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Krisiun, 25 anos depois: “Nossa ideologia é a mesma, subir no palco e destruir”

No Brasil, é difícil ficar duas décadas fazendo qualquer coisa na música. Mas o trio gaúcho construiu uma carreira firme e forte com seu death metal brutal (hoje em dia menos blast beat e mais groove).

por Marcelo Daniel
08 Julho 2016, 12:00pm


Making off da foto que ilustrou a matéria sobre a banda na Veja São Paulo. Cóstabile Salzano Jr./Divulgação.

Era dia 16 de maio de 2010 e já passava das 5h30 da manhã em uma atípica cena em um dos cartões postais da região central de São Paulo. A Virada Cultural (evento cultural que mobiliza a cidade com 24 horas de atividades) acontecia a todo vapor e o corredor de prédios antigos, iluminados pelo tom amarelado das luminárias redondas dos postes, desembocava em um grande palco negro. No meio dessa estrutura, três homens, cabelos longos, roupas pretas, cintos com réplicas de bala de fuzil. A Capital sequer havia acordado quando os primeiros e ferozes acordes do trio brasileiro de death metal Krisiun rasgaram a madrugada.

A famosa esquina estava logo ali, mas não acontecia porra nenhuma no coração de ninguém — aliás, Caetano Veloso era a última referência possível naqueles quarteirões, tomados por milhares de metaleiros, curiosos, ambulantes com isopores nas costas e todo tipo de maluco que esses eventos de rua proporcionam. Muitos já conheciam o peso do som da banda, mas a maioria estava sendo apresentada a eles naquele exato momento.

Algumas músicas depois, uma interrupção. O vocalista Alex Camargo vai ao microfone para avisar a multidão que uma triste notícia veio da Califórnia (um integrante do LA Guns, que estava na Virada, recebera um telefonema): acabava de falecer Ronnie James Dio, lendário integrante do Rainbow e Black Sabbath.

Além da homenagem a Dio, os músicos improvisaram o refrão de Heaven and Hell, para um público extasiado, tanto pela perda do ícone quanto pela energia daquele momento sob a ameaça dos primeiros raios de sol do domingo.

Essa mudança no ritmo, com a quebra da sequência das músicas para esse tipo de interação com o público, quando se fala do Krisiun, é algo muito raro.

Os shows da banda se configuram como blocos sólidos, que se repetem de forma muito parecida, independentemente do tamanho de palco e público, em que velocidade e peso se mesclam em performances brutais, onde se tem a impressão que os músicos estão a todo momento atingindo seus limites. “É um desafio, pois esse estilo de música exige muito e há uma demanda física grande”, afirmou o guitarrista Moyses Kolesne em conversa com o Noisey, dias antes de dois shows no Sesc Pompeia, em São Paulo, pela turnê do elogiado novo álbum Forged in Fury (2015).

Moyses, ao lado dos irmãos Max Kolesne e Alex Camargo, que usa o sobrenome da mãe, formaram o Krisiun no início dos anos 1990. Apesar de nascidos na cidade de Ijuí, no interior do Rio Grande do Sul, consolidaram a formação inicial — e até agora única — em Porto Alegre.

Nessa conversa com o guitarrista rolaram assuntos como som conservador, mercado, a famosa bateria de metranca e a situação política brasileira.

Noisey: Desde o primeiro álbum (ao todo são dez), o Krisiun passou por variações no seu som, mas, de maneira geral a banda ainda se mantém no estilo original. Era essa a ideia já no início?
Moyses:
Desde que a gente começou, a banda sempre primou que o som tivesse uma característica própria, um death metal brutal, meio cru. Apesar de termos adquirido mais maturidade, mantivemos o som que o cara escuta na hora e já diz: ‘é o Krisiun’. Tem uma ideologia por trás disso tudo, não é algo que é uma tendência.

Isso é um desafio?
É sim, pois é uma música que exige muito, há uma demanda física grande. Quando começamos nós tínhamos 18, 19 anos. Agora estamos todos com 40 anos e o corpo já não é mais o mesmo. Mas a experiência ajuda muito, também. Hoje em dia não precisa fazer mais muita força para tocar, o negócio fica mais no groove, mais curtindo o som. Talvez para quem vê de fora parece que é complicado e pá, mas para gente é um momento mais divertido, a não ser dependendo do número de shows da tour que talvez seu corpo se desgasta um pouco. Hoje em dia a gente toca death metal de uma maneira bem natural.

As apresentações são sempre muito intensas, old school e geram impacto no público. Como é manter esse ritmo por praticamente 25 anos?
Quando fizemos a banda, a gente quis subir no palco e detonar. Tentar dar para o público um show verdadeiro de metal, sem samplers. São três caras que sobem no palco e tocam um som. Sempre sonhamos em ser uma banda grande e, para isso, tinha que ter um show à altura. Cada apresentação é muito importante, seja num megafestival europeu, americano ou no interior do Brasil, nuns barezinhos. A ideologia é a mesma: subir no palco e destruir.

