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Vídeo: “Que Esse Grito Não Seja em Vão”, um doc sobre o Cólera

Filme é homenagem a Redson Pozzi, líder do grupo que morreu em 2011.

por Paulo Marcondes
24 Outubro 2013, 4:26pm

A morte prematura de Redson Pozzi, vocalista e guitarrista do Cólera, foi um choque. Aos 49 anos ele continuava tocando, gravando discos e movimentando a cena independente, e a sua partida interrompeu uma mensagem que precisava ser transmitida. Qual era esse recado? Tudo o que o Cólera falou e ainda tinha pra falar. Sobre guerras, fome, autoritarismo, desigualdade social e claro, sobre a paz em todo mundo.

Inspirador, Redson organizava e influenciava toda uma cena, principalmente por sua integridade. Se teve um cara no punk rock nacional que de fato fez tudo o que cantava, essa pessoa era o Redson. E daí vem o choque, aliado ao fato de que o vocalista e guitarrista era um tanto careta.

Desde então, dois anos se passaram e há uma boa notícia para todo mundo que é fã do Cólera e admira o Redson. O carioca Raphael Erichsen, dono da produtora 3Film, resolveu correr atrás e fazer o documentário Que Esse Grito Não Seja em Vão!, que conta o legado deixado pela banda.

No doc, Raphael entrevistou grande parte da cena punk rock dos anos 80 no Brasil. Jão, João Gordo, Clemente, além de todos os outros integrantes do Cólera estão em Que Esse Grito Não Seja em Vão!, com direito a uma ida na casa de Redson. Um grande acervo da banda está na casa dele, de discos piratas à flyers dos primeiros shows do grupo.

O vídeo você assiste abaixo, e você também pode ler a papo que trocamos com o Raphael sobre o processo de filmagem, de onde veio a ideia, a importância da banda para o punk e muito mais.

Qual a importância de fazer um documentário sobre o Cólera e, claro, qual a importância da banda?

Esse filme que a gente fez retrata um momento específico. Um mês depois da morte do Redson, o pessoal da banda fez um show homenagem para gravar um DVD. Me chamaram pra gravar o show e eu achei que, melhor do que capturar o show, seria capturar aquele momento que pegou todo mundo desprevenido. Uma morte totalmente prematura de um cara que ainda tinha muito a dizer. O legal do filme é pegar todo esse pessoal que criou a cena punk de São Paulo dos anos 80 (Ratos, Garotos Podres, Inocentes, 365…) pra contar um pouco da história do Redson.

Sobre a importância do Cólera, é o que essa própria galera fala no filme. Gente como Jão, o Gordo, Clemente, Antônio Bivar... Pessoalmente, acho que o Cólera é uma banda que tinha uma proposta totalmente diferente das outras nesse primeiro momento do punk brasileiro. Enquanto todas as bandas pregavam uma coisa mais niilista, crust, “foda-se o sistema”, como o Gordo fala no filme, o Cólera já tinha uma ideia muito mais sólida e sensata, sem perder a fúria do punk. Comparado aos dias de hoje, onde parece que ninguém tem porra nenhuma a dizer, o Cóleraé mais pertinente do que nunca.

Qual o primeiro som do Cólera que você ouviu e o que isso significou pra você?

Eu comecei a ouvir o Cólera quando eu tinha 15 anos. Hoje eu tenho 35. O Cólera tocava uma vez por ano no Rio. Normalmente no final do ano, no Garage, que era o pico de punk/hardcore/metal da época. Todo ano eu tava lá. A primeira coisa que me tocou nesse primeiro contato com punk feito por uma banda de São Paulo, que pra gente, na época, era outro mundo, era ver como era possível através do DIY conseguir fazer as coisas. Não tem gravadora, a gente faz a nossa. Não tem estúdio, a gente improvisa um. Ninguém fala da gente, vamos fazer um fanzine. Não tem distribuição, a gente se corresponde por carta. O Cólera era uma lição de faça-você-mesmo e eu carrego isso até hoje em tudo que eu faço.

