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Noisey

Vagando pela Babilônia: Neto Conta a História do Síntese

Do impacto underground de ‘Sem Cortesia’ aos planos para o futuro, frotman do projeto de SJC reflete sobre os rolês do grupo

por Paulo Marcondes
28 Abril 2014, 7:08pm

Foto: Facebook da banda

Se você não esteve nos últimos dois anos dentro de uma caverna ou andou desgostoso da vida sem curtir um rap, é bem provável que saque o Síntese. Hoje, com um só integrante, o Síntese era uma dupla de São José dos Campos que chegou pesadíssimo com o disco Sem Cortesia em 2012, depois de colocar na rua uma demo e uma promo – além do vídeo da faixa “4:20”.

Com bases completamente lo-fi, faixas curtas, quase nenhum refrão, e versos como “matar por um Nike, morrer de chinelo”, Neto e Leo conquistaram uma porrada de fãs. Só que aí está uma fita que pouca gente sabe. Quando os dois lançaram o Sem Cortesia, eles já tinham parado com o rap. Ambos tinham deixado tudo de lado e soltaram o álbum sem pretensão alguma na internet. Em 2013 o Neto voltou sozinho a tocar o caminho da música com o Síntese e até lançou o single “Interno”.

Exclusivo: Síntese e Projetonave em “Cerrai o Cilho” e “Em Favor do Réu”

Aproveitando que o Síntese acabou de lançar mais dois sons novos junto com o Projetonave, trocamos uma ideia com o Neto para saber um pouco de religião, dessas bases, das letras, de como é tocar o projeto sozinho, do que motivou os dois a pararem e outras fitas de alta periculosidade. Junte as mãos em oração e fortaleça a corrente do Neto no papo abaixo.

Noisey:O álbum de estréia do Síntese, Sem Cortesia, foi apontado por muita gente como o melhor lançamento de rap de 2012. Como foi ler tantas críticas positivas sobre o trabalho? Você esperava essa recepção?

Neto: Ah, mano, a gente tava fazendo as coisas desde 2010, que eu e o Leo voltamos com o rap, e em 2010 fizemos uma demo, colocamos na rua 200 cópias e em 2011 fizemos mais umas cópias de uma promo. Estávamos com muita coisa sendo feita nessa época, tínhamos a ideia de lançar os trampos e tal, fazendo os discos e etc. A gente sabia que o que fazíamos era algo diferente do que tava sendo feito e era o nosso jeito de fazer. Lá no Vale as coisas são diferentes. Depois foi acontecendo muita coisa, a gente foi entendendo a realidade de um jeito diferente, proveniente da sensibilidade nossa e de tudo que a gente tava vivendo na época. Nós começamos a ter uns problemas de bem estar espiritual e com a nossa saúde mental, por causa da nossa sensibilidade e de tudo que a gente acaba ficando consciente. E isso pedia uma maturidade que a gente nunca teve. O Sem Cortesia foi o que? Teve uma época em 2012, pouco tempo depois de gravar o Manos e Minas, que nos internamos na casa do Willian Monteiro da Matrero, antes de ter tudo lá, antes de ser a Matrero, ficamos lá 10 dias, na roça, porque íamos nos retirar, a gente ia parar com tudo e virar franciscano. Nesses dez dias a gente registrou tudo o que tínhamos. A gente gravou um documentário e três álbuns nessa internação e um desses é o Sem Cortesia, que lançamos depois de um tempo na internet sem pretensão nenhuma. Bolamos um plano de como apresentar tudo o que tínhamos dentro do nosso quarto pras pessoas, mas não sabíamos como ia ser. Sem Cortesia, por exemplo, o nome, é muito velho. O Leo queria que fosse o nome do grupo (risos). Ia ser uma mixtape e depois íamos fazer o Babilônia, que era o álbum mesmo que estávamos preparando, que envolvia mais essas músicas que falam de personagens, que tratam mais do crime, do tráfico, das drogas, que envolvem as situações mais extremas. O Sem Cortesia foi juntar a ideia desse disco com a ideia de fazer um EP só com umas bases de reggae, que a gente gosta, e virou Vagando na Babilônia e Em Busca de Canaã. No Vagando na Babilônia as músicas são as mais antigas, antes de a gente ter o estalo que a gente teve, o Em Busca de Canaã é mais atual, ali está mais a nossa busca, com umas idéias mais cônscias. A gente parou com o rap e soltou o álbum. É algo muito profundo pra mim, é tão profundo que eu não consigo nem visitar direito, é muito a minha vida, tudo que a gente viveu e acreditou. A gente foi muito louco da cabeça, a realidade apodreceu a nossa mente e nosso mundo. Custou muito caro tudo isso.

