O Que as Entrevistas do Zine ‘Search & Destroy’ me Ensinaram Sobre Contracultura

'Alguém Come Centopeias Gigantes?', livro organizado por Fabio Massari, traz 15 entrevistas com figuras relevantes da contracultura como Devo, Clash e Cramps, conduzidas pelo brilhante V. Vale.

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08 Setembro 2015, 4:00pm

Alguém Come Centopeias Gigantes?, novo título da Coleção Mondo Massari pela Edições Ideal, é uma compilação com 15 entrevistas, até então inéditas em português, com nomes fundamentais do punk e da contracultura. As conversas foram conduzidas originalmente pelo norte-americano V. Vale para as páginas de seu referencial fanzine Search & Destroy, publicado entre 1977-79, e para títulos da editora RE/Search, fundada em 1980. O conteúdo apurado por Vale nesses anos todos é vasto e relevante, o que torna delicada a missão de peneirar os artigos que acabaram compondo a obra.

E, avaliando pela seleção geral, parece evidente que o crivo do Fabio Massari para definir o sumo deste volume foi puxado pelos ícones da contracultura na música, no cinema e na literatura. Nomes facilmente reconhecíveis por quem possui alguma base a respeito do assunto, e ponto de partida essencial, caso você esteja começando a singrar esses mares agora: Jello Biafra, Devo, The Clash, Patti Smith, J.G. Ballard, The Cramps, Timothy Leary, Paul Krassner, John Waters, Henry Rollins, Lydia Lunch, Lawrence Ferlinghetti, Throbbing Gristle, Diane di Prima e William S. Burroughs.

Sempre à caça das minúcias, cada bate-papo oferece uma perspectiva abrangente do microcosmo que V. Vale se propõe a revelar. Se para o autor “ler não é um processo passivo”, desenrolar entrevistas realmente instigantes, do tipo que capturam seu interesse do começo ao fim, tampouco. Vale faz isso com maestria. Logo, não espere por diálogos lineares ou casuais. Os personagens aqui, ferozes em suas ideias e percepções, têm seu pensamento amplificado pela sensibilidade dialógica do interlocutor, que de antemão realizou cada entrevista motivado pela consciência de seu valor histórico.


"Se tem algo que odeio são as centopeias". William Burroughs. Foto: Charles Gatewood

Devo, The Clash e Patti Smith estavam em plena ascensão quando foram entrevistados para o Search & Destroy. Aí tem o Jello Biafra (Dead Kennedys/Alternative Tentacles), sempre pertinente, falando sobre a história do punk rock; Lux Interior e Poison Ivy (Cramps), contando detalhes a respeito de sua coleção de discos; Throbbing Gristle, acerca de música industrial; o cinema exótico de John Waters (Pink Flamingos), a expansão lisérgica de Timothy Leary, e William S. Burroughs, figura-chave do movimento beat, num encontro que rolou quatro meses antes de sua morte, em abril de 97. Uma ironia: “William, sou tão feliz por poder lhe ver”, diz Vale ao término da conversa. Ao que Burroughs replica: “Nos veremos de novo”. É de um trecho dessa gravação que saiu o espirituoso título do livro.

No fim, o legal é que mesmo dos artistas mais disseminados, como o Clash e o Devo, descobre-se coisas inusitadas. Cheia de meandros e aventuras, a história da contracultura e seus protagonistas ainda carece de conteúdos mais abrangentes em português. A saga de outras publicações importantes como International Times, OZ e San Francisco Oracle, por exemplo, assim como as ideias de John Sinclair, demandam registros particulares. Para se ter ideia de tudo o que ainda está para ser desbravado pela nossa geração, aqui vão alguns lances que descobri lendo Alguém Come Centopeias Gigantes?:


Dead Kennedys no Mabuhay Gardens. Foto: Bruce Conner (Search & Destroy #9, 1978)

1) Segundo Jello Biafra, o metal tornou-se mais pesado nas grandes gravadoras depois que o punk aconteceu, para que a molecada pudesse extravasar sua energia de forma inofensiva. A reação ao hardcore thrash na forma de bandas punk pop veio no começo dos anos 1990, com os shows que rolavam na Gilman Street, em Berkeley. O ponto de partida teria sido a coletânea Turn it Around, com uns sons punks mais lentos e melódicos, lançada na Maximum Rock’n’Roll.

2) A primeira prensagem do álbum de estreia do The Clash pela CBS só saiu nos Estados Unidos dois anos depois, porque, de acordo com o baixista, Paul Simonon, a gravadora pensava que não era bom o suficiente. Eles inclusive chegaram a cogitar a insana possibilidade de chamar alguém para escrever as músicas para o Clash.


Entrevista da Patti Smith na edição #4 do zine Search & Destroy, de 1977

3) Transformer, clássico álbum do Lou Reed, foi lançado em 1972. Cinco anos depois, quando a Patti Smith deu entrevista para o Search & Destroy, ela ainda não tinha escutado o disco. A razão é muito simples: ela odiou a capa. “Eu realmente não consigo ouvir discos quando não gosto da capa, é algo que acontece comigo”, esclareceu. “Talvez se eu tivesse pego a cópia de teste (ri) com a capa branca...”. Quem sabia criar capas daora mesmo nessa época, para ela, eram os punks. “Esses moleques sabem o que estão fazendo”, disse.


Lux Interior e Poison Ivy, do Cramps, mostrando os ouros de sua coleção de discos, em 1993

4) Bop Crazy Babies. Esse quase foi o nome do The Cramps. Trata-se de um som do Vern Pullens, vinil que foi prensado em apenas 200 cópias e encontrado pelo casal Lux Interior e Poison Ivy numa loja de móveis em Cleveland. Foi um dos primeiros achados da maluca coleção de discos deles, composta por muita coisa de easy listening, fissura dos dois. A dica de Lux é: nem sempre os melhores álbuns ficam na seção específica de “easy listening”, procure na parte de “jazz”. Um fato engraçado sobre isso: em 1970, Lux conheceu Alice Cooper e perguntou: “Você já ouviu Ozzy? Ah, cara, espere até você ouvir Black Sabbath!”. Cooper respondeu: “Não quero saber disso, eu só gosto de easy listening”.


A entrevista com o papa do ácido saiu no livro Pranks, da RE/Search, em 1988

5) Timothy Leary, grande entusiasta do LSD e da expansão da consciência nos anos 1960, promoveu vários testes para conhecer a habilidade das drogas psicodélicas em mudar o comportamento das pessoas. Ele fez isso em Harvard, onde dava aula, e em Millbrook, seu forte lisérgico de 3.200 acres. Uma fase desses testes, no início de sua pesquisa com LSD, foi aplicada em presidiários. Um dos experimentos, curiosamente, cortou a taxa de reincidência de presos em 75%, em Salem, Massachussetts.


V. Vale. Tenho uma assim no primário (sem ninguém embaixo da mesa). Foto: Marian Wallace

6) V. Vale sugere, num texto datado de 1977, que o melhor jeito de protestar contra o sistema é a diversão. Os situacionistas também diziam isso. O lance é que Vale e alguns de seus entrevistados pranksters (zombadores) acreditam numa forma de manifestação nada a ver com o que tem rolado nas ruas ultimamente: os “trotes”. “Trotes forçam o músculo mais preguiçoso do corpo – a imaginação – a ser exercitada e alongada de forma que transcenda a si mesma. (...) Imagine se todo mundo se tornasse artista e trollador e poeta e livremente mudasse quaisquer noções e mensagens corporativas à vista?”, escreveu.

Continua...

7) Quem baseou seus filmes em trotes, usando humor negro para iluminar tabus sociais absurdos e fazer seus próprios prazeres subversivos palatáveis a uma audiência pop, foi o John Waters. Se você já assistiu a Pink Flamingos (1972), sabe do que estou falando. Isto porque, segundo ele, “no mundo da arte você tem que ter um apelo diferente – se todo mundo gosta, é terrível. E no mundo do cinema ninguém gosta dos meus filmes, mas eles sempre terão que fingir que gostaram”.


Lydia Lunch, em entrevista que saiu num pocket book da RE/Search, em 2013

8) De acordo com a Lydia Lunch, o termo “No Wave” teria surgido por causa do nome de um de seus álbuns, No New York. Lydia sempre foi uma outsider por excelência, rebelando-se contra as próprias influências e contra si mesma. Ela conta que a no wave veio antes da new wave, considerando que esta era nada senão a versão mercantilizada do punk: “E isso significava mais bandas como o Blondie, mesmo que o Blondie já existisse antes, mas eles foram mercantilizados como new wave, quando eles puderam tocar seus instrumentos com habilidade o suficiente para gravar suas musiquinhas pop horríveis”.


Capa do livro Modern Pagans, onde saiu a entrevista da Diane di Prima, em 2001

9) Diane di Prima é comumente apresentada como escritora beat, no entanto ela revela que isso representa só uma pequena porcentagem de sua obra. “É como estar congelada em um momento – alguém tira uma foto sua em 1958 e é assim que você deve viver pelo resto de sua vida”, diz. Os beats não se categorizavam assim. Na verdade foi a revista Life que emplacou esse rótulo. A maioria dos beats, porém, experimentou vários estilos de escrita, inclusive Allen Ginsberg, que tem até versos sáficos (na métrica da poetisa grega da Antiguidade, Safo).

10) Os caras do Devo, a primeira banda americana mais original depois do Ramones, revela a V. Vale numa entrevista de 1977 que, segundo o antropólogo tcheco que virou budista Oscar Kissmaerth III no livro No Começo Era O Fim, toda a humanidade é explicada a partir de uma linhagem de macacos canibais que desenvolvem gosto por cérebros. Daí esse costume passa a aumentar o instinto sexual e o tamanho de seus cérebros com mais rapidez, o que os leva à insanidade. A conclusão desse papo doido é que, nas palavras do Devo, “essencialmente, somos descendentes daqueles macacos e toda sociedade é baseada em nosso instinto sexual desequilibrado”.


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