Música, tretas e experimentação: Como a Audio Rebel se tornou a principal casa de música independente do Rio?

Hoje um dos mais importantes redutos da música experimental brasileira, a casa (que começou como estúdio de gravação) completa dez anos com muitos shows, produção artística de alto nível e denúncias de machismo.

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25 Maio 2016, 12:00pm


Estúdio e reduto do experimentalismo. Foto por Pedro Azevedo/Divulgação.

Free jazz, noise e improvisação se unem ao rockzinho indie e a algum som psicodélico, numa, como diria a minha avó, quizumba sonora que só. Originalmente criada em 2005 como um estúdio, a Audio Rebel, no Rio de Janeiro, abriga também uma loja de discos e desde 2010 se tornou um espaço famoso na cidade por ser um dos berços do que se convencionou chamar de “cena experimental carioca”. Nomes como Cadu Tenório, Negro Leo, Rabotnik, Chinese Cookie Poets, Bemônio e tantos outros projetos/artistas circularam por lá.

Num espaço que acabou se tornando um dos locais mais famosos de uma cena experimental até então nova para muitos no Rio, música e uma produção de alto nível acabaram se unindo a algumas tretas, mas esse é só um teco da história desse lugar. Só que como disse o menino Leandro, “é necessário voltar ao começo”. Então vamos lá.

O COMEÇO

Produzindo shows de punk e hardcore no Rio de Janeiro (com bandas tipo Dead Kennedys, Agnostic Front, Mukeka di Rato e Dead Fish), alugando equipamentos e estudando, Pedro Azevedo e seu sócio, Daniel Ribeiro, acabaram ficando cansados dos perrengues que passavam. Trabalhar de madrugada, submissão a regras de vários espaços, pagamento de aluguel e transportar um monte de equipamento, já tinha dado no saco e, em 2005, eles decidiram fundar a Rebel, que quando começou ainda não tinha no som experimental a sua marca. “Abrimos sem muita condição de investimento, eu tinha 23 anos na época, e a gente era muito mais relacionado a uma imagem de punk rock, de hardcore, do que com a cena experimental”, conta Pedro Azevedo. Com o passar do tempo, com mais equipamentos e condições técnicas, a parada acabou rolando e muita gente que torcia o nariz pra casa passou a frequentar o local, e é aí que o experimentalismo começa a ocupar a Rebel.

Apesar de muita gente achar que esse burburinho musical meio torto e experimental era uma novidade no Rio, a verdade é que a cena já acontecia. O Plano B, uma antiga loja de discos que fechou as portas em 2014, era o local de encontro de muitos desses músicos — um espaço que ficava embaixo de um prédio residencial, na Lapa, e abrigava uma cena experimental que já acontecia por ali antes de 2010. Pra se ter uma noção, teve selo que tinha site com um catálogo com mais de 50 discos e desencanou, a página simplesmente saiu do ar e lá se foram várias dezenas de lançamentos.


Mais do estúdio de gravação da Rebel. Foto por Pedro Azevedo/Divulgação.

A migração dessa turma para a Audio Rebel começou a acontecer justamente porque era complicado tocar alguns instrumentos no Plano B, um espaço residencial onde ficava difícil montar uma bateria, o que fez com que uma cena de free jazz não conseguisse aflorar, por exemplo. Em 2010 o produtor Filipe Giraknob (Supercordas) e o engenheiro de som e baterista Renato Godoy (Chinese Cookie Poets), acabaram chegando no Pedro, um dos donos da Rebel, com um projeto: levar um artista experimental uma quinta-feira por mês para se apresentar na Rebel. Pedro topou e assim nascia o Quintavant (QTV). “A gente começou a produzir e as coisas começaram a dar certo de uma maneira que não esperávamos, porque pela cena já existir em lugares onde não se cobrava entrada, tínhamos um certo problema pra fazer o pessoal pagar pra ir na Rebel. Tava todo mundo acostumado a ir, ver a galera fazendo um zumbido maldito numa garagem, numa loja de discos e não pagar nada”, recorda o guitarrista do Supercordas, que esteve à frente do projeto até 2011.