Existiu alguma dificuldade em gravar com alguém? Algum entrevistado que vocês queriam não pode participar?

Esse filme é uma Polaroid de um instante, é praticamente um funeral. Uma celebração do legado do cara. A gente pegou quem tava lá naquele momento, no calor da situação. Acho que ainda existe espaço pra uma coisa mais compreensiva sobre o Redson e o Cólera. Um “The Future is Unwritten” [documentário sobre Joe Strummer, do The Clash, morto em 2002] do Redson, saca? Uma coisa que consiga botar em perspectiva a história da banda. Numa das entrevistas o Antônio Bivar, historiador do punk brasileiro, me falou sobre o quanto ele via uma conexão entre as letras do Cólera e a música brasileira. Ele disse que imaginava a Elis Regina cantando “Subúrbio Geral” e o que isso poderia render pra música brasileira. Eu cheguei a pensar em procurar a Maria Rita e propor uma gravação, já que ela imita a mãe, né? Mas achei que ela não teria colhão pra isso e acabei desencanando.

Rolou alguma complicação na hora de obter essas imagens de acervo, coisas mais antigas, como os trechos do show do Ratos e Cólera no Lira Paulistana?

Tudo que a gente tem vem do Cólera. O filme foi todo feito na raça, não tem pesquisador, não tem ninguém pra licenciar. O que a gente tem é o que o pessoal da banda deu pra gente. Coisas que na real nem eles tem os direitos. A gente usa o princípio do uso justo do material, já que tudo que temos no filme diz respeito à própria banda. Além disso, assinamos o filme como copyleft. Eu acredito que muita coisa tem que ser desenvolvida ainda no aspecto de propriedade intelectual, mas aí já é outro papo. Acho que qualquer pessoa deve poder fazer o que quiser com o filme, inclusive, remixar ele.

O documentário possui legendas em inglês. Vocês acham que é importante que as pessoas de fora entendam a importância do Cólera para o punk brasileiro?

Desde que a gente lançou o teaser do filme um ano atrás eu comecei a receber mensagens pelo Facebook de gente da Finlândia, da Noruega, da Áustria perguntando sobre o doc. Gente que aprendeu a falar português por causa do Punk brasileiro. É só você pegar uma banda como o Força Macabra, da Finlândia, pra ver a força que o punk brasileiro tem na Europa. A ideia que o filme seja pra todo mundo. Se você pegar a capa e o encarte do Pela Paz em Todo o Mundo você vai sacar que o Cólera já tinha essa vocação e fazia isso a 30 anos atrás, antes de a comunicação global ser tão fácil e acessível.

Como será feita a distribuição do doc? Vocês pensam em tentar colocá-lo em festivais e etc?

A ideia original é propor que as pessoas em suas cenas locais promovam exibições do filme. Já fizemos isso no Rio, em São Paulo, Porto Alegre, vai rolar agora em Helsinki e Nova York. Com esse filme eu tô cagando pra festivais e coisas do tipo, o lugar dele é na rua, online, o que seja. Vamos espalhar a coisa mesmo. Acho que a gente fala a mesma língua e pensa da mesma maneira. Então, qualquer pessoa que queira promover um screening, pode ser antes de um show na sua cena ou mesmo juntar na casa de uma galera é só falar com a gente. A gente disponibiliza uma versão pra projetar. Pra galera que curte colecionar, o próprio Cólera junto com o pessoal da Thirteen Records vai lançar o doc em DVD junto com esse show que eu falei no início da entrevista até o final de 2013.

Se você pudesse mandar uma mensagem para o Redson hoje, o que falaria?

Acho que o recado não deveria ser para o Redson. Acho que o recado deveria ser pra molecada que, se não conhece o som do Cólera, poderia se assustar com o legado que esse cara deixou. O Cólera pregava a ideia do indivíduo, individualidade, coisa que está difícil dentro do mundo de mídia massificada em que vivemos hoje em dia. E, acima de tudo, uma mensagem positiva.

Paulo Marcondes é um punk vida loka, siga-o no twitter - @altnewspaper