Cozinhando com as muxes, o terceiro sexo do México

“Homens são homens, mulheres são mulheres – e muxes são muxes. Simples assim.”

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dez 5 2016, 9:00am

Esta matéria foi originalmente publicada no MUNCHIES US.

Na região de Istmo de Tehuantepec em Oaxaca, no México, fica o distrito de Juchitán. Essa era a terra da antiga civilização zapoteca, cuja língua e cultura ainda prosperam por lá. Uma das características mais discerníveis de Juchitán é sua população de muxes, que significa "mulher" no dialeto zapoteca.

Mas elas não são mulheres. Colocando de maneira simplificada, elas são pessoas que nasceram homens e se vestem de mulher – mas não se consideram crossdressers nem transgênero. Em vez disso, elas são tratadas como "terceiro gênero", e não se identificam como homem ou mulher.

Por causa dessa compreensão, as muxes geralmente não encaram o mesmo nível de discriminação que gays e mulheres trans. Muitas acabam trabalhando em atividades tradicionalmente reservadas para mulheres, ainda que outras façam trabalhos considerados masculinos.

Nas Las Velas – festas de Oaxaca onde as pessoas dançam, comem e bebem – as muxes encontraram seu lugar, e geralmente usam o traje tradicional kehuana. Desde os anos 70, elas realizam sua própria vela chamada As Autênticas e Intrépidas Buscadores de Perigo – um sinal de que a sociedade e o governo acreditam na diversidade sexual de Oaxaca.

Para saber mais sobre a cultura muxe, viajei para Juchitán e me encontrei com várias delas, que prepararam pratos tradicionais da área enquanto me explicavam sua origem e falavam de suas experiências.

LA TOYA

Victoria López Ramírez, mais conhecida como La Toya, tem 32 anos. Ela mora com a mãe María e as irmãs, e ganha a vida trabalhando como cabeleireira e maquiadora para mulheres e outras muxes. "Vendo roupas, ensino zumba e faço arranjos de flores para aniversários e casamentos", ela me diz com um sorriso. Desde bem jovem, La Toya sabia que se sentia atraída por homens. "Eu queria ser uma muxe quando tinha 12 anos. Eu ainda não entendia isso completamente, e minha família não aceitou no começo, mas depois eles não tinham outra opção a não ser aceitar."

La Toya fala sobre Juchitán com reservas. "Nesta cidade, mesmo nos deixando ser livres, as pessoas não devem achar que aqui é o paraíso... Há homossexuais que são muxes que vieram para Juchitán procurando refúgio, porque de certa maneira somos aceitas aqui – mas ainda temos um longo caminho pela frente. Precisamos parar de ser tratadas como atração turística."

O prato que La Toya prepara para mim geralmente é servido no café da manhã: cozido de veado com pimenta verde, alho e tomate. A carne de veado é muito dura, então precisa ser cozida por pelo menos três horas em água com alho e óleo. Aí ela acrescenta tomates, achiote (uma pasta vermelha usada como tempero) e pimenta a gosto.

Pergunto se é verdade que algumas famílias pressionam os filhos para se tornarem muxes. "Não sei de nenhuma história assim", ela responde. "Mas tenho certeza que ninguém te ensina a ser gay. Você não aprende algo que não é natural. Algumas famílias querem que seus filhos sejam 'machos', mas você não pode lutar contra o instinto da pessoa. Por isso muitas pessoas vêm para Juchitán – para ser quem realmente são."

GALA

Gala tem 22 anos, mas começou a se vestir como menina aos quatro. "Foi quando me permiti sair do armário, porque antes eu não ousaria", ela me conta. "Sempre fui homossexual e acreditava que minha família iria me rejeitar. Quando decidi ser muxe, foi mais fácil do que pensei e não tão traumático, e agora todos me olham com admiração; se assumir homossexual como muxe é mais aceito socialmente."

Gala é garçonete no botanero (um tipo de bar) movimentado da tia, onde elas servem pequenas porções com cerveja, tequila e mezcal.

