Anastácia Ottoni, 28 anos, afirma em seu livro que pensava em tirar a própria vida na adolescência

Por que as taxas de suicídio entre jovens seguem crescendo no Brasil?

Ao lado de especialistas de saúde, pessoas que tiveram pensamentos suicidas na adolescência tentam entender e conter o alto índice de autocídio infanto-juvenil pelo país.

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16 Maio 2017, 1:53pm

Anastácia Ottoni, 28 anos, afirma em seu livro que pensava em tirar a própria vida na adolescência

Werther é apaixonado por Charlotte, que está prometida em casamento para Albert. Desiludido, o rapaz decide tirar a própria vida. É assim, em apenas duas frases, que pode ser descrito o romance Os Sofrimentos do Jovem Werther, escrito por Johann Wolfgang Goethe e publicado em 1774. Reza a lenda que, por ocasião de seu lançamento, o livro teria desencadeado uma onda de suicídios juvenis na Alemanha. Mito ou realidade, o personagem-título inspirou, dois séculos depois, a criação do termo "Efeito Werther". Segundo o sociólogo americano David Phillips, que cunhou a expressão, a divulgação pela mídia de um caso de suicídio pode induzir jovens emocionalmente vulneráveis a seguir o exemplo. É por essa razão que a imprensa (quase) nunca toca no assunto.

Mas os tempos estão mudando. Desde que o Netflix disponibilizou a série 13 Reasons Why, baseada no livro homônimo de Jay Asher, suicídio juvenil deixou de ser tabu no Brasil. E já não era sem tempo. Dados do Mapa da Violência, do Ministério da Saúde, revelam que, entre 2002 e 2012, as taxas de suicídio entre crianças e pré-adolescentes entre 10 e 14 anos subiram 40%. Na faixa dos 15 aos 19, o aumento foi de 33,5%.

"Crianças e adolescentes não estão entre os que mais cometem suicídio no Brasil. A faixa etária que concentra os maiores índices vai dos 19 aos 45. Mas as taxas de suicídio infanto-juvenil são as que mais cresceram nos últimos 10 anos", dá o alerta o psiquiatra Neury José Botega, do Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Mas por que os nossos jovens estão se matando cada vez mais? "É uma combinação de fatores, que engloba desorganização familiar, sentimento de abandono, quadro de depressão e consumo de drogas", enumera o especialista.

Para quem ainda não sabe do que se trata a série do Netflix, 13 Reasons Why conta a história de Hannah Baker (Katherine Langford), uma estudante de 17 anos que decide se matar após sofrer bullying na escola. No catálogo do serviço de streaming desde 31 de março, a série coleciona polêmicas. Lá fora, chegou a ser proibida por autoridades no Canadá e na Nova Zelândia. Por aqui, dividiu opiniões. Por um lado, o Centro de Valorização da Vida (CVV) registrou um aumento de 170% no número de visitas diárias ao site, passando de 2,5 mil em março para 6,7 mil em abril, e de 445% no total de e-mails recebidos, saltando de 55 para 300 no mesmo período. Por outro, o Ministério Público da Paraíba (MPPB) recomendou boicote à série. "Crianças e adolescentes não deveriam assistir, por conter cenas muito impactantes", justificou a promotora Soraya Escorel.

Neury Botega, da Unicamp, é o primeiro a admitir que a produção da Netflix comete alguns equívocos. O primeiro deles é mostrar a fatídica cena do suicídio da protagonista com riqueza de detalhes. Outro erro é romantizar o ato. "Depois que a jovem se mata, ela passa a ser cultuada por outros estudantes. Muitos deles chegam a tirar selfies na frente do armário. Ela se transforma numa espécie de heroína", critica o psiquiatra.

Alexandrina Meleiro, doutora pelo Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP) e coordenadora da Comissão de Estudo e Prevenção ao Suicídio da Associação Brasileira de Psiquiatria, pensa diferente. Para ela, o grande mérito da série foi promover debate social. "Tocar no assunto é sempre a melhor solução. Trazer essa discussão à tona com responsabilidade não estimula sua prática. Pelo contrário. Ajuda a prevenir. Varrer o problema para debaixo do tapete é tudo o que não devemos fazer", pondera Alexandrina.

