Iggor e Max Cavalera. Foto: Divulgação

Max Cavalera: "vai ter muita gente revoltada, e disso sai muita música boa"

Um papo com o lendário metaleiro, que está em turnê pelo país com o irmão Iggor Cavalera para tocar os clássicos 'Arise' e 'Beneath the Remains'.

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01 Novembro 2018, 8:21pm

Iggor e Max Cavalera. Foto: Divulgação

Já considerado uma lenda viva do metal mundial, o guitarrista e vocalista Max Cavalera é responsável por alguns dos principais discos do estilo nas últimas décadas. Ao longo desse tempo, o músico brasileiro soube passar como poucos por diversos gêneros e subgêneros, sem se preocupar em ficar preso a rótulos e coisas do tipo.

Vivendo nos EUA desde o início dos anos 1990, Max está de volta ao Brasil nesta semana para uma temporada de shows ao lado do irmão, Iggor Cavalera, com quem fundou o Sepultura há mais de 30 anos em Belo Horizonte. A ideia da turnê, que já passou pela Rússia e agora corre pela América do Sul e Central, é homenagear dois dos principais discos da sua ex-banda, os clássicos eternos do thrash metal Beneath the Remains (1989) e Arise (1991).

Na entrevista abaixo, Max fala sobre essa tour, dos 20 anos de carreira do Soulfly, de como era ser criança durante a ditadura militar no Brasil, lembra os discos que mudaram a sua vida e diz que políticos como Trump e Bolsonaro podem inspirar boas músicas, como aconteceu nos anos 1970 com o punk e 1980 com o hardcore.

Noisey: Vocês estão fazendo essa tour focada no Arise e no Beneath the Remains. Como foi revisitar esses discos e se teve algum desafio em especial na hora de voltar a tocar essas músicas, uma vez que esses são provavelmente os trabalhos mais técnicos da sua época no Sepultura?
Max Cavalera: Acho que um lance legal dessa turnê é que ela foi programada em lugares com uma trajetória bem diferente de tudo que a gente faz. Tipo, a primeira parte foi na Rússia, desde Vladivostok até a Sibéria, passando por umas cidades que a gente nunca tocou antes, e terminando depois em Moscou, São Petersburgo e Minsk. Então foi super legal por isso, porque é diferente, não é a turnê normal que você faz nos EUA ou na Europa. E ela é bem exótica, né? As duas são exóticas, a parte da Rússia e essa parte agora que é América do Sul e América Central, que também tem outros lugares legais, tipo Vila Velha — e a gente vai tocar perto da Patagônia, na Argentina. Então isso traz um lance bem diferente que é bem legal para a gente, que é explorar ainda lugares diferentes, lugares em que a gente nunca tocou.

Agora sobre os discos em si, a ideia nasceu de misturar os dois para fazer o setlist mais poderoso possível (risos). A gente eliminou as músicas que a gente achava que só enchiam um pouco de linguiça, tipo “Hungry” (do Beneath the Remains). Até quando a gente escreveu essas músicas na época do disco, foi naquelas jogadas tipo assim: “Puta, precisa de mais uma música. O que que a gente põe? Ahh, tem esse riff aí, faz essa porra, vai embora”. Então a gente não teve nenhum carinho muito especial por essas músicas mesmo. Fizemos o setlist pegando as partes mais hardcore desses dois discos.

Agora na parte técnica, foi bem, tipo assim... demorou bastante. Eu fiquei um mês em casa ensaiando sozinho, eu com a guitarra, para lembrar as partes, para lembrar os vocais. E o Iggor alugou um estúdio em Londres e fez a mesma coisa. A gente ensaiou bastante, mas valeu a pena porque agora tá bem afiado, uma música atrás da outra. E é legal o lance da nostalgia, porque realmente leva a galera de volta para aquele tempo. E esse é um lance que é inacreditável para mim. O que essas músicas fazem, o quanto é legal tocar elas hoje em dia, o sentido que elas têm... hoje em dia é até mais forte do que naquela época.

Esses dois discos, aliás, foram responsáveis por colocar o Sepultura e o metal brasileiro de vez no cenário internacional — teve a tour com o Sodom, trabalhar com o Scott Burns, a Roadrunner, entre outras coisas. Na época, vocês sentiam que tinham algo especial em mãos? Quero dizer, eles se tornaram clássicos do thrash metal mundial, ao lado de trabalhos de bandas como Slayer, Exodus e Metallica, que eram referências quando vocês começaram.
Pô, lógico que não, cara. Quando a gente fez esses discos a gente tava só pensando em como que dava para tentar melhorar musicalmente e tocar melhor. Acho que o primeiro passo que a gente fez nesse lance foi o Schizophrenia (1987), que já mostrou uma musicalidade bem maior do que o Morbid Visions (1986) — apesar de eu ser bastante fã do Morbid Visions, que eu acho que é aqueles black metal cru e escuto até hoje. Mas a gente sentiu que a gente podia fazer mais, que dava para ir além.