O Quintavant deu tão certo que deixou de ser apenas um evento mensal para ganhar corpo como produtora e um selo de bandas. A transformação aconteceu em maio de 2014, e hoje a QTV (que já tem 16 discos em seu catálogo) é responsável pela maioria dos lançamentos das pessoas que frequentam a Rebel. “Tínhamos uma certa urgência em criar essa plataforma que representasse nossos trabalhos, pois o material, as ideias, sonoridade já estavam todas ali com uma certa maturidade”, diz Renato Godoy. “Além disso, está sendo fundamental para estreitar as relações com os músicos locais, do Brasil e de fora do país em colaborações feitas em estúdio e nos shows”. É Renato também quem define a Rebel como “um ambiente de troca onde só se ganha, ali se formaram as bandas do Negro Leo, da Ava Rocha, as parcerias que vem acontecendo entre RJ-SP como Cadu Tenório e Juçara Marçal, a semana do Jards Macalé produzida pelo Thomas Harres, as parecerias entre Paal Nilssen-Love e os músicos locais como Paulinho Bicolor que saiu em turnê com o Large Unit na Europa”.

REDUTO

Para além da QTV como selo dessa geração de músicos, a Rebel também é um dos poucos (se não o único) espaço no Rio de Janeiro a abrigar shows para um público tão restrito. “Enquanto em São Paulo você tem o Fita Crepe, o Dissenso, o S.A., a Casa do Mancha, a Casa de Francisca, a Casa da Luz, as inúmeras unidades do SESC e etc, no Rio basicamente você só tem a Rebel. Então isso ajudou a tornar o espaço muito forte”, afirma o produtor e jornalista Chico Dub, que também acredita que o espaço favorece uma nova oferta de shows na cidade. “Mais do que ter cenas específicas, o Rio sempre foi uma cidade de muitos eventos e festivais. Ou seja, uma programação anual regular que acontece apenas por alguns dias. Estou generalizando um bocado, mas sempre foi muito difícil assistir a coisas incríveis na cidade diariamente ou semanalmente fora do guarda-chuva de um festival”, pondera Chico Dub.


Arto Lindsay em sessão na Rebel com o baterista norueguês Paal Nilssen Love. O resultado está no disco Scarcity. Foto por Victor Malheiros.

O papo do Chico nos leva a lógica Tostines: há poucos espaços para o som alternativo porque há poucos fãs; ou há poucos fãs porque há poucos espaços do gênero? Filipe Giraknob problematiza: "Talvez isso represente o número de pessoas com interesse nesse tipo de cultura. É uma coisa que sempre foi uma questão pra mim: existe mais gente afim de curtir isso e elas não curtem porque não conhecem [o gênero] ou porque a Rebel não cabe? E se for isso, pra mim não tem problema nenhum". Já o dono da Rebel, Pedro Azevedo pensa mais no quesito profissional da coisa. “É uma atividade de guerrilha mesmo, a gente organiza os shows, depende só de bilheteria então é um inferno a vida se você for levar só pelo lado financeiro, a gente faz sem a ideia de conseguir se sustentar só com isso, é um trabalho paralelo. É um trabalho sofrido, a gente vive numa cidade que é tudo muito caro, que as pessoas vão muito mais pra balada, que a música acaba virando uma coisa secundária na vida das pessoas, é muito mais a festa, o ambiente, o hype, e tu tem uma coisa focada em música, então você acaba restringindo muito o seu público, que já é restringido por ser uma música independente, nova, diferente, explorativa, então, é uma rotina de muito trabalho e pouca grana”.

MACHISMO

Trampo de guerrilha, um ambiente focado em música, muita gente circulando e trabalhando junto pra tentar fazer uma coisa acontecer. É esse o resumo usual da cena independente que, como sabemos, é feita na maioria das vezes por homens e para homens. No ano passado, inclusive, surgiram duas denúncias de machismo envolvendo o QTV e a Rebel, ambos reportados por produtoras, uma que não mantém mais qualquer tipo de relação com o local e outra que, apesar dos problemas, continua desenvolvendo um projeto com o pessoal da casa.

No final de 2015, a produtora Tay Nascimento alegou ter sido vítima de um tratamento diferenciado por ser mulher, além de ser assediada por uma pessoa do QTV que não está mais no projeto. “Toda vez que ia num show, quando íamos pra um bar ou mesmo no Facebook, esses caras ficavam me xavecando, me aloprando e eu comecei a expor esses abusos”. Tay conta que viu um comportamento machista durante os quatro anos em que esteve envolvida com o Quintavant. “Na curadoria, no tratamento, no respeito. Mas cara, quando você é mulher, câmera e vive num mundo machista, você tenta levar as coisas com humor e postura se você se importa com a coisa maior: o trampo”, diz ela. “A questão é que depois de um tempo eu cansei de sempre tentarem atrapalhar meu trabalho ou ter que lidar com piadinhas machistas, xavecos, fofocas por parte das pessoas que faziam o evento e que trabalhavam na Rebel”. Pedro Azevedo, responsável pelo espaço, se defende da acusação dizendo que o problema com Tay foi profissional. “Ela fez uma temporada que não foi na Rebel, foi na Comuna, em que os outros participantes do coletivo não gostaram, no sentido de curadoria, e houve um afastamento por outros motivos que nada tem a ver com a questão de gênero”.

Tay, por sua vez, diz que o estopim para o comportamento machista na Rebel aconteceu quando “um dos membros do Quintavant começou a dar indícios de que me tratava diferente por ter uma questão amorosa comigo mal resolvida. E teria me expulsado por isso, mas alegando questões de curadoria que não faziam sentido, já que decidíamos a curadoria juntos. Desde que eu assumi o Quintavant, ele nunca apareceu pra fazer o som e não ajudou em nada — e só voltou a trabalhar quando me tirou [do projeto] a primeira vez”, conta. A produtora e videomaker lembra também de um episódio em que, segundo ela, foi barrada na porta de um show por “questões pessoais e porque eu nunca me calei diante dos acontecimentos machistas que rolavam ali”. O dono do local, Pedro Azevedo, contesta a versão. “Ela não foi barrada, ela chegou num show esgotado e como qualquer outra pessoa que chegasse num show esgotado, não ia entrar. A Rebel são 80 lugares e essa situação de ter ingresso esgotado a gente leva a sério, não dá pra colocar 90 pessoas num lugar que cabem 80”.


Pollaroide da Rebel. Foto por Pedro Azevedo/Divulgação.

Uma outra denúncia de machismo foi feita por Dora Moreira. A produtora se manifestou publicamente no Facebook queixando-se de abuso, misoginia e assédio supostamente cometido por um homem que também não trabalha mais na Rebel. Dora deixa claro que “a minha experiência foi específica com o Quintavant, que acontece ligado à Rebel. Falar que um ambiente é machista pode parecer algo subjetivo, aberto e cair facilmente na máxima de que todos os ambientes são machistas”, afirma ela, que continua: “Eu vejo machismo na forma como algumas pessoas que trabalham lá olham desrespeitosamente para mulheres que chegam. Vejo machismo na inviabilização do trabalho de algumas mulheres (que dão o maior gás na produção do Quintavant, mas que raramente são citadas nos agradecimentos ao projeto). Vejo machismo no acordo tácito dos homens em 'secadas' compartilhadas”.

Pedro, novamente, não concorda com o relatado pela produtora, ainda que seja capaz de enxergar a presença do machismo em outros locais. “Vejo machismo sim em todos lugares que eu frequento, inclusive na Audio Rebel, mas de modo algum eu acho que aqui seja um lugar marcado por isso. Não vou dizer que eu nunca vi machismo aqui dentro, inclusive já vi machismo de várias mulheres sendo reproduzido aqui — diariamente a gente vê uma atitude machista em todos lugares que a gente frequenta. Mas dizer que a gente trata uma mulher diferente em questão de show, de trabalho, eu discordo plenamente”.

Dora também explica que o problema não é necessariamente o de um único local. “O ambiente da música é prioritariamente composto por homens. Sempre gosto de lembrar da ideia da musa inspiradora na canção brasileira, que a priori já coloca a mulher no lugar de objeto e não de sujeito. A grande maioria dos instrumentistas no Brasil são homens, além de boa parte de intérpretes e produtores. As mulheres só são um número relevante enquanto produtoras ou intérpretes”, relativiza. “Na música independente, eles [homens] já são de “esquerda”, já se posicionam à margem do mercado, já sofrem para fazer na vida o que acreditam. Parece que se reconhecer enquanto opressor, enquanto privilegiado em alguma instância iria feri-los imensamente”, reflete.


Público na Rebel. Foto por pedro Azevedo/Divulgação.

Apesar das tretas, Dora confiou que as coisas podiam mudar e dá a dica. “Eu tendo a acreditar na transformação das coisas, e acreditei que tanto a Audio Rebel quanto o Quintavant poderiam se transformar com isso, porque são projetos que têm um grande valor para a cena independente do país. Mas se esse valor for construído às custas da vida das mulheres, como tem sido, aí ele não existe. É isso que falta a quem ainda está lá entender: os homens estão falando de piadas, de reputação, de ‘roubar um beijo’ de uma moça atraente. A gente está falando da nossa vida, da (im)possibilidade de trabalhar e viver como se quer em um espaço que se diz alternativo”.

