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Fotos

Góticos dos Trópicos

Maria Isabel Rueda tira fotos da cena gótica de lugares como Colômbia, México e Cuba desde o começo dos anos 90, trabalho que acabou transformando em uma coleção de zines.

por CASSIA TABATINI
15 Setembro 2010, 10:28am

Maria Isabel Rueda tira fotos da cena gótica de lugares como Colômbia, México e Cuba desde o começo dos anos 90, trabalho que acabou transformando em uma coleção de zines. O primeiro deles, Tropical Goth, me fez repensar sobre toda essa coisa de góticos. Atualmente ela está trabalhando no seu terceiro fascículo, Tropical Black, cujo foco principal é a cultura jovem de Havana. Falei com ela sobre o estado atual de toda essa parada gótica e do porquê ninguém se preocupa suficientemente em fotografar isso.

Vice: Como você consegue ser tão interessada na garotada mergulhada nessa merda gótica?
Maria Isabel Rueda:
No começo eu não era. Comecei a tirar fotos de jovens com os quais eu adoraria sair, dos quais gostaria de fazer parte da vida. Queria me aproximar deles, e a foto era um jeito de produzir imagens que, pra mim, eram bastante eróticas. No início eu fazia com Polaroids porque não sabia fotografar, mas aos poucos comecei a aprender e produzi uma série chamada Reves, na época em que o ecstasy e a rave estavam bombando na Colômbia. Essa garotada passa bastante tempo trabalhando a imagem, muitos deles fazem suas próprias roupas e se vestem de uma maneira muito especial. Tirei fotos deles em lugares ao ar livre no meio da cidade entre natureza, flores e cores.

Fiz minha primeira exposição com esses retratos e comecei a meio que uma tradição de sempre incluir música ao vivo nas minhas aberturas. Todos os caras que eu fotografei estavam lá, ao lado das suas próprias imagens. Foi como se estivéssemos trazendo todas as cenas de Bogotá para um só lugar, juntas.

Como o Tropical Goth apareceu?
A coleção Tropical Goth começou quando eu estava em dúvida sobre o que fazer para um trabalho da faculdade e um casal de lésbicas usando enormes vestidos pretos passou por mim. Tinha um shopping no meu bairro chamado Via Libre, onde os góticos se reuniam nas sextas-feiras. Suas influências eram músicas e capas de álbuns, e naqueles dias pré-internet era o único jeito de realmente pesquisar por referências do visual gótico. Basicamente foi tudo um trabalho de especulação. Não vimos tantas fotos assim.

Também tem uma cena gótica grande no México, né?
É. Fiz minhas fotos lá por volta dos anos 90, em Chopo, onde a cena é realmente grande. Também fotografei muitos homens da cena gótica gay de lá.

Ninguém mais liga muito para como as pessoas se vestem. Isso também acontece em lugares mais conservadores como a Colômbia?
As pessoas estão, lentamente, se acostumando com os góticos e esse tipo de coisa. Depois da internet nada mais choca tanto assim. Naquela época os góticos eram algo que você lia sobre, ouvia num disco, mas raramente via. As interpretações pessoais do estilo geraram os híbridos bizarros que você pode ver nas minhas fotos. Sair pelas ruas vestido daquele jeito na Colômbia era uma mensagem clara de oposição à algo. Talvez as pessoas não conseguissem trabalhar muito isso ou até falar sobre o que estavam se posicionando contra, mas sabiam que eram visualmente chocantes. Todo mundo era frequentemente parado e revistado pela polícia.


Imagem de Tropical Goth

Seu zine, Tropical God, tem um subtítulo espanhol – “Se Deus fosse treva, tudo iria mudar”
É a letra de uma música de salsa que amo. Tropical God é a segunda edição do meu zine, depois de Tropical Goth, baseado nas minhas viagens pela costa colombiana, quando encontrei médiuns e bruxas, entrando em contato com relatos de stigmata e exorcistas, indo a igrejas e encontrando flagelados etc. A ideia era mostrar o como as pessoas constroem e acreditam nos seus próprios deuses e a ideia geral de que tudo que é escuro tem sua contrapartida na luz.


Rua G, Havana

Suas últimas fotos de Havana não são muito góticas, são mais uma miscelânea de tudo.
Porque é um lugar pobre, as crianças não tem espaços privados lá. Tudo tem que acontecer em festas e shows na rua G, uma via no centro de Havana que é tomada pela juventude da cidade toda noite. Os caras ficam realmente bêbados e curtem até de manhã, vestidos de um jeito misturado entre estilos ocidentais com muito gótico e emo. Tudo é censurado em Cuba. As forças de segurança estão em quase todas as esquinas. Realmente me identifiquei com todos na rua G e com o quão desesperados eles estão para não se conformar.

O que você acha dos góticos de Nova York e Londres?
Na verdade morei em Londres quando tinha 19 anos, em Camden Town, terra de muitos góticos. Também estive em Nova York durante toda aquele período Limelight do meio dos anos 90, mas não tinha nada muito chocante sobre isso. Nada que não estivesse acontecendo no Barbarie Bar, em Bogotá.

Toda essa coisa de góticos tropicais ainda vive?
Bom, estou trabalhando em dois livros ilustrados. Um sobre os segredos de uma bruxa colombiana e outro batizado de Vivek por causa de um cara que contratei para me guiar pela Índia no ano passado. Nós dois estávamos sob o efeito de ópio enquanto dirigíamos, então o livro vai ser sobre as esquisitices ocultas que vivenciamos. A sensualidade, os templos em ruínas e nossa estranha relação. Também vou publicar meu terceiro zine, Tropical Black, com o material de Havana, quando conseguir patrocinadores.