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Music by VICE

"Um Clássico": Tudo Que Podemos Fazer Agora É Apreciar a Genialidade de ‘To Pimp a Butterfly’

"Deixando para trás toda a dor e mágoa que causamos uns aos outros nestas ruas, se te respeito nos unimos e impedimos o inimigo de nos matar."

por Kyle Kramer
18 Março 2015, 12:00pm

“Eu lembro que você vivia em conflito. Usando sua influência da forma errada. Às vezes eu fazia o mesmo. Abusando de meu poder, cheio de ressentimento. Ressentimento que virou uma depressão profunda. Me vi gritando em um quarto de hotel. Eu não queria me autodestruir. Os males de Lucy estavam ao meu redor. Então saí correndo atrás de respostas. Até chegar em casa. Mas isso não me impediu de sentir a culpa de ter sobrevivido. Indo e vindo tentando me convencer daquilo que havia ganho. Ou talvez do quão excelente era minha formação. Mas enquanto meus entes queridos travavam uma guerra contínua na cidade, eu entrava em outra. Uma guerra baseada em apartheid e discriminação. Me fez querer voltar à cidade e contar aos meus amigos o que havia aprendido. A palavra era respeito. Só porque você usa uma cor diferente da minha isso não quer dizer que não posso te respeitar como negro. Deixando para trás toda a dor e mágoa que causamos uns aos outros nestas ruas, se te respeito nos unimos e impedimos o inimigo de nos matar. Mas eu não sei. Eu não sou mortal. Talvez seja só mais um crioulo” – O “não-exatamente-poema” de Kendrick Lamar repetido ao longo de To Pimp a Butterfly

Se você visitar a página da Wikipédia do disco de 1971 de Marvin Gaye, What’s Going On, descobrirá que é um disco conceitual de nove faixas, “relatados do ponto de vista de um veterano da Guerra do Vietnã voltando ao país pelo qual lutou, encontrando nada além de injustiça, sofrimento e ódio”. Este resumo talvez explique porque o disco é especial, mas, no final das contas, também poderia ser uma descrição do Rambo. What’s Going On é um dos melhores discos de todos os tempos não porque a Wikipedia afirma isso, mas sim porque é cheio de emoção. É um disco no qual se mergulha, se sente profundamente, se vive de maneiras que estão muito mais atreladas à sua vida do que a Guerra do Vietnã jamais estará. O pano de fundo político é quase incidental; o sentimento político arraigado é atemporal.

Desde que o burburinho começou a crescer nos meses anteriores ao lançamento de seu disco de 2012, good kid m.A.A.d city, Kendrick Lamar tem sido um artista que fazia as pessoas – fãs, críticos – esperarem por material canônico, “clássico”. Este rótulo apareceu logo que gkmc foi lançado, e ficou, auxiliado em grande parte pelo fato de que o próprio álbum conscientemente se apresentava de tal forma. De cara, clamores de que era cedo demais para tratá-lo de tal forma porque este é um termo que não pode ser usado irresponsavelmente, clamores que podem ser ouvidos até hoje. De minha parte, evitei ouvir gkmc até um mês e meio depois de seu lançamento. Acabou que era ótimo. Não o escuto inteiro há um ano. Mas, veja bem, as pessoas o adoram. Chame de clássico se esse é seu lance, e vamos todos concordar que tudo bem.

Na madrugada de domingo (15) para segunda, Kendrick lançou seu esperadíssimo novo álbum, To Pimp a Butterfly, antecipado em pouco mais que uma semana, em um mundo que, novamente, esperava um “clássico”. E assim passaremos a discuti-lo desta forma (@desusnice, personalidade do Twitter e comentador cultural, largou a real logo: “Não baixei nem ouvi por streaming o novo disco do Kendrick, mas vou logo chamá-lo de clássico de acordo com as leis do Twitter”). Com base em minhas referências, a galera já ama To Pimp a Butterfly, e deveria mesmo. É, ao mesmo tempo, tudo que todos queriam de um disco de Kendrick – inteligente, político, cheio de alma, de acordo com a tradição musical e ainda moderno e aventureiro – sem soar óbvio ou panfletário.

Mesmo assim, há um cinismo no ar de que o lançamento da noite pro dia significa que as resenhas e críticas virão rápido demais, que existem camadas demais a serem descobertas em uma só audição, que não o compreenderemos até que possamos ouvi-lo muito mais vezes e ler e escrever tantos outros ensaios sobre. Isto procede até certo ponto. To Pimp a Butterfly é um disco incrivelmente denso, romanesco no sentido de que as músicas se conectam e se entrelaçam e passam pelos mesmos temas diversas vezes. E eu não uso o termo “romanesco” à toa – a forma como o disco imediatamente introduz seus temas principais antes de retomá-los e enriquecê-los com mais informação é igual a como grandes romances norte-americanos como Absalão, Absalão! e Amada são estruturados. Claro que há muito a ser explorado, e há muito que devemos absorver. Mas vamos falar do jazz! Do soul! Do funk! A porra do George Clinton e o Snoop Dogg tão no meio!

