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Não Precisamos Defender o Feminismo da Beyoncé Porque Nós Temos “Beyoncé”

A rainha convoca todas as mulheres negras de fibra para pisotear o patriarcado.

18 Dezembro 2013, 4:30pm

Curto muito discutir. Sinceramente, gosto do ping-pong feito com um adulto são. Claro que algumas coisas não são passíveis de discussão. Por exemplo, não posso ter uma discussão saudável sobre a raça do Papai Noel, porque simplesmente não quero que uma estupidez dessa cause um derrame em mim. Não posso sustentar outra discussão sobre qual termo é pior, “nigger” ou “cracker”, porque a resposta está na própria pergunta. O feminismo é outro tópico que tento me manter distante porque muita gente simplesmente não tem a mínima ideia do que está falando.

Mas quando o assuntou é a Beyoncé, sempre achei difícil não discutir sobre as “credenciais feministas” dela.

Nesse mundo existe uma mulher que realmente acredita que a constante nudez da Lena Dunham é feminismo, mas quando a Beyoncé concorda em ser fotografada de calcinha está o ferindo. É complicado argumentar que isso é obviamente um caso de dois pesos e duas medidas e de racismo escondido, mas está cada vez mais complicado discutir com gente assim. Felizmente, com o lançamento do seu quinto álbum, Beyoncé abordou praticamente tudo sobre ela que é alvo de críticas e, em particular, o fato dela ser uma feminista.

Na manhã seguinte do lançamento do álbum, entrei em um debate no Twitter com alguém que classificou o disco como “sexualmente frustrado”. Esse LP é sexualmente frustrado apenas se você escolher acreditar que a sexualidade que ela destaca nas músicas “Blow” e “Partition” seja uma reação por ela ser infeliz ou insatisfeita sexualmente. Porque, é claro, se uma mulher celebra sua sexualidade em um espaço onde nenhum homem está presente deve ser porque ela não consegue atrair a atenção que ela quer deles –ou de um em particular- e precisa mostrar isso para implorar para eles. Pode me chamar de maluca, mas se eu fosse sexualmente frustrada no meu casamento seria bem esquisito pedir para meu marido escrever um verso sobre o ótimo sexo que nós não estamos fazendo.

Depois disso, desejei não ter falado nada, porque a beleza da Beyoncé é que as pessoas que não conseguem entender a fundo o que ela está nos mostrando e dizendo, se revelam pela natureza dos seus próprios ataques. Não vou ter de novo essa discussão de “será que a Beyoncé é realmente uma feminista/uma boa feminista/a pior coisa que já aconteceu com o feminismo?”.

Vamos primeiro entender duas coisas bem diretas sobre o feminismo:

1. Todos nós devemos ser capazes de concordar que a definição mais básica do feminismo é a defesa e o apoio igualitário de direitos sociais, políticos e econômicos para mulheres e para os homens. É ISSO.

2. Nós também devemos ser capazes de reconhecer que o feminismo pode ser diferente para diferentes mulheres baseado na sua raça, orientação sexual, classe, credos políticos, nível econômico, status de relacionamento, etc. Isso significa que duas mulheres podem lutar por duas coisas muito diferentes e ambas podem ser consideradas militantes feministas.

Se partirmos do princípio onde esses dois fatos são reconhecidos, não há espaço para uma discussão que diga que a Beyoncé não pratica e encoraja valores feministas. Talvez ela não represente o SEU feminismo, mas ela dialoga com uma certa compreensão do feminismo, especificamente com mulheres negras.

O Tom Hawking escreveu uma “resenha” bem previsível e (parece que) propositalmente preguiçosa da Beyonce. Ele, inclusive, meteu um papo furado sem noção ao discutir a faixa “Flawless”, escrevendo que “[...] a versão dela de empoderamento é baseada em um tipo inerente de conservadorismo, que não é enraizando na compaixão e generosidade, mas sim no materialismo, arrogância e no narcisismo inevitável.”

O negócio todo é que compaixão e generosidade não são as bases constitucionais do feminismo. Parece que alguém está confundindo feminismo com caridade.

Se você quer igualar amor próprio com o narcisismo, por favor, explique isso para todas as garotas negras do mundo que lutam para se acharem bonitas porque vivem em uma sociedade onde a beleza é quase que exclusivamente apresentada como branca. Se a Beyoncé ao celebrar e se vangloriar da beleza negra –e incentivando outros a fazerem o mesmo- é narcisista, então espero que todos nós o sejamos também. E nem vamos levar em consideração a esse papo da Beyoncé estar consolidando “um padrão tradicional de beleza”. Surpresa: tem muita mulher negra que adota a estética mainstream e isso não faz delas menos negras, isso faz a definição da beleza ser menos branca.

A Beyoncé é praticamente uma ode à celebração da beleza do corpo dela. Um tipo de corpo que só foi considerado viável nos últimos dez anos, mais ou menos, e que hoje é altamente associado com a mulher branca, ao invés das latinas que ajudaram a estabelecer esse padrão. Por que você acha que a Beyoncé fala da bunda dela toda hora e tem feito isso desde 2001?

Vamos parar por um segundo e reconhecer que suas letras são arrogantes porque ela entende, assim como muitas mulheres, que se ela não se hypar, ninguém vai fazer isso por ela. Ela precisa exigir reconhecimento, porque o sistema não vai dar isso de bandeja. Talvez, o ponto todo de “Flawless” é que, mesmo depois de conquistar tudo isso, ela não tem o respeito que merece e precisa agressivamente afirmar que sua grandeza tem que ser devidamente reconhecida.