O Krisiun é um nome muito forte na gringa. No Brasil, vocês possuem um público muito específico e fiel. A banda está satisfeita com essa fatia de seguidores que reuniram nesses anos por aqui?
Acredito que até alcançamos bastante coisa pelo estilo de música que fazemos, que é mais underground. O brasileiro não tem muito essa tradição. Até tivemos alguns grupos de thrash metal e black metal do passado mas que tiveram que deixar a cena e fazer algo comercial, mais accessível. O Krisiun fez isso sem mudar o estilo, sem nunca se vender para tocar com banda pop. Já recebemos convites para shows onde a característica era muito diferente da nossa e negamos. Tem produtores que ouvem falar só o nome da banda e não conhecem o som e tentam misturar com outros estilos. Não que a gente seja cabeça fechada, não por isso, mas é que pode gerar um certo atrito, por serem públicos diferentes.

Rolaram umas barreiras...
Sim. Tocando o estilo que a gente toca, pelo fato de sermos brasileiros, de não ser de São Paulo, ter vindo do Sul, sempre com um som que muitos ouviam e diziam: ‘nossa, isso aí é só barulho’. Mas há pessoas que entendem e se identificam com a música.

O seu irmão Max é um expoente na bateria e, principalmente, deixou sua assinatura no death metal mundial com os seus blast beats ou metranca (uma batida muito rápida e seguida). No início da banda essa técnica atravessava músicas inteiras. Em trabalhos mais recentes, como o novo álbum, é correto dizer que esse som aparece em lugares mais estratégicos?
No começo era uma loucura só (risos). A gente falou ‘vamos fazer uma coisa muito extrema’ e daí eram músicas de sete minutos, todos na britadeira, sem intervalos. Com o tempo a gente foi adquirindo mais dinâmica e discutiu, ‘vamos fazer uma música um pouco diferenciada, mais lenta’. Mas foi um estilo que o Max imprimiu e ajudou a desenvolver no mundo todo. Bons baterias sempre mencionaram ele, como o Gene Hoglan (Testament, Dark Angel) e até o Bill Ward (Black Sabbath)! Ele sempre teve um jeito próprio, nunca procurou imitar ninguém. E esse som virou uma característica do Krisiun também.

O disco novo foi produzido pelo Erik Rutan, como foi trabalhar com ele novamente?
A gente gravou com ele o Conquerors of Armageddon (2000) e o cara continua o mesmo, mas agora tem uma carga de experiência na carreira — e nós também. Ele se transformou em um produtor renomado nos EUA, gravou muita gente, tem o estúdio dele, na Flórida, que é grande e tem um puta equipamento. Foi um clima bem amigável para fazer um bom disco, a gente gravou se divertiu, fez piada pra caramba, churrasco, bebendo cerveja. É um excelente produtor e um dos meus melhores amigos nos EUA. Finalmente a gente voltou a trabalhar e, talvez, o próximo álbum seja com ele de novo.

Vocês estiveram há pouco na Europa toda com o Cannibal Corpse...
Foi muito bom, cara. Uma turnê em que fomos co-headliners e o Cannibal é uma banda muito grande — fora do Brasil ela é até bem maior. Na Europa e nos EUA os caras tocam em ginásios grandes. Os públicos eram gigantes. Foi uma turnê muito boa, com muitos shows sold out. A gente retornou agora para fazer algumas apresentações aqui e em seguida vamos para o exterior novamente.

A banda está sempre na gringa, mas mora em São Paulo. Como vocês encaram todo esse cenário político e econômico que se desenrola no País. O Krisiun expressa isso na música, ou nas suas redes sociais, por exemplo?
Ultimamente ninguém passa ileso pelo que está acontecendo no Brasil. No momento, acho que está todo mundo com as calças na mão, não dá para saber direito o futuro. Nós temos nossas ideias, viemos de uma família humilde, sabemos das dificuldades que todo mundo tem passado. Mas não somos muito de ficar no Facebook falando de política, pois acho que isso não resolve muita coisa, hoje em dia cada um tem uma ideia e é difícil ter controle. Apesar de a gente ter nossa ideologia normal, de civil, de cidadão brasileiro, na música a gente não envolve muito o que está acontecendo.

Não levam para o palco...
Às vezes as pessoas só esperam a coisa acontecer, pensando que os políticos vão mudar. O Brasil é assim desde o ano 1500, há uma política extrativista, uma divisão social muito errada, muita gente sofrendo, muita favela. Algumas letras do Krisiun falam sobre essa violência, às vezes de uma forma mais figurada.

No show não vamos ficar falando mal de um político ou de outro. Só falamos que somos todos Brasil, a gente tem que lutar pelo que acredita, em nós mesmos e lutar pelo bem do País, com uma atitude humilde, verdadeira. Ser forte.

Krisiun

Endereço: SESC Pompeia – Rua Clélia, 93

Dia 8 de julho, sexta-feira – 21h30

Dia 9 de julho, sábado – 19h

(Colaborou Mauricio Daniel)

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