Eu Não Entendo as Letras do Boogarins

Por isso fui perguntar para os compositores o que eles queriam dizer.

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13 Dezembro 2013, 4:56pm

Foto por João Cezar Barros.

Eu não saco as letras do Boogarins. Essa é a real. Quer dizer, agora, depois de passar uma semana trocando ideia com o guitarrista Benke na internet e enchendo o saco deles para que me explicassem o que pensam da vida, já domino algumas coisas. Quando li a respeito de uma banda "neo-psicodélica" e "pós-tropicália" que fazia um som "tipo Tame Impala", sendo citada entre as revelações do ano de 2013, pensei: "Será mais uma daquelas babaquices pretensiosas?". Na verdade, os carinhas do Boogarins são uns moleques bem de boa, que acreditam no "perfume do amor", curtem Júpiter Maçã e Os Hipnóticos, leem Aldous Huxley e tudo o que fazem é converter suas brisas filosófico-romântico-existenciais em letra e música. Isso seria a fórmula perfeita para que tudo desse errado. Contra todos os paradigmas, porém, o recém-lançado primeiro disco, As Plantas que Curam, é bom de verdade.

O embrião do que viria a ser a banda hoje começou quando o Benke e o Fernando - que é quem canta e também toca guitarra -, amigos do Ensino Médio, resolveram gravar algumas ideias e canções inspiradas no tipo de som que mais ouviam: sixties em geral, tropicália e rock gaúcho. A maioria das faixas do álbum, me disse o Benke, está gravada desde o começo de 2012, mas eles resolveram lançar e tocá-las ao vivo numa festa de ano novo na virada para 2013. E a história é que todo mundo gostou, eles ficaram empolgados, começaram a ensaiar, e o primeiro show oficial rolou em abril desse ano. A formação atual é um quarteto, com o Raphael no baixo e o Hans na bateria.

Sobre o fato de terem firmado tão rapidamente parceria com a gravadora gringa Other Music Recording, Benke confessa que ficou surpreso: "Eu só peguei as seis primeiras músicas do disco e mandei para uns blogs e selos daqui do Brasil e de fora. Quando alguns blogs americanos começaram a postar, foi maravilhoso". Por que uns caras tão novos foram buscar referência justo nos anos 1960? Nas palavras do Raphael, "o electro e o synth pop já não são mais tão 'futuristas' como as pessoas diziam ser, não é? E se qualquer hora a gente quiser mudar, isso vai acontecer, e não estaremos traindo ninguém".

Mas… voltando ao lance das letras… Depois de ter curtido o som desses goianos, fui naturalmente querer saber qual era a deles. Como não ficar curioso quando você pega um disco que se chama As Plantas que Curam? Logo concluí que tinha algo a ver com drogas lisérgicas e a cultura enteógena. E não à toa, depois de o próprio Fernando cravar que "tudo que gere conflito no ser e que te proporcione momentos além do comum merece respeito". Então selecionei trechos de versos de algumas músicas e pedi para os pais da cria me explicarem. Antes, resolvi tirar à prova o que diabos havia por trás do nome do álbum e da própria banda. Enfim, chega de groselha. Vamos lá:

"As Plantas que Curam"
Benke: "Com certeza a intenção foi criar esse tipo de interrogação - ou certeza mesmo - [a respeito da lisergia] na cabeça das pessoas. Mas, antes mesmo de termos o nome Boogarins definido, eu havia achado no rótulo de uma aguardente medicinal da minha avó esse dizer 'As Plantas que Curam'. Achamos engraçado na hora, pensamos duas vezes se talvez pegaria mal… e decidimos que seria o nome do EP virtual, que agora é um LP."

"Boogarins"
Raphael: "Bogarim é o nome de uma planta que exala o perfume do amor. Mas a banda está longe de levantar bandeiras e de ser neohippie. Esse perfume de puro amor pode ter muito a ver com a gente, mas no que temos de mais pessoal e não exteriorizado. Diz mais das relações entre nós e com a nossa música. É muita coisa boa que temos por aqui, sabe… não é pra convencer ninguém."