Se a casa recebeu muitas reclamações sobre a forma como as mulheres são tratadas? Pedro responde: "Tirando essas duas questões, nunca tinha surgido esse assunto aqui dentro, isso que me chateia, porque a gente tem dez anos de serviço prestado e estamos com uma imagem ainda do que passou ano passado e que representa um pouco do que eu acho mais errado e que vem ocorrendo, de tirar uma polêmica virtual e criar toda essa generalização".

NOVO PROJETO

No começo de março deste ano, a casa deu início a um novo projeto, a Audio Rebel Convida, que acontecerá por volta de duas vezes por ano, sempre chamando algum produtor/agitador cultural pra montar uma semana de programação por lá. A primeira edição aconteceu sob a batuta de Chico Dub, que foi inclusive o responsável pela ideia. “Eu me convidei”, brinca ele. Baseado no formato do ATP e do Meltdown, o evento surgiu em um show do Trevor Watts e do Veryan Weston que rolou no ano passado. “Caramba, e se eu fizesse um tipo de ocupação aqui, uma espécie de mini festival, durante sete dias consecutivos? E se de alguma forma eu tentasse buscar coisas tão ou mais diferentes e ousadas do que eles já estão fazendo?”, lembra Chico Dub.

Contando com apresentações de nomes como Abstrai Ensemble, Numduo, Somnomono, Beam Splitter, Thomas Rohrer e Estudo de Paisagem na primeira edição, o evento ainda teve exibições do Hanz Memorial Peformance e do AA.LL, um bate papo com o artista Raul Mourão e Mauricio Chris Calvet, a prévia do livro de fotografias do Mauricio Valladares, e um final mais do que justo para a mostra: uma versão de Musicircus, do John Cage, em que qualquer um, sendo músico ou não, poderia tocar.

Depois do primeiro evento, que foi um pouco prejudicado pelas chuvas que aconteceram no Rio, o Pedro já deu a letra que novas edições estão por vir. “Outras pessoas já vieram falar que queriam fazer uma semana aqui. Um pessoal próximo, como o DEDO, que é uma banda com três pessoas muito criativas, designers, que estão sempre aqui, nós pensamos em convidar a Jô Hallack, que é uma agitadora que também aparece sempre, a Letícia Brito, que participa do Quintavant também já se propôs”.

HOJE

Atualmente a Rebel segue com a casa cheia. Abre todo dia como estúdio/loja e o palco para shows é ocupado no mínimo cinco vezes por semana. Tem também alguns funcionários fixos. "Uma pessoa da limpeza, um cara na loja, um no bar, eu e mais dois nos ensaios e shows e, às vezes quando tem gravação, a gente contrata alguém de fora", explica Pedro, que diz que já tem uns dois meses que todo santo dia tem banda tocando por lá.

De 2005 pra cá muita coisa mudou, lembra Pedro. "Foram muitas e muitas mudanças, quando eu abri a casa tinha 23 anos e abrimos com um investimento baixo, mas acho que uma das mudanças foi quando o estúdio de gravação ficou pronto, em 2007, por aí. Acho que outra coisa que mudou a casa foi a sequência de shows do Arrigo Barnabé, em 2014. Depois das apresentações dele, uma galera meio da MPB, de outros gêneros musicais que eu acho que torciam um pouco a cara pra Rebel passaram a admirar a querer fazer parte. Outra coisa importante foi quando o Kassin chegou, ele trouxe mais uma gama de músicos super alto nível, uma galera legal que fez com que a casa crescesse também".

Pra 2016 e o futuro que se anuncia, o dono da Rebel quer o simples: consolidar ainda mais o local e continuar trampando. "A gente começou a trabalhar no final do ano passado com uma técnica nova, uma sala que nos coloca em uma posição de destaque entre os estúdios do Rio. Profissionalizar e melhorar ainda mais tudo, em todos os aspectos".

Entre denúncias, produção musical de alto nível e o fortalecimento de uma cena independente que circula muito bem dentro do país, a Rebel acabou se estabelecendo como a principal casa de música experimental do Rio. Para o futuro, devemos ter esperanças. E isso num sentido amplo. Que as tretas tenham levado um bom aprendizado para o QTV e a Rebel, que os artistas que circulam por lá, sobretudo os experimentais, não parem de produzir e que novas iniciativas surjam na cidade, descentralizando um pouco as coisas. Se isso vai acontecer? Nem Deus sabe, afinal de contas, o futuro a ninguém pertence.

*UPDATE: A pedido da personagem Tay Nascimento, ouvida sobre as denuncias de machismo contra a Audio Rebel, informamos que a mesma trabalhou sem remuneração na casa, dentro do projeto Quintavant, durante quatro anos.

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