O Síntese tem um bagulho que eu acho foda, que é esse lance de usar bases lo-fi. De onde veio essa ideia?

É um negócio que nem eu entendo até hoje, o jeito que eu faço as bases ali no Fruity Loops, o jeito que as pessoas recebem depois. Em São José as coisas são diferentes, eu vejo que o rap que é feito lá não é feito em lugar nenhum. Os beats lá são tudo assim e é o que eu sempre tive ali. Porque o rap, não adianta, mano, você pode ouvir tudo o que for, mas quem te influencia de verdade é quem você vê fazer pela primeira vez e as pessoas me deram uns toques ali, quando eu ficava vendo o pessoal fazer as bases, o Moita, o Du, são uns manos que tem uma pegada diferente pra fazer as bases. O Skeeter é um cara que me deu muita ajuda quando eu era moleque. É um negócio que eu faço o que eu gosto, tanto que são poucos raps que eu curto, eu gosto de uma brisa diferente. Eu acredito muito que quando você usa um sample de um ser que manipulou vibrações e morou com a mente no mesmo lugar que a gente mora, dá uma energia cabulosa pra música, tanto que um desses três discos que nós gravamos – e está na gaveta, chama-se Subversão, sou eu, o Léo e o Moita –em que todas as músicas são com nomes das originais que foram sampleadas, simbolizando essa cumplicidade de cárcere que existe desde que o mal seqüestrou a terra, o Plano Gaia, o Curso Gaia, e aí vieram e plantaram o Plano Terra e nós aqui em todo lugar do mundo sentindo, tem muita gente tendo o estalo que a gente teve nesse momento na África, nesse mesmo lote de tempo, a gente acredita que vibração é vibração e ser humano é ser humano e no jeito de transpor isso pras bases eu acho que isso conversa muito com a proposta musical que a gente tem, com as letras. Acho muito difícil criar na base de alguém, eu até faço questão que seja na minha mesmo. Isso dá um dom meio hermético pra tudo. Eu gosto muito desse negócio do rap, você com o Fruity Loops fazer música, manipular vibração ali e tal, eu sou fascinado por isso, e gostaria de saber fazer melhor um dia. Acho que tenho muito pra evoluir.

Você falou que curte pouco o rap que tem sido feito, quem você gosta?

De rap quando eu ouço são só os irmãos ali da minha quebrada, do dia a dia. Eu encaro o rap como uma música muito densa, neurótica. É fase. Hoje eu tô ouvindo muito MPB, tô redescobrindo esses grandes nomes da MPB, conhecendo mais a obra de cada um. É uma coisa que eu sempre tive dentro de casa. Minha mãe gosta muito de MPB, meu pai de moda de viola, meu irmão e meu primo são violeiros e sempre estão tocando viola lá em casa, e tudo isso me fascina, o jeito de escrever dos violeiros. Em alguns anos eu gostei de poucos discos de rap.

Quais?