Ela me prepara uma salada de camarão, o que geralmente serve aos clientes do bar. Ela cozinha os camarões com cebola, limão e tomate, depois acrescenta coentro. O prato é acompanhado por totopos, um tipo de tortilha cozida.

Outro prato servido no bar é o botana (aperitivo), um caldo grosso de carne tradicional de Juchitán. O caldo é feito com farinha de milho, tomate, epazote [erva-de-santa-maria], cebola e carne de vaca.

"Não somos homens nem mulheres", diz Gala com convicção. "Somos um terceiro gênero. Homens são homens, mulheres são mulheres – e muxes são muxes. Simples assim."

FELINA

Felina Santiago tem 48 anos e mora com a sobrinha e o pai, de quem ela cuida com seu salário de cabeleireira. Ela pede para que eu não a chame pelo nome de nascimento, mas acrescenta: "Parte da identidade muxe é manter seu nome real e defender sua identidade enquanto se aprofunda nos costumes de Juchitán; a diferença é como você vive, em vez de onde vive e como se relaciona com os outros. Aqui eu sou Felina Santiago".

As muxes não precisam necessariamente se vestir como mulheres, mas assumem seu papel como muxes na sociedade. "É um modo de vida", me diz Felina. "Seja mulher ou homem, temos o melhor dos dois mundos. Obviamente somos homossexuais, mas nosso comportamento é diferente. Fazemos sexo com homens heterossexuais – que sempre digo que são gays enrustidos – e nunca temos outra muxe como parceira. Nunca."

Pergunto a Felina sobre os rumores de que num passado não tão distante, muitos homens em Juchitán pagavam para perder a virgindade com muxes. Ela revira os olhos e diz: "As muxes sempre foram abertas a encontros sexuais, mas nunca por dinheiro... Muitos homens dessa cidade têm seu primeiro encontro sexual com uma muxe, muito antes de fazerem qualquer coisa com suas namoradas oficiais. Mas ninguém vai admitir isso".

Felina prepara um peixe assado, um prato bem simples. Ela me diz que você pode usar qualquer peixe da área, mas que nesse caso tinha um serrano-estriado. Ela recheia o peixe com cebola picada, tomate e coentro. Depois amarra o peixe com um barbante e o coloca num forno tradicional chamado comiscal, ou "panela de barro", por 45 minutos.

Num dos quartos da casa de Felina fica um altar com flores e velas para a Virgem de Guadalupe e uma foto da mãe dela, que morreu alguns anos atrás. "Minha mãe era a coisa mais importante para mim; ela me apoiava em tudo", ela diz. "Os pais sempre querem te consertar, mas as mães são sempre mais compreensivas. No final, todos acabam aceitando sua condição. Eles não têm escolha."

MÍSTICA

Mística Sánchez Gómez tem 37 anos. Ela ganha a vida vendendo balas de gelatina de vários sabores pela cidade toda manhã. A encontro num domingo no cemitério, onde ela vende suas balas em questão de minutos. "É isso que faço todo dia", ela me diz. "Fora isso, cozinho para quem me pedir."

Mística me prepara um prato tradicional de café da manhã com tomate e iguana. Primeiro ela mata o animal e deixa o sangue escorrer lentamente. Depois o coloca sobre o fogo, que amolece a pele e permite que ela retire as escamas. Quando o animal está limpo, ela o coloca numa panela com água, tomate, achiote e pimenta. (As pernas e o rabo são as partes mais suculentas e macias do bicho.) Mística também cozinha os ovos da iguana, que precisam ficar na água fervente por pelo menos 30 minutos.

"Faço trabalho de mulher desde que me lembro", ela diz. "Lavo roupa, vendo minhas balas e também vendo queijos. Respeito meu sexo de nascimento e nunca pensei em fazer uma cirurgia de mudança de sexo. Sou uma muxe, estou integrada e tenho um lugar de respeito na sociedade. Tenho orgulho disso."

Tradução do inglês por Marina Schnoor.

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