A rápida propagação de um novo desafio virtual, conhecido como Jogo da Baleia Azul (Blue Whale), esquentou ainda mais o tema na mídia. Há rumores de que essa "gincana", praticada em comunidades fechadas das redes sociais, tenha se originado na Rússia, em 2015. Ao longo de 50 dias, crianças e adolescentes seriam "desafiados" por um grupo de organizadores – chamados de "curadores" – a cumprir tarefas macabras, que vão desde assistir a filmes de terror durante a madrugada até riscar com gilete o desenho de baleia no braço. A última das 50 tarefas seria saltar do alto de um prédio. E foi isso que fizeram, segundo a imprensa russa, as estudantes Yulia Konstantinova, de 15 anos, e Veronika Volkova, de 16, em fevereiro daquele ano. As duas moravam na cidade de Ust-Ilimsk, na região da Sibéria.

No Brasil, uma das primeiras vítimas teria sido a estudante Maria de Fátima Oliveira, de 16 anos. Moradora de Vila Rica, a 800 km de Cuiabá (MT), ela foi encontrada morta no dia 11 de abril em uma represa da região. Na casa dela, a polícia encontrou cartas que mencionavam algumas regras do jogo, como dizer adeus aos amigos e apagar mensagens do celular. Além disso, a jovem apresentava cortes nos braços e nas pernas. Por essas e outras, o delegado que investiga o caso, André Rigonato, não descarta a hipótese de ligação com o jogo.

O caso de Maria de Fátima não é o único a ser investigado no país. Há relatos de vítimas de "gincanas" similares em outros estados, como Minas, Pernambuco, Maranhão e Amazonas. A Polícia Civil (PC) do Paraná está apurando oito tentativas de suicídio, todas na capital, Curitiba. No Rio, a Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática (DRCI) investiga mais de 100 denúncias. Por enquanto, só dois casos foram confirmados no estado. "Há quem diga que, quando bloqueiam os curadores ou desistem do jogo, os participantes são ameaçados. Isso é blefe!", garante o coronel Arnaldo Sobrinho de Morais Neto, coordenador do escritório brasileiro da Associação Internacional de Prevenção e Combate ao Crime Cibernético. "O que os pais devem fazer é preservar as provas e acionar a polícia o mais depressa possível. Ninguém consegue apagar totalmente os rastros que deixa na internet", avisa. Se condenados, a pena dos "curadores" pode variar de um a três anos de prisão. Em caso de morte, pode ultrapassar os 40 anos – 30 por homicídio, 8 por lesão grave e 3 por associação criminosa.

"Os efeitos do bullying são devastadores, tanto para as vítimas quanto para os agressores. Enquanto os autores da agressão tendem a se envolver com álcool e drogas, seus alvos podem sofrer de baixa autoestima a depressão"

Para aumentar o cerco aos criminosos, o ministro da Justiça, Osmar Serraglio, mandou a Polícia Federal (PF) investigar o Jogo da Baleia Azul e seus genéricos. O debate em torno do suicídio, porém, não se limita à esfera criminal. Já virou até tema de audiência pública na Câmara dos Deputados, com a participação de representantes da Unicef, Google e Facebook. Nos dias 30 e 31 de maio, será a vez do Ministério da Saúde debater o assunto. Alguns dos mais respeitados suicidólogos brasileiros foram convidados a participar do congresso Estabelecendo Diálogo para a Prevenção do Suicídio no Brasil, em Brasília. E, mais uma vez, já não era sem tempo. Neury Botega e Alexandrina Meleiro concordam que, se o governo tivesse dado continuidade à Estratégia Nacional de Prevenção do Suicídio, em 2006, o quadro hoje não seria tão alarmante. Com 11,8 mil suicídios registrados em 2012, o Brasil é o oitavo país em números absolutos. Os recordistas são Índia (258 mil), China (120,7 mil) e EUA (43 mil). "Naquele ano, a Organização Mundial da Saúde (OMS) solicitou aos países que elaborassem programas de prevenção do suicídio. Você acredita que, 11 anos depois, o programa brasileiro ainda não saiu do papel? A meu ver, o problema não é de falta de verba e, sim, de falta de vontade política", critica Alexandrina.