Eu gosto muito do disco do Subsolo, eu acho um álbum muito da hora, aprendo muito sempre que ouço. Eu curto também ouvir o disco do Sarkasmo & Choco, que eu acho que é um aprendizado tremendo, o primeiro do Elo da Corrente eu acho lindo também, o Ruas Vazias do Shawlin, é o pessoal que eu ouço de fora. mas que eu gosto, ouço, entendo e consinto mais são os irmãos, o Inglês, o Nego Max, gosto muito das letras dele, o Moita. A pessoa que eu mais aprendo no rap hoje é o Inglês. O jeito que ele sente e passa as coisas é um modo que eu sinto muito, porque eu já morei no mesmo lugar que ele com esse sentimento. Eu acho que a vida é isso. A vida consiste em querermos crescer e o que me faz querer crescer no momento são as obras dos meus amigos. Quando a gente fazia mais rap, a gente era mais rap. Hoje, a atmosfera que eu vivo em São José é meio diferente, porque rap mesmo a gente não anda fazendo muito. Música a gente quase não faz na Matrero. Ali é uma família, a gente se junta pra conversar sobre a vida “como foi seu dia de trampo?”, “como ta a sua vida conjugal?”, a gente conhece a família um do outro, o que a gente menos faz é gravar música. No momento o que está acontecendo de uns dois anos pra cá, o Moita começou a tocar violão e a gente faz umas músicas, uns louvores pra Deus no violão. Eu tô tirando uma brisa mais musical no momento. A unidade I da Matrero tá em reforma tem um tempo, queremos fazer um cômodo e vamos gravar uma banda, fazer um samba, um MPB. Eu tenho pensado mais nisso. Rap eu só penso quando eu vou fazer, porque querendo ou não, eu escrevo às vezes umas coisas, mas na maioria das vezes o jeito de escrever e de pensar é de rap. Eu penso muito rap, sentença, sílabas e tal, aí sai mais rap. Tô voltando aos poucos a fazer bases, porque eu tô muito animado em fazer o trampo com os irmãos. Eu tô produzindo o EP do Nego Max com ele e o do Inglês também. Do Nego Max a gente pretende lançar esse ano ainda. A gente tem uma estrutura lá, a gente tem um lugar pra gravar, sempre tem um irmão pra tirar uma foto ali quando precisa, é um negócio que preenche a gente, porque primeiramente eu faço música pro meu irmão ali ouvir.

E esses discos que você disse que estão na gaveta?

A gente tem um disco que é registro, carta, mas a gente chama de disco e tem um que é rap, esse com o Moita. Esse aí no momento certo a gente vai lançar. Essa obra é a que eu encaro como a mais grandiosa que a gente já fez, acho que nunca vamos fazer outra melhor. Tá tudo ali. São quase 20 faixas. Nós três: eu, o Leo e o Moita. Eu quero dar um tempo pra dar estrutura pra esse acontecimento. Eu quero regravar um dia num estúdio muito bom, dar na mão de alguém que seja responsável pra tratar o áudio e quero envolver gente nesse trampo, fazer algo bem grandioso nesse Eu ainda tenho que fazer algumas coisas, encerrar mais alguns ciclos e eu não tenho pressa nenhuma de fazer. Quando eu estiver velho, eu ainda vou gostar muito das obras e se eu regravar depois de velho, vai ser melhor ainda. Eu quero produzir bastante esse ano. Fazer o EP do Nego, do Inglês pro ano que vem. Devagar eu tenho tocado uma coisa do Síntese, já tenho a ideia do nome, do tema, já tem o projeto de cada faixa e ta tomando forma na minha cabeça, a cada dia que passa eu choco ele um pouco mais (risos). Vai ser um bagulho pra eu lançar e fazer outro tipo de rap depois. Depois de tudo que a gente passou, do Sem Cortesia, do Buracos ao Chão, tem que ter um bagulho muito cônscia e muito consciente, não pode ser confusão passada adiante. Vai ser como o Arrebate do DV, um disco sacro, com uma temática em último nível. Depois de “ficar louco” e ficar consciente, como nós ficamos, as pessoas se sentem muito sozinhas e vão procurar em arte, no mundo. É um afago muito grande quando você encontra alguém que passou pela mesma coisa que você e no fundo a obra de um artista é isso. Esse vai ser um trabalho que eu vou fazer pra quem está na busca. Vai ser tipo “pra quem tá na busca, ó, é isso aqui, mano”.

Você falou sobre quando vocês vão fazer um show e saem de lá se sentindo bem pra cacete, melhor até do que a plateia. Quem cola com você?

