. No geral para a criação de uma capa leva de duas a quatro semanas. Essa do Slayer levou um pouco mais, se contar desde quando saiu o primeiro rascunho, dá pra dizer que levou de dois a três meses quase. Eu costumo trabalhar quando fico livre pra criar em cima dos conceitos passados pela banda. Gosto de estar bem livre pra fluir sem barreiras... Quando me passam ideias concretas a coisa não anda. Não sou esse tipo de artista. Quero ter a minha própria visão daquilo e não ser apenas uma ferramenta mecânica ligada no automático pra executar um trabalho já pensado, com ideias concretas e todos os detalhes. Quando surgem clientes assim eu de cara já não aceito o trabalho. Não é interessante pra mim.

Pode crer. É um misto de hobby e ofício, então?
Na verdade é um trabalho que eu amo [risos]. É o meu ganha pão e é o meu único ofício desde 2007. Tenho meu escritório, tenho meus horários, clientes, tudo como manda o figurino. É algo extremamente sério pra mim. Mas sem dúvida em grande parte sou apaixonado pelo que faço e de uns anos pra cá tive a possibilidade de realmente escolher meus clientes e fazer só o que eu realmente acho interessante e que me dê algum pano pra manga.

Do caralho mesmo chegar nesse nível. Você chegou a fazer outras capas de bandas?
Sim, claro. Já fiz bastante coisa legal... Desde 99 eu trabalho profissionalmente nessa área, então fica difícil contabilizar a coisa [risos]. Mas fiz trabalhos "mais recentes" pro Machine Head, pro Soulfly (do Max Cavalera, ex-Sepultura), Dimmu Borgir, Borknagar, Belphegor, Vader, Dark Funeral, Cavalera Conspiracy, Obituary e milhares de outras.

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