"Lucifernandis das cordilheiras / Deu-me os livros / Abriu-me a cabeça / Lucifernandis lá do sul"
(Trecho de "Lucifernandis", letra inspirada na bíblia, que, segundo eles, fala da sensualidade de Lúcifer)
Fernando: "A música realmente faz referência à representação bíblica da figura de Lúcifer, sim, mas euimagino que de uma forma mais solta. Digo que sem se prender ao sobrenatural ou a uma filosofia pessoal nossa. Lúcifer pode ter significados diferentes em cabeças diferentes. Acho que essa nossa menção tem mais valor se observada dessa forma. Tem um trecho da música que meio que explica isso, esse lance do poder do inconsciente em distorcer/endireitar o entendimento das coisas: 'O escuro da mente trai, o escuro da mente faz'."

"Eu quero o infinito / Não todo, mas todo ele em frações / Para que eu possa ser as emoçôes / De corpo e alma e sem limitações"
(Trecho de "Infinu")
Fernando: "Essa frase foi devaneio puro, mas acho que está relacionada mais ao desejo sem fim, incontrolável. Sabe quando você quer muita coisa, mas não sabe o que é, e pra matar esse desejo tem que pedir tudo de tudo? Acho que é mais nesse caminho."

"Vou tomar um doce amor / Encostar no pôr do sol, por que não vem? / Fugir de onde os outros sempre vão"
(Trecho de "Doce". Aqui, perguntei se o que o protagonista sugere é que o lance é tomar um ácido, aflorar os sentidos e curtir os momentos singulares que a vida proporciona. Pelo menos foi o que eu entendi…)
Fernando: "É por aí, tem muito dessa coisa de dar um gosto nas coisas amargas que invariavelmente rolam com a gente. Se lançar na vida, se lançar pra ter momentos singulares e chamar alguém especial pra viajar junto".

"Eu vivo entre o sonho, a morte e o fim (…) / O mundo se esqueceu, eu não sei mais o que é sentir"
(Trecho de "Erre")
Fernando: "Muita gente se identifica muito com essa música e fica até complicado da gente dizer exatamente o que ela é ou o que ela foi, e, com certeza, qualquer coisa que eu lhe disser aqui tem mais de entendimento póstumo do que de sentimento primordial em relação à letra da canção. Acho também que essas reflexões são frutos da nossa idade. Nós sonhamos muito, queremos muito, e sonhar e querer demais aos 20 anos leva a alguns delírios sobre os caminhos que tomamos ou que vemos amigos tomarem. Eu imagino que essa seja a fase da vida onde você mais põe em conflito a razão e a paixão para tomar decisões. Acho que essa briga interna acaba refletindo e gerando uma parte muito grande e importante das nossas canções e do nosso comportamento em relação às coisas da vida."

"As tardes com os amigos / Bebendo ao som dos Beatles / Todos eram, mas hoje não são / Agora em meu caminho / Sinto que estou fugindo / Procuro a todos / Mas onde estão?"
(Trecho de "Fim", letra que fala de laços partidos, em versos inacreditavelmente econômicos.)
Fernando: "Não sei se isso seria produto de uma certa preguiça de falar demais e acabar 'sobrando' na cabeça e no ouvido das pessoas. Uma vez o Benke e eu conversamos sobre como existem certas músicas que funcionam mais quando o ouvinte completa sozinho o significado ou a onda da canção. Gostamos de deixar as canções mais soltas para que o ouvinte fique instigado, meio que um empurrão, sabe? Isso acontece de uma forma bem natural. Acho que esse é o nosso jeito de fazer as coisas. Só nos esforçamos pra deixar esse 'empurrão sonoro' cada vez mais forte, levando cada vez mais longe, mas também obrigando o indivíduo a voltar à música."