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Noisey

Um papo nerdão com o cara que fez o remix anos 80 do som do Justin Bieber

Troquei uma ideia com o canadense Jerry Shen, responsável pelo rearranjo mais Alpha FM de “What Do You Mean?” que se você não ouviu na semana passada, por favor, ouça agora porque ficou maravilhoso demais.

por Phil Witmer
23 Junho 2016, 10:00am

Imagem via Soundcloud

Tem vezes que a gente topa com uma música que é tão reveladora, tão incrível, que ao ouvi-la ficamos pensando se todo o resto do cânone da música pop não passa de lixo. Foi isso o que aconteceu comigo na semana passada, quando uma versão estilo Alpha FM anos 80 de “What Do You Mean?”, do Justin Bieber, apareceu no Soundcloud de alguém chamado TRONICBOX. “What Do You Mean It's 1985?” é tão bem-acabada e confiante em seu seu mergulho na cafonice que passa por cima da ironia e acerta a gente direto nas tripas e no coração. A quantidade de plays da música disparou depois que ela semi-viralizou no fim de semana, e agora já passa de um milhão no Soundcloud. Então: quem é o gênio maluco por trás dessa linda obra?

O TRONICBOX é, na verdade, Jerry Shen, um compositor, gamer e desenvolvedor de softwares de Regina, cidade da província canadense de Saskatchewan. Shen tocou praticamente todos os instrumentos possíveis em sua banda de jazz do ensino médio, antes de passar para o saxofone na banda da universidade. “Fiz gravações principalmente para artistas novatos”, diz Shen. “A maioria delas não deu em nada”. Suas páginas no Soundcloud e no YouTube estão cheias de novos arranjos para sucessos da música pop, incluindo uma versão de “One Last Time”, da Ariana Grande, que entraria sem problemas no filme Flashdance e uma excêntrica versão polca de “Cheerleader”, do OMI escorada por bumbos de pedal duplo de death metal. Colamos no Shen para descobrir o que exatamente entrou em sua miraculosa reimaginação do clássico moderno de Bieber.

Noisey: O que inspirou você a mirar no ano de 1985 no arranjo que fez para a música do Justin Bieber?
Jerry Shen:
Em praticamente todos os clipes dos anos 80 que eu já vi, tem sempre alguma coisa que me faz pensar: “Tá de sacanagem….”. Com certeza naquela época dava para fazer muita coisa que era bizarra. Além disso, a música dos anos 80 sempre tem um lance muito específico. Quando você ouve, reconhece na hora.

É você quem toca o sax nessa gravação?
Sim.

Em qual filme específico dos anos 80 você imagina a sua versão de “What Do You Mean” se encaixando?
O som que eu tinha na minha cabeça era tipo “O Michael Bolton ligou e está pedindo a banda dele de volta”. Na verdade eu não tinha nenhum filme em mente.

O que te atrai na produção R&B da década de 80?
Muitos grandes músicos que costumo ouvir trabalharam em discos que foram lançados nos anos 80. Jeff Lorber, Chuck Loeb, Dave Grusin, Vinnie Colaiuta, pra mencionar só alguns. Esses caras sabem tocar DE VERDADE.

Por que você acha que tanta gente considera esse estilo brega?
Foi uma época em que os avanços tecnológicos influenciaram muito a maneira de fazer música. Tinha os instrumentos musicais eletrônicos tipo sintetizadores analógicos, sintetizadores FM e as drum machines. Todo mundo queria usar uns Minimoogs, uns Oberheims e uns DX7s nos discos, até que chegou a um ponto em que as pessoas ficaram cansadas daquele tipo de som. Além disso, os instrumentos eletrônicos evoluíram muito desde aquele tempo, então qualquer música daquela época acaba parecendo, em comparação, uma coisa muito datada.

Certo, agora vamos para a parte mais nerd. A passagem do Dó menor com sétima para o Fá dominante com sétima no refrão ficou incrível. Meus parabéns pela firmeza naquela rearmonização.
Eu tenho formação jazzística, então para mim esse tipo de passagem é muito natural. Obrigado por reparar nisso!

O que você pode me dizer sobre o Yamaha DX7?
Foi a melhor coisa que já aconteceu na história da música!

Você tem a impressão de que uma geração que cresceu ouvindo trilha sonora de vídeo-game e R&B tem uma abertura maior para experimentar com harmonias e progressões de acordes mais jazzísticas, mais sofisticadas?
Na verdade, depende da sua exposição à música. Mesmo eu não tendo nascido nos anos 80, na época em que eu estava crescendo o som de um acorde jazzístico em conjunto com o DX7 ainda era visto como “cool”. Hoje em dia, especialmente na América do Norte, qualquer coisa que tenha um patch do Massive é “cool”.

Qual sua opinião sobre o vaporwave, e o que acha dos músicos mais jovens que experimentam com a smooth music como um todo?
A maioria do vaporware que ouvi parece smooth jazz com uma boa dose de compressão paralela e um saxofonista de férias metendo uns licks, em sua maioria. Se estou atrás desse tipo de vibe nas músicas que ouço, vou catar na minha coleção de saxofonistas “contemporâneos” tipo Eric Marienthal, Greg Vail ou até mesmo… Kenny G. Dou todo o meu apoio a jovens experimentando com a smooth music. A harmonia tende a ser um pouco mais complexa, o que é uma coisa que eu sinto que meio que não aparece nos grandes sucessos de hoje. Na verdade, eu adoraria ver gente mais nova voltando às raízes e curtindo jazz DE VERDADE, tipo Michael Brecker, Pat Metheney ou Chris Potter, isso para falar só de uns poucos. Depois que você refina os ouvidos para a coisa, vai realmente reconhecer o tanto que é possível fazer na música.

E a pergunta mais importante: podemos esperar outros desses seus arranjos?
Com certeza!

Phil Witmer é um tirano do smooth jazz. Siga-o no Twitter.

Tradução: Marcio Stockler

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