Reportagens

Lívia Cruz, “Eu Tava Lá” e o machismo naturalizado no rap

Conversamos com a rapper pernambucana sobre a alta dose de misoginia nos comentários da resposta musical à polêmica “Quem Tava Lá” do Costa Gold e Marechal, e o quanto o machismo ainda impera com mão de chorume no rap brasileiro.

por Ana Beatriz Azevedo
22 Setembro 2016, 6:03pm

​Foto: Anderson Benjamin/Divulgação.​

Depois do lançamento de "Quem Tava Lá" do Costa Gold com participação do Luccas Carlos, Marechal e muito buxixo sobre o conteúdo das rimas do som, a rapper Lívia Cruz, pernambucana de 30 anos, publicou no último dia 5 uma outra faixa como direito de resposta, "Eu Tava Lá". A ideia da réplica era, em resumo: vocês não são tão veteranos do game assim, e a gente tá bem de olho nas merdas misóginas que recheiam a maioria das suas rimas. E também alertar sobre a invisibilização estrutural que afeta as minas no rap falando da sua trajetória pessoal, com aquelas punchlines que gritam lá no fundo.

Mesmo com um som bastante esclarecedor — sendo inclusive não uma diss, mas sim um direito de resposta —, acabou rolando bastante confusão na internet, como de costume. Muita gente achou que a faixa era um ataque ao Costa Gold e até mesmo ao Marechal e aproveitou a oportunidade para sentar o dedo na maior quantidade de ideia errada possível. Na lista, desde meritocracia cega (repercutindo a ideia de que a ascensão comercial de um artista depende exclusivamente do seu talento, excluindo assim um cenário de desigualdade de gênero, de preconceito regional e de muita pedra no meio do caminho), até os comentários mais bizarros e desrespeitos machistas.

"[Esse assunto] tava engasgado há tempos. Eu podia fazer um post no Facebook sobre o que me incomodou e seguir a vida, mas senti a necessidade de me expressar da melhor forma que eu consigo, que é na música. Eu quis focar a letra bem mais na minha trajetória e nas coisas que nós mulheres passamos enquanto estamos trabalhando pra nos estabelecermos como artistas. Eu quis mesmo dizer que estávamos lá todo esse tempo e que vamos ficar, independente do quão hostil esse cenário tem sido com a gente", me contou a Lívia sobre o que a motivou a fazer a "Eu Tava Lá".

A dose de chorume de macho nos comentários da faixa foi tão alta que a Lívia achou que seria necessário fazer um vídeo explicando toda a situação e as suas motivações, que acabou saindo na terça passada. Mas dessa vez sem música, só papo reto. "Eu quis ampliar a discussão em torno do assunto, não necessariamente explicar o som, porque música é isso, mexe com você ou não, você se identifica ou não. Mas existem pontos chaves com relação a isso que achei importante trazer, os ataques misóginos nos comentários dos vídeos, por exemplo", explica Lívia.

​E o resultado foi foda. Os haters juvenis que achavam que a Lívia estava comprando briga com o Costa Gold ou até mesmo com o Marechal caíram do cavalo. "De verdade, eu não conhecia o trampo dos caras até eles fazerem essa colaboração com o Marechal. Acabei vendo do que se trata depois, e achei que o que eu tinha a dizer era realmente necessário", explicou Lívia.

No segundo vídeo, ela explica que as linhas que fazem resposta direta pro feat lançado não são ataques pessoais, mas algo que deve ser ampliado pra todos os MCs que insistem em rimar a misoginia, apontada na verdade para todos os segmentos do rap que invisibilizam o rap das mulheres de alguma forma. E o direito de resposta não é só dela, mas sim de todas as minas que fazem e curtem rap, e que estão cansadas de se sentirem hostilizadas em um meio que, revolucionário, deveria ser acolhedor.

E ela fez chover ainda mais forte e encharcou o lombo dos cavalos dos incautos fãs machistas que de todo jeito acham uma justificativa pras partes misóginas dos sons, alegando ser a realidade. No vídeo, Lívia lembra: "Ninguém nunca viu as mina obrigar o artista a deixar elas entrarem no camarim, ou de fã que obrigou a ser levada pra quarto de hotel." Esse é o ponto — uma mudança do ângulo de observação, o fim duma ideia errada que sempre acaba culpabilizando as mulheres, até pelas rimas machistas.

Quis saber também quais os corres dela no rap que já foram atrasados por ela ser mulher, e o relato não é nada leve: "Em todo lugar que eu fui tive que passar por uma série de homens e provar que eu tinha capacidade e que estava ali pra fazer música. Quantas vezes eu ouvi 'até que pra uma mulher você canta bem'? Quantas vezes viraram as costas quando eu subi num palco em um baile lotado de homens na pista? Quantas vezes eu tive que começar o show ao som de gritos 'gostosa', 'senta aqui' e mais um monte de baixaria até eu chegar na segunda track e assistir eles calarem a boca e respeitar? Quantas vezes eu fui assediada em camarins onde eu estava a trabalho porque ali é lugar de homem ou puta e só? Quantas vezes eu fui a estúdios pra gravar e nao fiz música nenhuma porque primeiro eu teria que me submeter a um teste de sofá? Quantos companheiros me sabotaram por que não aceitam que a SUA MULHER esteja em um palco ou trabalhando com outros homens e chegando em casa de madrugada?"

Pra quem não analisa esses fatos e não vê o rap como uma força motriz de um ciclo vicioso de misoginia é fácil usar o discurso da meritocracia pro sucesso das MCs mulheres. A Lívia me falou mais sobre isso: "Só tocam nas festas quem lota casas, só lotam as casas quem tem público, só tem público quem produz, e, hoje em dia, quem produz muito. Pra produzir começa que a esmagadora maioria dos beatmakers são homens, quem tá na mesa do estúdio é homem, quem mixa, masteriza, filma... a maioria é homem. Aí a gente volta pra todas essas situações anteriores que eu te contei e que são muito recorrentes. E aí eu que pergunto: como faz pra gente produzir?" questiona Lívia.

Nos últimos anos, a pauta da visibilidade da presença feminina no hip hop tem ganhado destaque, ainda bem, e o nível artístico/estético das minas tem subido de verdade. Mas a real é que o trabalho das minas só começou, e essa treta toda deixou bem claro o quanto o rap brasileiro ainda tem dificuldade com a presença delas.

E para não esquecermos que esses comentários não são brincadeira e muito menos novidade, separei algumas das mais ilustres pérolas criadas pelos internautas que comentaram nos dois vídeos da Lívia, pra vocês sentirem um pouco o que é ser mina e se propor a cantar rap: