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Quem É o Cara que Tenta Recuperar a Grana da Roubalheira que Rola em Brasília

O novo secretário de Justiça do governo Dilma Rousseff é um jovem promissor de 28 anos que assumiu o trabalho que ninguém quer fazer: Assumir o ingrato papel de sanitarista, encarregado de limpar o resultado da náusea alheia no convés do poder.

por João Paulo Charleaux
17 Abril 2015, 6:47pm

Todas as fotos são do Glaucio Dettmar.

Nas regatas a remo, um timoneiro grita na proa do barco, ditando o ritmo e dando ânimo, comandando a tripulação ao indicar com clareza e convicção a linha de chegada lá na frente. Beto Vasconcelos não é esse homem. O novo secretário de Justiça do governo Dilma Rousseff (PT) aparece ali, um pouco abaixo. Você pode vê-lo sob aquela cabeleira clara com um penteado antigo repartido ao meio. É o atleta mais jovem da equipe, aquele cara que rema onde chovem os perdigotos do líder, o que vai sentado num duro banco de madeira onde se esfola o rego em movimentos curtos, repetidos e vigorosos, sem tempo de olhar para os lados para se certificar se o barco segue o rumo ou se já atravessou as raias na transversal, arrastando consigo boias, bandeirolas e algas, abalroando adversários e saindo do leito, avançando de ré sob os gritos de um guia caolho.

Com mais sorte, Vasconcelos teria calhado num barco à altura da promessa que ele mesmo representa para o PT: a de um obstinado jovem de 38 anos com um passado icônico e um futuro promissor. Mas, na tormenta de escândalos de corrupção que há meses castiga a Esplanada, coube ao moço assumir o ingrato papel de sanitarista, do homem de quem se espera esmero na faxina, o dono do esfregão encarregado de limpar o resultado da náusea alheia no convés do poder.

Não há dúvida de que o governo anda atolado em corrupção. Mas, para Beto, é impossível dizer se o PT é mais corrupto que os demais partidos. "Um dos preços que se paga ao enfrentar a corrupção é a aparência de que houve um aumento, porque você traz à tona algo que estava submerso. As pessoas veem o resultado da apuração com muito mais frequência, mas é difícil dizer se há aumento ou redução (da corrupção)", opina. "Não há um cálculo que diga que a corrupção aumentou ou diminuiu. Não tem dado científico que diga isso com absoluta precisão científica, mas uma coisa é inegável, é inquestionável: quando se criam mecanismos sólidos de combate à corrupção, a consequência óbvia é que ela sai do submundo e começa a aparecer, porque você está apurando, está punindo", se defende e comemora.

Enquanto fala, Beto manipula pastas etiquetadas por temas sobre uma mesa impecavelmente organizada. Toda a balbúrdia de cifras, nomes, documentos, dados e tabelas produzidas nas investigações de casos de corrupção passam pela sala iluminada, de janelas altas e chão acarpetado, que ele ocupa no Palácio da Justiça, onde recebeu a VICE para duas horas de conversa no fim de março. No emaranhado de casos como Lava Jato, Zelotes, HSBC e similares, cabe ao secretário nacional de Justiça e à sua equipe a repatriação de fundos, ou seja, trazer de volta ao Brasil os bilhões de dólares que os corruptos mantêm no exterior: R$ 20 bilhões do Swissleaks, R$ 19 bilhões da Zelotes e uns quantos incertos cifrões da Lava Jato, cujos tentáculos ainda se estendem a perder de vista.

A história que o levou a esse gabinete é improvável. "Meu pai era da mesma organização da Dilma, do mesmo grupo estudantil, que é a VAR-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária)", explica. O grupo foi responsável, entre outras ações, pelo roubo do cofre do ex-governador de São Paulo, Adhemar de Barros. Quase R$ 6 milhões foram levados da casa de Anna Gimel Benchimol Capriglione, no Rio de Janeiro, em julho de 1969. Anna era a suposta amante de Adhemar, que se referia a ela como "Dr. Rui", para não despertar suspeitas.

O cofre foi retirado da casa do "Dr. Rui" por 13 guerrilheiros da VAR-Palmares, aberto com maçarico e, depois de sacada a grana, lançado aos pedaços no mar e em rios da Barra da Tijuca. Durante a operação, os moradores da mansão ficaram amarrados, fios de telefones foram cortados e os pneus dos carros, na garagem, esvaziados.

"Depois de uma longa investigação, localizamos uma parte da famosa 'caixinha' do ex-governador de São Paulo Adhemar de Barros, enriquecido por anos e anos de corrupção. Conseguimos US$ 2,5 milhões. Esse dinheiro, roubado do povo, a ele será devolvido", dizia um comunicado do grupo publicado pela agência de notícias France Presse depois da ação.


