O monstro do Natal existe e vive no Brasil
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O monstro do Natal existe e vive no Brasil

Uma antiga tradição alemã sobrevive no interior de Santa Catarina com a missão de assustar crianças mal-criadas. Para os Pelznickel, o presente só chega depois do castigo.
16 Dezembro 2016, 12:34pm

No interior de Santa Catarina, existe uma antiga tradição alemã de assustar crianças na época do Natal. Foto: Gilmar de Souza/VICE

Tudo bem, é verdade que o Natal resgata aqueles valores familiares, religiosos e de solidariedade. Mas, sejamos sinceros, é também época de chantagem contra filhos, sobrinhos, afilhados e irmãozinhos: ou obedecem, ou Papai Noel não traz presente.

Como o velhinho generoso não é de cumprir ameaças, resta aos adultos lidar com capetas em forma de guri impunes. Justo quando exércitos de crianças se encontram em intermináveis reuniões de família.

Em Guabiruba, os capetas em forma de guri vão ter que provar que foram bonzinhos pros monstros aí de cima. Foto: Gilmar de Souza/VICE

No interior de Santa Catarina, descendentes de alemães cultivam uma tradição que, digamos, assessora adultos no trabalho de manter a criançada na linha. Enquanto milhões de brasileirinhos e brasileirinhas contam os dias para a chegada do bonachão do Polo Norte, em Guabiruba (a 130 km de Florianópolis) um monstrengo estimula a imaginação infantil.

Pelznickel, o tal Nicolau Peludo. Foto:Gilmar de Souza/VICE

Pelznickel, numa tradução livre, é o Nicolau Peludo. Uma figura horrorosa destinada a punir crianças que não se comportaram durante o ano. A caracterização do bicho geralmente inclui folhas de palmeira, barba de velho (a planta, não a própria), chifres, máscara, correntes, cajado, sinetas, besouros de plástico e o que mais o sujeito por trás da fantasia desejar, desde que meta medo.

Pelznickel, numa tradução livre, é o Nicolau Peludo. Uma figura horrorosa destinada a punir crianças que não se comportaram durante o ano.

Manda a tradição que o Pelznickel apareça sempre a partir de 6 de dezembro, Dia de São Nicolau — santo católico inspirador do Papai Noel. Há lendas semelhantes em outras regiões do mundo, como o europeu Krampus. "Na minha infância nunca vi o Papai Noel vermelho. A gente só esperava o Pelznickel", conta Fabiano Siegel, um dos responsáveis por resgatar a história do monstro.

Esta imagem de 1954 é o mais antigo registro da tradição do Pelznickel em Guabiruba. Foto: acervo pessoal

Em Guabiruba, cidade catarinense, o registro fotográfico mais antigo da brincadeira data de 1954, mas especula-se que desde a imigração, em 1862, os chifrudos visitem crianças de ascendência germânica. Os pais, cúmplices do personagem, abriam as portas de casa para que o Pelznickel perseguisse e até castigasse os malcriados com surras de vara. Somente depois da punição, entre lágrimas, é que o malvado entregava presentes.

Antigamente, o presente só chegava depois do castigo. Foto: Gilmar de Souza/VICE

Muitas décadas e um Estatuto da Criança e do Adolescente depois, a tradição adaptou-se e virou atrativo turístico no município de 20 mil habitantes. A Praça do Pelznickel recebe até três mil pessoas numa única noite. São 70 voluntários, equipamentos de som e iluminação, praça de alimentação, palco para shows e mais de R$ 30 mil investidos, dinheiro de fundos de apoio à cultura. Em meio a um bosque estão distribuídos cenários e figurantes. Ninguém paga entrada.

A Sociedade do Pelznickel, entidade organizadora do evento, é liderada por barbados com 30, 40 anos de idade. Siegel, vice-presidente, e Ivan Fischer, o presidente, contam que institucionalizaram o monstro para impedir que a tradição morresse. Nos anos 1990, uns poucos saudosistas mantinham o costume vivo no Bairro São Pedro. Mais de uma década depois, a tradição foi reconhecida como patrimônio cultural, motivou estudos acadêmicos, mobilizou toda uma comunidade e despertou monstros adormecidos em cidades próximas, como Blumenau e Pomerode.