Botega vai além. Apesar de valorizar o trabalho desenvolvido pelo CVV na prevenção do suicídio no Brasil, avisa que, sozinha, a ONG não vai resolver um problema de saúde pública. "O governo precisa fazer sua parte e organizar uma rede de saúde pública para atender casos de depressão, esquizofrenia e transtorno bipolar, entre outros. Sabe-se que 90% dos casos de suicídio estão associados a um transtorno mental", afirma.

E se depender do Netflix, o assunto vai continuar na mídia por um bom tempo. O serviço online de filmes e séries anunciou para 2018 a segunda temporada de 13 Reasons Why. A notícia não surpreendeu quem assistiu à produção. Afinal, a primeira temporada terminou com muitas pontas soltas. Por que Alex Standall (Miles Heizer) tentou se matar? Bryce Walker (Justin Prentice) será preso pelos crimes que cometeu? Por que Tyler Down (Devin Druid) guarda um arsenal de armas em casa? O que o Sr. Porter (Derek Luke) vai fazer com as fitas de Hannah? O colégio vai ser responsabilizado pelo suicídio da aluna? "A história de Hannah ainda não terminou", faz mistério o showrunner da série, Brian Yorkey, em entrevista ao The Hollywood Reporter.

Casos de bullying como o retratado em 13 Reasons Why ainda são recorrentes no Brasil. Dados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA) revelam que 17% dos alunos brasileiros de 15 anos são alvos de algum tipo de ataque no ambiente escolar. Entre as meninas, esse percentual é de 9%. Segundo a psicóloga Valéria Rezende, o combate ao bullying é um exercício diário que só vai apresentar algum resultado quando toda a comunidade escolar – dos pais aos professores, do porteiro à diretora, da merendeira ao coordenador pedagógico – se engajar em torno dele. Entre outras lições a serem aprendidas estão como identificar alunos em situação de bullying, que cuidados tomar com o estudante que pratica a agressão e como falar com os pais de um aluno que é sistematicamente perseguido na escola. "Os efeitos do bullying são devastadores, tanto para as vítimas quanto para os agressores. Enquanto os autores da agressão tendem a se envolver com álcool e drogas, seus alvos podem sofrer de baixa autoestima a depressão. Até os espectadores, quem diria, correm o risco de sentir culpa pelo resto da vida", adverte a autora do livro Bullying Não é Brincadeira.

A analista de marketing Anastácia Ottoni, de 28 anos, é uma das muitas espectadoras que se identificaram com o drama de Hannah Baker. E não é por acaso. Ela própria foi vítima de intermináveis agressões, insultos e xingamentos dos 11 aos 17 anos, quando estudou em um colégio de freiras na Zona Sul do Rio. Na época, a estudante caiu em depressão, cometeu automutilação e, por diversas vezes, pensou em dar fim à própria vida. "Era triste ver alunos que gostavam de mim sem fazer absolutamente nada. Muitas vezes, até rindo dos ataques", relata a autora do e-book Entrecortes – A História que Ninguém Gostaria de Contar. "Ao terminar de assistir à série, senti urgência de contar a minha história. Queria gritar para todo mundo que, sim, é possível mudar o fim dessa história e sobreviver ao bullying. Eu sobrevivi!", orgulha-se Anastácia.

E como saber se um adolescente está profundamente deprimido ou se trata de uma fase? A psicóloga Mônica Kother Macedo, da Pontifícia Universidade Católica (PUC), do Rio Grande do Sul, afirma que é preciso estar atento às dimensões das crises. "Tristeza, apatia e isolamento são comuns na adolescência", diz. "Mas os pais, educadores e amigos devem estar atentos à frequência e à intensidade desses sinais. Detectado o risco, devem se dirigir ao jovem e perguntar: 'Você precisa de ajuda?'. Na dúvida, não hesitem em pedir ajuda a um especialista."