Quando Beto chegou para trabalhar na Casa Civil, no primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2007), Dilma não desconfiava da porção guerrilheira que envolvia a árvore genealógica do assessor. "Eu sabia quem era ela, mas ela não sabia quem eu era", conta.

Beto assessorava o então ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos. Eram tempos de Mensalão. A queda de José Dirceu da Casa Civil fez Dilma assumir a vaga aberta, e Beto foi indicado por Bastos para compor a equipe jurídica da nova ministra.

Nos anos 60, Dilma foi presa. E o pai de Beto também. Seu nome – Beto é nome, não apelido – foi dado em homenagem a Carlos Alberto Soares de Freitas. "Meu pai foi muito amigo dele na ditadura. Ambos participaram do movimento de resistência. Estiveram juntos desde o início. Ele era uma espécie de irmão mais velho do meu pai. Meu pai foi preso. Ficou dois anos e meio. O Beto foi preso e morto. Até hoje, o corpo não foi encontrado, e a história nunca foi contada de como ele foi preso, torturado, morto e desaparecido. Eu tenho o maior orgulho (do nome). Provavelmente, é o primeiro apelido que é nome. Um apelido tão comum, mas um nome incomum", diz, perguntando de um jeito mineiro, esquivo e desconfiado se essa sua biografia é objetivo final da entrevista.

O jovem secretário é mais técnico que político. Não apenas pela obrigação imposta pelo cargo, nem por ele ser mineiro de Uberaba, mas por natureza mesmo. Por jeitão.

Ao rebater as perguntas sobre corrupção, ele desnovela uma longa lista de medidas tomadas pelo governo desde 2003 – quando se inicia a série de presidências petistas –visando à "prevenção e transparência, à eficiência e à agilidade, ao fortalecimento institucional e à repressão e controle".

O secretario menciona o Portal da Transparência como um marco no processo de abertura do governo ao escrutínio público. "O portal publica todos os gastos do governo na internet para acesso de qualquer cidadão (inclusive o salário dele mesmo, que, segundo o último registro, de março do ano passado, era de R$ 14.289,85 brutos e de R$ 10.814,36 após deduções. Mas esse valor caiu, segundo ele, ao passar da Casa Civil para o Ministério da Justiça). Em 2004, tínhamos 60 mil acessos anuais nesse portal. Em 2014, foram quase 15 milhões de acessos", fala como se apresentasse um atestado de idoneidade.


A lista de mecanismos semelhantes é longa e sai da boca do secretário como um novelo: Lei de Acesso à Informação, regulamentação do nepotismo, o status de ministério dado à Controladoria Geral da União, fortalecimento da Polícia Federal, autonomia do Ministério Público, fusão da Receita Previdenciária com a Receita Tributária, criação do DRCI (Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional) e mais uma enormidade de medidas.

Mas, com tantos instrumentos, estratégias, siglas, departamentos, com tanto pacote anticorrupção apresentado como efetivo, inédito e inovador, por que esse governo é tão corrupto? Para ele, parte do problema é de comunicação, ponto frágil do seu time.

"Precisamos repensar a forma de comunicação e interação com a sociedade brasileira. Intensificar um diálogo efetivo para formulação de políticas públicas e para, após a aplicação dessas políticas, receber a avaliação dessas políticas, desobstruir os canais já existentes e criar novos. Não é só (uma estratégia) de informação, mas de envolvimento (da sociedade)", afirma o jovem secretário, que não possui conta no Facebook, mas acredita na força das redes.

O esforço por blindar partido e governo deixa entrever, entretanto, que a corrupção também graceja entre os vermelhos. "O momento é de cortar na própria carne, e essa é uma mudança significativa", frisa, mas sem dar nome aos bois.

Para ele, "o financiamento empresarial de campanha deve acabar". Beto defende "o financiamento público somado à doação privada de pessoa física dentro de um limite e onde não haja doação da mesma empresa para campanhas concorrentes", o que poderia ser o pilar de uma reforma política e eleitoral sempre tão anunciada e nunca realizada.

À frente da Secretaria Nacional de Justiça, ele vai forjando uma tradição de precocidade e juventude entre os quadros petistas que passaram pelo cargo. Foi assim com seu antecessor, Paulo Abrão, que assumiu aos 35 anos, e com o ocupante anterior do cargo, Pedro Abramovay, que seria o mais jovem ministro da Justiça do Brasil, cargo que assumiu interinamente em 2009, com apenas 28 anos.

Para quem acha que renovação e sangue novo são indispensáveis para uma virada de mesa na cultura política e no combate à corrupção, a secretaria de Justiça tem sido um caso de estudo. O resultado mesmo só pode ser medido na linha de chegada. Por enquanto, os jovens mancebos da Justiça têm sido apenas bravos remadores sob o ritmo ditado pelos mesmos.