Onde vivem os monstros

O começo do passeio é só alegria. Tem São Nicolau, cartinhas com pedidos de presentes, neve artificial, doces e avozinhas com mesa de café posta, basta servir-se. Os sorrisos infantis geralmente desaparecem quando surge por ali o Homem do Saco, personagem que rapta crianças levadas e as esconde dentro de um saco de pano.

Os Pelznickel sabem tudo, começando pelo seu nome. Foto: Gilmar de Souza/VICE

Na saleta ao lado, quadros na parede trazem um placar de malcriações, com nomes populares. Um menino que se chama Pedro, por exemplo, descobre que os Pelznickel sabem tudo sobre as sete vezes em que ele desobedeceu os pais em 2016.

"Os Pelznickel já discutiram o teu caso, te prepara", ameaça o Homem do Saco.

Cuidado com o Homem do Saco, personagem que rapta crianças levadas e as esconde dentro de um saco de pano. Foto: Gilmar de Souza/VICE

Porta afora, no breu do bosque, é hora de pais e filhos descobrirem onde, afinal, vivem os monstros. Todas as noites, de 10 a 15 bichos circulam pela área externa, entre árvores e cenários de terror. Iluminados por fachos avermelhados, amedrontam batendo correntes, sinos e grunhindo. Um grupo deles se reúne em torno da enfumaçada Kinderplatz, cercadinho reservado aos malcriados que nem a Supernanny recomendaria.

A molecada fica em danger. Foto: Gilmar de Souza/VICE

Só não arregalam os olhos de medo bebês de colo, pequenos demais para compreender o perigo dos Pelznickel, ou quem já cresceu o suficiente para se mandar dali sozinho. Entre aqueles inocentes o bastante para acreditar em Papai Noel, o choro é certo.

Leia também: "Infeliz Natal: contos de terror natalinos"

Por sorte, mesmo para os mais encrencados há soluções possíveis: entregar chupeta, mamadeira, mostrar que sabe rezar ou pelo menos garantir que em 2017 tudo será diferente. Adultos de coração mole tratam de acalmar os chorosos, mas há pais que entram na onda pra valer: "Viu, eu não disse para você se comportar? Tá vendo?", reforçou Geraldo Santos ao filho Diego, que soluçava.

Os monstros geralmente são encenados por adolescentes. Foto: Gilmar de Souza/VICE

Pergunto aos Pelznickel (os que interpretam o monstro são geralmente os mais novos da turma) qual a graça de ficar quatro, cinco horas em pé passando calor debaixo da fantasia. "Fazer criança chorar", respondeu de bate-pronto o gaiato Alan Daniel Leite, 20 anos. A lógica, como nos trotes universitários, é que os amedrontados um dia amedrontarão. Por outro lado, os mais velhos, que supervisionam a praça, procuram sublinhar valores familiares envolvidos e as risadas que, verdade seja dita, a tradição também provoca.

Pelznickel, o monstro de Natal. Foto: Gilmar de Souza/VICE

Impressiona o carinho com que Fischer, Siegel e outros trintões e quarentões lembram da infância sob o terror do Nicolau Peludo. As memórias, mais do que o prazer da brincadeira, reavivaram os monstrengos.

"Pode ver, só tem guri novo de Pelznickel. A ideia é que eles levem isso adiante", deseja Fischer.

A depender das memórias que a comunidade de Guabiruba vem produzindo dezembro após dezembro, o Pelznickel terá longos anos de trabalho pela frente.

Praça do Pelznickel
Visitação: dias 16 e 17, das 19h às 23h, e no dia 18, das 16h às 20h.
Endereço: Rua Nicolau Schaefer 647, Bairro Imigrante - Guabiruba/SC.

No dia 23 de dezembro haverá presépio vivo na localidade de Guabiruba do Sul, desfilando pela cidade a partir das 20h. Na véspera de Natal, às 14h, haverá desfile nos bairros de Guabiruba.

Saiba mais no site: http://pelznickel.blogspot.com.br/

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