Entrevistas

O Joe Goddard, do Hot Chip, Teme que os Computadores Deixem as Músicas Todas Iguais

Em sua quarta passagem pelo Brasil, o quinteto britânico promete show divertido na 3ª edição do Sónar São Paulo, que começa nessa terça (24).

por Beatriz Moura
24 Novembro 2015, 5:45pm


Foto: Steve Gullick

O Hot Chip é uma daquelas bandas boas pra caralho, mas todo mundo sempre se esquece do quanto eles são bons. Sério mesmo, ouve o Why Make Sense? mais uma vez. O sexto álbum dos britânicos é show demais. Tem umas batidinhas dance-pop/indie super gostosinhas, o contraste do vocal triste do tecladista Alexis Taylor com o resmungão do percussionista Joe Goddard, e um trabalho bem nerdão de sintetizadores nas faixas. Os caras são fodas. Que bom que o Sónar São Paulo se lembrou disso e os convidou a 3ª edição do festival, que rola no Espaço das Américas a partir dessa terça-feira (24).

É a quarta vez que o grupo vem para o Brasil. "Mais uma vez, só queremos fazer um show divertido para o público brasileiro, misturando faixas do último álbum com alguns hits antigos e alguns covers", me disse Goddard. Ou seja, se prepara, porque com certeza vai rolar a versão maravilhosa deles de "Dancing in the Dark", do Bruce Springsteen. Junto com Taylor, Owen Clarke, Felix Martin e Al Doyle, o DJ já tocou aqui no Tim Festival (2007), no Planeta Terra (2010) e no Lollapalooza (2013). "Das outras vezes que fizemos shows aí, foi tudo muito fluido. Todo mundo cantava tudo sincronizado. Foi bem bonito."

O Hot Chip está na ativa há 15 anos e, para o Goddard, o segredo de eles sempre conseguirem fazer músicas tão boas é a capacidade que o grupo tem de continuar se reinventando. "Sempre trazemos elementos nostálgicos nos nossos sons, mas sem deixar de inovar". E esse é um dos motivos por que ele e o Felix Martin concordam que o Why Make Sense é, de fato, o melhor álbum deles. "São as melhores canções e a melhor produção que já tivemos", disse. (Lembre-se de que o Goddard é exigente pra caralho e acha que o Made In The Dark, álbum de maior sucesso deles na Inglaterra, deveria ter menos músicas. Se ele tá falando que o WMS é o melhor trabalho deles, então o WMS é o melhor álbum deles.)

Os avanços tecnológicos que os sintetizadores e computadores sofreram de 2000 até 2015 foi um fator essencial para a evolução do som do banda. "Poder usar computadores para fazer música é algo muito revolucionário, não é mesmo?", falou Joe. "Mas me dá um pouco de medo." Medo de quê? "Quer dizer, usamos (e muito) computadores para fazer o nosso som. Pra mim, a indústria musical tá usando em excesso. E o problema disso é que, além de estar tirando o lado humano da obra, tá deixando as músicas muito iguais", explicou. "É foda e frustrante ouvir muito mais o trabalho de uma máquina do que o do artista no som".

O que eles tão ouvindo ultimamente, então? "Kendrick Lamar, Demis Roussos, Beach Boys, Awesome Tapes From Africa, Tirzah, Micachu, Planningtorock." E, claro, Stevie Wonder e Prince, mestres que o Hot Chip sempre cita como referência do grupo.

Uma coisa que sempre me intrigou muito no som do Hot Chip é: por que o Alexis Taylor sempre parece que tão triste enquanto canta? Claro que eu curto o vocal dele, mas por quê? Joe riu muito quando perguntei isso pra ele. "Sempre nos dizem isso", comentou. "Ele é meio atraído por uma espécie de melancolia, eu acho. Acaba casando muito bem com o ar vintage que tentamos colocar nas músicas. E não é como se Hot Chip fosse para soar super feliz".

Além de trazer a voz tristonha do Taylor para um show divertido no Sónar SP, Goddard me garantiu que eles próprios também querem dar aquela passeada em São Paulo. "Toda vez que viemos pra cá, gostamos muito de curtir a vida noturna local e beber umas caipirinhas", disse. "Também adoramos explorar várias lojas de discos no Brasil. Com certeza, vamos sair para comprar uns vinis do Caetano Veloso."

Quanto aos planos da banda para 2016, Joe disse eles estão indo com calma e não tão pensando concretamente ainda no próximo álbum. "Vamos continuar nos dedicando ao Why Make Sense? ainda e também eu, particularmente, aos meus projetos de DJ além do grupo. Sem pressa".

Com um formato menor e menos pretensioso do que as edições de 2004 e 2012, o Sónar SP 2015 começa nessa terça-feira (24), com sessões de cinema e palestras. Além do show do Hot Chip, o encerramento do festival contará com apresentações do Chemical Brothers, Brodinski, entre outros. Saca só a programação completa no evento do Facebook.

SónarSP 2015 | SónarClub
Sábado, 28/11 - 21h
Espaço das Américas - Rua Tagipuru, 795
R$ 275,00 - R$ 550,00