E ainda assim, Hawking continuou, “o feminismo é se importar com as pessoas que são oprimidas –mulheres, minorias, os pobres. Não é desperdiçar 99% do seu tempo falando sobre como você é foda e como você é mais gostosa e rica do que as outras mulheres[...]” ele escreveu.

As mulheres negras entram nessa categoria de “pessoas que são oprimidas.” Beyoncé prova que se importa conosco e faz isso trabalhando ativamente para que nós sejamos representadas na arte dela. E, mesmo assim, Hawking prosseguiu escrevendo que “a imperadora não está nua, mas está vestida em roupas que você jamais conseguiria pagar e está rindo de você. Se curvem, vadias.”

Quando ela lançou “Bow Down” eu fiquei particularmente feliz ao ver as feministas brancas reclamando como a Beyoncé é antifeminista ao pedir para as mulheres se curvarem. A Beyoncé não está falando para eu me curvar –ela está falando para todas as pessoas que se recusam a respeitar suas conquistas se curvarem. Eu não preciso me curvar para a Beyoncé porque eu estou bem ao lado dela.

Honestamente, é difícil escutar as pessoas que não são mulheres negras ou bem versadas nessas lutas e nessas questões específicas que rodeiam a questão feminina negra discutindo o feminismo da Beyoncé, porque certamente tem muita coisa passando pela cabeça delas. Isso é estranho, considerando que 2013 em particular foi um ano crucial para o feminismo e o assunto foi uma questão constante nas discussões culturais. Esse ano, as mulheres de cor responderam o livro carregado de feminismo corporativo da Sheryl Sandberg e explicaram porque o tipo de feminismo dela é pautado pelo privilégio. Mulheres negras apontaram que o que a Miley Cyrus está fazendo é racista e uma apropriação cultural indevida da cultura negra e foi explicado que a glorificação das strippers feita pela Rihanna, fora dos olhares masculinos, é uma coisa boa.

Amanda Hess argumentou em sua matéria (“Rainha da Imagem Filtrada do Instagram, Beyoncé Critica o Culto à Beleza do Airbrush”) para a Slate que Beyoncé se contradiz ao oferecer uma crítica do nosso culto à beleza na música “Pretty Hurts”, enquanto ela reafirma esse culto em “Flawless”. “Beyoncé pode estar expondo o quão ridículo essa noção é, mas ainda temos que acreditar que ela realmente ‘acorda desse jeito’”, escreveu Hess.

Sugerir que nós temos que acreditar que a Beyoncé acorda desse jeito, com o cabelo, maquiagem e styling feitos por um profissional, é absurdo. Nós não temos que acreditar nisso porque ela não acha que somos idiotas. Isso é chamado de hipérbole para provar um ponto. Essa é a mulher que tem uma música chamada “Flaws and All” (Falhas e Tudo Mais). É quase prolixo dizer isso, porque logo depois que a Beyoncé se descreve como perfeita, assim como em muitas de suas músicas, ela encoraja que as mulheres repitam a mesma afirmação.

"We flawless, ladies tell 'em
I woke up like this, I woke up like this
We flawless, ladies tell 'em
Say "I look so good tonight”

[“Somos perfeitas, digam a eles garotas
Eu acordei assim, eu acordei assim
Somos perfeitas, digam a eles garotas
digam “Eu estou tão gata hoje”]

Isso é um chamado e resposta, e qualquer um com um entendimento superficial de música negra sabe disso. A Beyoncé é inquestionavelmente a única artista que cria músicas extremamente populares onde muito do que ela apresenta é completamente fora das experiências e conhecimento da audiência popular. (Estou falando dela cantando sobre twerking lá em 2005, batendo cabelo e tem, é claro, “Bootylicious”). A arte dela é enraizada na força da mulher negra –celebrando e pisoteando, figurativamente e literalmente, os sistemas e indivíduos que tentam suprimir isso.

O blog Real Colored Girls incitou a resposta a qual estavam apontando com o ensaio “The Problem With Beyhive Bottom Bitch Feminism”, o qual iguala o casamento do Jay-Z e da Beyoncé com o relacionamento entre um cafetão e uma puta alfa, sugerindo que ela é “cúmplice da sua própria reificação”. O blog previsivelmente cita um trecho da música “Big Pimpin’” para sustentar seu argumento, mesmo depois do Jay-Z ter declarado que se arrependeu de ter feito a música.

O Jay Z e a Beyoncé não são apenas parceiros, eles são artistas. Ambos parecem respeitar a liberdade de expressão e criatividade de cada um. Tenho que imaginar que os dois já fizeram ou falaram coisas em suas músicas que não amaram, mas isso é seu companheiro, a pessoa que você encara o mundo junto. Você não tem que deixá-lo ser um indivíduo? O Jay-Z claramente apoia que a Beyoncé seja dona de si mesma, assim como ela faz o mesmo com ele. A Beyoncé respeita o seu homem. Não é uma puta concordando com o seu cafetão. Isso é compreensão e comprometimento entre adultos.

Sem ao menos tentar entender o que está rolando na música dela, a mensagem provavelmente vai ser perder para você. A definição do feminismo não é limitada para as mulheres que se parecem com você. Não preciso defender a Beyoncé de novo porque o álbum dela faz muito melhor do que eu poderia fazer.

Kara Brown é uma escritora que vive na cidade de Nova York. Confira o blog dela aqui e siga ela no Twitter - @KaraRBrown

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