O Inglês, na maioria das vezes, sempre tá comigo. O Inglês foi um cara que salvou minha vida. Quando eu e o Léo pensamos em nos retirar do 'mundo' e virar franciscanos foi uma fase de muita instabilidade, durante isso tudo acabamos nem indo e eu caí sete vezes pior. Foi assim que nos encontramos mais até. Coincindiu numa fase muito difícil que nós dois estávamos vivendo, e nos aproximamos muito, o que resultou nos registros não-oficiais do EP Buracos Ao Chão até. Depois da ausência do Léo e de tudo isso que passou, a fase de uma nova aurora na minha vida também foi ao lado dele, e a convivência com o Inglês foi algo que salvou e salva minha vida diariamente, tenho uma gratidão eterna à ele. Juntos construímos essas atmosferas nas intervenções que tenho certeza que mudam muitas vidas, e primeiramente, as nossas.

As letras do Síntese dialogam muito com a religião, a Bíblia e o cristianismo. Qual a sua religião?

Religião eu não tenho. A gente evita ser associado. Porque religião é um negócio que é foda, num contexto histórico fodeu com muita gente, mas hoje em dia é um negócio que é necessário. A gente é cristão, eu acredito muito na palavra de Jesus que é o amor, se libertar de tudo. Imagina uma pessoa maldosa vendo um redentor nascer, que quis ensinar todo mundo. Pensa no demônio, você acha que ele pensou “ah, eu vou suprimir o acontecimento?”, não, ele pensou “vou apresentar esse fato, mas vinculando a uma instituição e aí eu governo o mundo”. Eu não gosto de instituição, eu não gosto que a vida seja institucionalizada, porque é muito pequena perto da verdade da vida, que é a verdade espiritual. A religião hoje em dia é um mal necessário porque as pessoas que encarnam aqui precisam de opiniões de todas as lajes de pensamento. Sem a religião, por exemplo, muitos irmãos não estariam entre nós. Eu acredito que Deus não rejeita ninguém. Hoje em dia o que eu tento passar adiante é tenhamos uma fé simples, que fale no nosso coração, que estimule a gente e faça com que amemos os outros. Sabe o grilo? Então, quando ele canta, aquilo é louvor pra Deus, já viu os caras desacelerarem aquilo lá? É igualzinho um coral humano, com refrão, alto, baixo e tudo. Existe um estado de consciência onde o amor se faz louvor. Eu falo isso num som. Quando ficamos ceifando a vida, sugando, vai ser triste e uma hora vai ser cobrado, porque não o que não serve uma ordem natural não se sustenta e uma hora tudo isso vai ruir, essa guerra do bem e do mal, essas energias vão acabar e vai ter uma vida linda pra nós. Acredito que essa redenção é de coração pra coração, não é massivo. Por isso que Jesus peregrinou, era o tom de voz, o olho no olho, a alquimia. O bonde não vai sair até que o último tome seu lugar e a gente tem que passar isso adiante. Tem uma história que eu tô na cabeça. Tinha um menininho que tava pegando as estrelas do mar na beira da praia e jogando elas de volta pro mar, aí chegou um homem de terno, mais velho – olha a representatividade -, falando assim “o que você ta fazendo?”, e ela:”Eu tô devolvendo as estrelas pro mar”, e o cara “Olha tudo, olha o tamanho do mar, você é louco, você nunca vai conseguir” e a criança virou e disse “ta vendo essa aqui, pra essa daqui vai fazer diferença” e tacou o bagulho. Assim que a gente tem que viver. A gente é tipo uma música de Deus, a gente tem que entender a música inteira, sendo uma nota.

Você lê alguma coisa que te inspira a compor?