Mas tenho uma boa impressão sobre este novo disco do Kendrick porque também é um disco que não precisa de muito esforço para compreender. To Pimp a Butterfly é um álbum cheio de funk e soul com raízes na emoção, e como toda emoção, todo funk e todo soul, é melhor abordá-lo se entregando a ele. As inevitáveis diatribes no Genius e teorias conspiratórias do Reddit e resumos da Wikipedia, em grande parte, deixarão de lado o principal. A ideia não é entender o que Kendrick quer dizer com seu monólogo sobre gritar em um quarto de hotel que se desenrola aos poucos. O ponto é que ele está gritando em um quarto de hotel.

Relembrando: unindo o disco está um monólogo, citado acima por completo, que Kendrick repete ao final de muitas das faixas, adicionando frases à cada repetição. Contextualmente, ele está falando com Tupac. Para mim, a parte principal é a preocupação de Kendrick de estar utilizando sua influência do jeito errado. A óbvia pressão sobre Kendrick Lamar – toda a conversa sobre gkmc ser um clássico e seu verso em “Control” ser um divisor de águas no hip hop e a reação negativa da comunidade do hip hop contra rappers famosos enquanto figuras públicas após eventos como o de Ferguson – não foi para lançar outro “clássico”, mas para falar da condição mais ampla de ser negro nos EUA, e caso desse tempo, talvez salvar o hip hop de músicas só sobre despirocar enquanto isso. Qualquer um com estas expectativas pairando sobre sua cabeça provavelmente surtaria. Que Kendrick conseguiu fazer um disco que não só atende as expectativas, mas também discute a pressão de atendê-las – enquanto dá um jeito de não lidar com elas diretamente – é um milagre.

To Pimp a Butterfly, quer você ache prematuro ou não afirmar, faz o mesmo que What’s Going On ao sublimar seus temas complexos em apelo emocional direto. O disco convida você, antes de tudo, a se perder em sua sonoridade. Suas lições devem ser tão facilmente apreciadas com um baseado na mão na sala de casa como em uma sala de aula. Você tem que deixar a coisa crescer e passar a fazer parte da sua vida. Só repare agora o quanto fazem mais sentido as faixas que haviam surgido anteriormente dentro do contexto do álbum, e como parecem mais bacanas.

Kendrick Lamar está, infelizmente para aqueles de nós que gostaríamos de ouvir música em paz, no centro de um debate do que o hip hop e a música em geral deveriam representar. Para muitos fãs, Kendrick representa um retorno aos ideais sociais e líricos clássicos do hip hop. Por tabela, ele também oferece uma rejeição da fixação do hip hop (e música contemporânea em geral) por sucessos rápidos, vazios e possivelmente descartáveis. Ele é um lembrete de que a música é arte amplamente trabalhada e cheia de significado, que podem então ser explorados à exaustão. good kid m.A.A.d city não é só um reflexo da realidade emocional de crescer em Compton, é um texto a ser dissecado. Fico feliz que as pessoas consigam ver Kendrick dessa forma – mas por favor, aproveite a música do jeito que te deixe feliz! – mas fico igualmente satisfeito que To Pimp a Butterfly é um disco que evita este debate em favor de algo mais elementar, mesmo quando passar a ter um inevitável apelo para aqueles que preferem ver Kendrick como salvador do hip hop. Como o próprio disse ao New York Times recentemente, encarar este disco como apenas político “seria nivelá-lo por baixo”, já que “é um disco cheio de força, coragem e honestidade”, bem como “amadurecimento, reconhecimento e negação”.

Se gkmc tratava de Compton, To Pimp a Buttertfly trata da América do Norte. Isso fica claro quando Kendrick fala sobre como é ser negro em músicas como “The Blacker the Berry”, com trechos como “I know you hate me, don't you? / You hate my people, I can tell cause it's threats when I see you” [Eu sei que você me odeia, não odeia? / Você odeia meu povo, sei porque quando te vejo é só ameaça]. Fica claro ao ver a capa do disco com um monte de rostos negros diante da Casa Branca. Mas também está no DNA do disco, da mesma forma que Black Messiah de D’Angelo ou You’re Dead de Flying Lotus se apresentavam como políticos mesmo quando suas letras não eram: ele toma o funk, soul e jazz como padrão sônico, posicionando o hip hop explicitamente dentro desta linhagem de música canônica norte-americana, que também indissociavelmente música negra.

O disco é cheio de vibes. É funkeado. Ao contrário de gkmc não é um retrato de um lugar como ele é (Compton), mas uma visão de como poderia ser (América do Norte). O pau de Kendrick Lamar, certa vez tão grande quanto a Torre Eiffel, cheio de bravatas do hip hop, retorna em termos simples, humanos, básicos, sexuais, realistas, por volta dos 22 cm em “For Free? (Interlude)”. Este álbum é mais acessível, mesmo que no final das contas seja algo mais complicado de se entender. A chave para entender o disco é parar de tentar tanto entendê-lo. Pare de se preocupar de que há camadas demais ou muitas linhas a serem seguidas ou muito a ser decodificado. To Pimp a Butterfly é imediato. Sua sonoridade é instantaneamente atemporal. Tudo aqui é diretamente humano, claramente negro, implicitamente norte-americano, transparentemente relevante, inevitavelmente perfeito, e tranquilizadoramente, criticamente, feito para ser sentido.

Kyle Kramer não quer se autodestruir. Siga-o no Twitter.

Tradução: Thiago “Índio” Silva