As pessoas nem acreditam muito, mas eu falo que eu nunca li um livro na vida, male mal eu leio a Bíblia. Eu acho que um pouco dessa vida é proveniente da sensibilidade que eu tenho, eu gosto das palavras. Lá na Matrero a gente brisa muito nas palavras. Talvez isso tenha sido de contato com as pessoas que são cultas. O meu irmão é uma pessoa muito inteligente, muito informado, autodidata – autodidata não que ninguém aprende nada sozinho (risos). Acho que o bagulho mais cabuloso do mundo é ouvir alguém mais velho falando sobre a vida. Meu pai é uma pessoa muito sábia, quando eu o ouço, aprendo muito. Em questão de leitura a única coisa que eu leio e falo pros outros lerem é a Bíblia. Eu ensaio de ler faz mó cota, mas eu nunca peguei ainda. A Bíblia é uma coleção de livros e foram uns caras que sentiram o Espírito Santo e passaram o que acharam relevante adiante. Aquelas histórias, as parábolas, são uma fonte de sabedoria inesgotável. Napoleão diz que a bíblia é um ser vivo, e é isso, ela se renova todo dia.

Na última vez que conversamos, você me disse que o Síntese sempre vai ser uma dupla e que você tem tocado o lado do rap. Quais as outras formas de atuação do Síntese?

Eu vejo o Síntese como uma energia, como um espírito, porque não são só pessoas, eu e o Leo, por exemplo. Eu acredito que eu vou fazer outras músicas e lançar outras coisas como Neto e o Síntese vai ser meu trabalho com o rap, pra fazer rap tem que ser do jeito que a gente fez. Na época eu queria dar uns testemunhos numas igrejas, porque eu admiro muito a fé dos religiosos em alguns pontos. O jeito que eles vão pra uma cerimônia dispostos a absorver um negócio, que eu acho que o rap deveria ter. Eu acho que o rap deveria ser uma igreja, que o pessoal sai de casa buscando alguma coisa e sai de lá diferente. Só que as pessoas estão fazendo rap com cada vez menos responsabilidade e o público vai buscando outras coisas até chegar num nível que o rap teve que ir pra dentro de balada pra se sustentar e toma a conotação de qualquer outro escárnio: goró, droga e fornicação. Teve uma intervenção que eu convidei as pessoas a falarem “eu te amo” pras suas mães quando chegarem em casa e o irmão veio falar pra mim depois que nunca tinha falado eu te amo pra mãe dele, que se reconciliou com o irmão que não falava há vários anos; outro mano tinha tretado com a mina dele e eles voltaram; os manos saindo do corre, parando de cheirar. Isso é um negócio cabuloso, quando eu vejo isso acontecendo, a intervenção, a pessoa chorando, se sentindo tocada, se emocionando, eu falo: “nossa, o que eu tô manipulando?”. Eu peço tanto pra ser portal de Deus, que se não for isso, eu não sei o que é. Porque mano, quase todo show é melhor que o anterior. Cada vez eu tô me sentindo mais preparado e sabendo um pouco mais lidar com aquele estado que foge até um pouco mais da minha alçada, e vejo o ministério que Deus preparou pra minha vida inteira, eu vejo minha vida inteira fazendo sentido naquele momento. Eu sinto que é isso que eu tenho que fazer. Querendo ou não, o meio de atuação que deram pra esse sacerdócio é o meio artístico, no mundo paralelo, e é uma vida difícil.

O Síntese enquanto grupo de rap começou com você e o Léo. Quando vocês sacaram que o rap era o pilar pra levar a mensagem do Síntese?

Sacamos em 2010. A gente começou em 2008. Em 2006 e 2007 tinha uma reunião de sexta-feira que todos os pixadores iam pra porta do shopping, tomar tubão, tretar e pegar mulher. Nessa, começou a ter uns movimentinhos de uns beatbox e freestyle, e foi aí que a maioria se conheceu. Quem vivia essa fase era meu irmão, eu tinha uns 12 anos, e colava com ele, que fazia beatbox pros caras rimarem. Daí começou a chegar pra nós umas coisas de rap, Quinto Andar, essas coisas mais “leves”, e algumas pessoas de São José começaram a fazer rap. Pouco tempo depois, eu encontrei o Myspace do Moita e tinha uma base muito louca. Aí eu já comecei a fazer algumas bases, gravei um sonzinho e coloquei no Myspace. Eu já conhecia o Léo de vista do basquete e ele me chamou pra colar no ensaio lá no Moita. Conheci os caras lá tudo. O Léo fazia parte do Arte Sonora, era ele, o Lucas, os caras lá e o Moita era do Safari, eram os caras de miliano. Existiu uma outra banca de rap em São José na geração passada, que era o La Tormenta. Tinham uns grupos, o Criado Mudo, que era o Clécio, o Du e o Sleep. O Safári eram umas doze cabeças, era o rap, era o bagulho. E nós víamos tudo aquilo, os caras no auge deles. Nessa época eu e o Léo começamos a ensaiar em casa. Fui fazendo umas bases pra ele e nós estávamos juntos. Quando eu arrumava algum showzinho na cidade eu o chamava, ele colava, cantava umas músicas dele e vice-versa, a gente fazia o rap junto, mas não era Síntese ainda. A vida foi acontecendo, com 15, 16 anos a gente vai vivendo outras coisas. Ele foi morar longe, lá no fundão da Zona Leste, depois uns tempos em Minas Gerais, e fui viver minha vida. Paramos com o rap nessa época. Eu lembro que em 2010, quando ele voltou de Minas, a gente sentou, abriu o Fruity Loops, lembrou dos nossos versos, do que tínhamos feito na época e ele voltou com umas letras prontas também. Começamos a escrever em outra pegada e já fomos fazendo as coisas. Escolhemos o nome Síntese, aí as coisas começaram a acontecer. No começo de tudo quem deu muita força foi o Tuba, o Tubaína, um MC lá de São José. Ele tinha feito um EP, eu fiz uma pá de base pra ele, aí ele pegou e começou a chamar a gente pra tocar nos lugares que ele ia se apresentar, e o pessoal passou a conhecer a gente. A gente vinha da realidade, trazendo essa fita, bravão com todo mundo e o tempo foi passando, a gente foi ficando mais cônscio, a loucura foi fazendo nós darmos atenção para outras coisas. Em 2011 a gente fez a promo, o Léo foi morar no Moita, aí a gente começou a fazer esse álbum que tá na gaveta e tal e em 2012 foi a fase terminal, depois que a gente gravou o Manos e Minas, agosto ali assim, daí já era, tudo mudou. E em 2013 eu voltei.

Tem diferença em fazer as coisas do Síntese só você, sem o Leo?

Tem diferença no sentido de eu estar apresentando alguma coisa sozinho, mas eu acredito que a conotação que o bagulho tomou hoje, depois que a gente parou, essa que é a verdade, foi algo que a gente nunca exerceu junto. É algo novo pra mim. Então eu nem imagino como seria levar isso do lado dele. E por isso que é suave. Meus amigos me ajudam muito também. Eu me sinto seguro de apresentar tudo que a gente viveu, a nossa realidade. Eu me sinto confortável pra chegar em qualquer lugar e ser eu mesmo, é um negócio que eu sinto, é um negócio de Deus. É por isso que eu coloco tanto o nome de Deus na frente. Não é em vão.

As letras do Síntese são de difícil entendimento pra um pessoal. Você tenta fazer com que as pessoas entendam as idéias do Síntese ou é um bagulho mais seu do que do público?

Eu tinha um monte de ideia e precisava passar tudo isso pra algum dia alguém entender, hoje em dia eu não penso mais assim, depois que a gente parou e voltou. Hoje eu quero levar as coisas para as pessoas. De tudo que eu já fiz, eu ainda não fiz o rap que eu gostaria de fazer ainda. Esses sons que eu fiz com o ProjetoNave são os que eu mais chego perto do que eu quero fazer e esse EP vai ser. Só que também você tem que estimular a pessoa a saber o significado das coisas, tem que ver até onde vale a pena moldar o seu jeito de se expressar. Eu tenho em meu coração que o Síntese é um entendimento póstumo, mas eu não considero isso pra ir pra caneta não.

Nessa de entendimento póstumo, eu acredito que daqui um tempo o Sem Cortesia vai virar um clássico do rap underground, sei lá, daqui uns 10, 12 anos e o pessoal vai ouvir e ficar abismado. Você já parou pra pensar nisso?

Isso aí eu penso e quero muito que aconteça, que as pessoas vejam tudo que a gente viveu ali um dia, e consigam enxergar realmente os enredos ali que a gente relatou. É um sentimento que tenho para com outras obras importantes e marcantes na vida pessoal do artista. Primeiramente todo mundo vive, depois registra. E isso guarda muita coisa. Quero fazer o Sem Cortesia em vinil, pra que exsita como um artefato. Mas eu não quero que isso influencie as pessoas mais do que o que está por vir ainda.

Como rolou o convite do ProjetoNave?

Desde que a gente foi no Manos e Minas. Os caras nos viram e gostaram pra caramba. Aí eles deram um salve pra gente fazer um som juntos, mas a gente tava parando com o rap. Naquela época estávamos negando tudo, negando show e etc. Quando eu voltei e teve o convite de novo, eu achei mutio importante. Ter a oportunidade de ter uma banda executando a manipulando as vibrações das nossas obras seria uma amplificação de tudo que a gente passa a diante. Senti que tinha que ser o registro mais responsável da minha vida.

E qual é a desses dois sons?

Eu fiz primeiro a segunda música, a “Cerrai o Cilho”. Um dia eu tava na Matreiro, pensando, nós estávamos numa comunhão. Deu uma luz em mim, e peguei o lápis e o caderno, fui lá fora, e escrevi a letra. Voltei e falei com o William Monteiro o que ele tinha, aí ele me mostrou umas bases dele, eu entrei e já gravei uma guia na hora. Levei pro Projetonave a pré-produção do William e os caras ficaram ouvindo, tendo idéias e combinou que na mesma fase o meu irmão encasquetou de fazer base e eu tinha começado o esboço da “Em Favor do Réu”, e ele fez uma base. Sampleou um bagulho francês que tinha uns loops muito lindos de umas cordas. Eu já mapeei, continuei e já fiz a letra dela toda no mesmo dia. E mano, nada a ver com o que virou. Depois que eu mandei pro ProjetoNave, a música se transformou. As duas. Quando eu vi os caras tirando aqueles acordes na guitarra, aquela bateria, o baixo, o teclado, quando vi, eu falei “nossa senhora”. Considero que comecei a fazer música depois dessas duas. Eu tratei como algo especial mesmo. Escrevi com a maior responsabilidade do mundo, pensando em tudo. Os sons são um encerramento de ciclo também, eles tratam muito da loucura. Essa representatividade do réu, de alguém julgando, rola em muito filme, em muitas coisas, exprime muita coisa, essa fita de que a gente sempre tá em julgo. Não importa, mano, quando a gente fecha o olho a paz tá ali. É de dentro pra fora, a gente tem que fechar o olho, cerrar o cilho em favor do réu. Isso é um frase. “Em Favor do Réu, Cerrai o Cilho”, é uma prece. Olhar pra dentro. A resposta tá dentro.

Como você se sente estando no Nasbase ao lado de nomes como Flora Matos, Emicida e etc?

Eu me sinto muito bem. Nesse ponto, eu me sinto muito enobrecido, pelos caras darem essa oportunidade que deram pra mim, de me levar pra um estúdio profissional pra fazer as captações, de estar perto de músicos como ele, da equipe vindo filmar. Foram muitas primeiras vezes pra mim, sabe? De ter feito aquele show no SESC Pompeia, aquele no Auditório do Ibirapuera, executando essas músicas. Mas, mano, sabe o que eu acho que foi o mais legal disso tudo? Poder mostrar pros irmãos um pouco de mim. Foi um trabalho que eu direcionei muita energia, foi muito sacro. Eu jejuei, orei muito, eu consagrei mesmo o momento e foi muito especial e ser registrado num vinil é uma honra muito grande. Criar com alguém é muito profundo, é muito dez, e eu fiquei muito feliz de estar servindo a Deus ao lado deles.

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