Quando a gente recebeu o convite, e eu fui para os EUA e conseguimos o contrato, aí a gente sentiu a seriedade da coisa e viu que tinha uma possibilidade disso aí ser de verdade, de a gente ia virar uma banda mesmo. Lógico que a gente não sentia que a gente ia ficar igual o Metallica, mas tinha o lance de que talvez pudesse rolar uma coisa legal para o nosso lado. Então foi aí que a gente fez o Beneath the Remains. Foi um disco gravado de noite no Nas Nuvens, que acho que era o melhor estúdio do Brasil, um dos mais famosos aqui — tantos discos bons foram feitos lá, Titãs, Legião, Paralamas. E a gente só tinha como gravar à noite, tinha uma banda de pop gravando de dia. Então as nossas sessões eram da meia-noite às sete da manhã. E eu nunca tinha feito um disco assim, noturno. Acho que tem um lance meio louco nessa gravação noturna e que acabou saindo no disco (risos). O disco acabou ficando até mais raivoso por causa disso.

Você comentou sobre o sentido das músicas antigas hoje em dia e a “Refuse/Resist”, do Chaos AD (1993), vem sendo muito compartilhada nas redes sociais por aqui nos últimos dias, após a eleição do Jair Bolsonaro como novo presidente do Brasil. No passado, você já criticou o Trump. Por isso, queria saber de você, que cresceu ainda durante a ditadura no Brasil, como é ver um militar de volta ao poder no seu país de origem?
É, a gente nem... a gente pegou o final daquele lance da ditadura. A gente lembra de ouvir dizer de artistas, tipo o Caetano Veloso sendo exilado em Londres e coisas desse tipo. E que as músicas eram censuradas, acho que os caras pegavam uma faca e riscavam as músicas fora do disco. Então eu lembro dessas coisas. Mas a gente mesmo, de moleque, eu lembro da gente tomando dura de polícia na rua aqui em BH (nota: quando a entrevista foi feita, Max estava em Belo Horizonte, cidade onde o Sepultura começou, para um show), indo preso e morrendo de medo. Principalmente quem era cabeludo e tatuado, porque a gente era um alvo para a polícia, né? Os caras viam a gente e era camburão direto — não tinha nem o que perguntar, nem ver identificação, era camburão direto (risos). Então eu tinha muito medo dessas coisas. Eu lembro até que eu falava que eu tinha mais medo de polícia do que do diabo. Tá ligado? Acho que tenho menos medo do diabo do que da polícia.

Aí não sei, sobre esse lance... Eu não sei, acho que eu sou meio que uma pessoa errada para perguntar sobre o que tá acontecendo. Além do muito tempo que já não vivo aqui, eu não sigo esse lance dos candidatos, não sei a história deles, não entendo muito. Só tenho escutado assim coisas que vem um pouco da boca das pessoas e um pouco da mídia — e eu também não coloco muita fé na mídia. Mas eu acho que precisa de alguma coisa realmente, precisa balançar o Brasil, precisa aquele lance assim, alguém precisa fazer alguma coisa para mudar. Precisa de mudança, acho que é o que eu tô tentando explicar aqui. É o lance da mudança, porque quando a coisa tá ruim tem que mudar, de uma maneira ou de outra. Então eu não sei se ele é a pessoa certa ou não, a gente vai ver, né? Nos EUA, teve o Trump e eu acho que, apesar de eu não gostar dele, também tiveram outros presidentes ruins, como os Bush, que para mim estão entre os piores que já tiveram. Mas esse lance da política é um lance tão complicado, cara, que eu tento ficar é fora mesmo. Não tenho, assim, muita vontade de ficar ligado politicamente. Porque acho que a maioria é tudo corrupto mesmo, é meio que uma doença. Eu escrevi isso no disco novo do Soulfly, em uma música que chama “Evil Empowered”, que é sobre a maioria dos presidentes ou líderes do mundo, que quando eles chegam ao poder, é como se fosse uma doença — e eles usam para o mal, em vez de usar para o bem. E acho que isso acontece em todo lugar do mundo. Em alguns países não tem isso, mas a maioria dos países sofrem com essa mesma doença política. Então infelizmente é uma situação negativa.

Do outro lado da moeda, acho que agora vai ter muita música boa saindo por isso (risos). Quando tem um cara tipo o Trump ou o Bolsonaro, vai ter muita banda porrada, vai ter muita gente revoltada, e disso aí sai muita música boa. Igual na época dos punks, em 1977, e também na época do Reagan nos EUA, quando saiu muita coisa legal, como Black Flag e Dead Kennedys. Então vamos ver.

A gente preferiu do nosso lado aqui... Como te falei do lance de não morar mais aqui, então eu tô meio de fora desses lances. Aí nos shows a gente nem tá comentando nada ou falando de um ou de outro. Porque é meio hipócrita, para mim, essa posição de eu falar alguma coisa que eu não tenho muito conhecimento. Então prefiro pegar uma posição um pouco mais diplomática até.



Já que falei na “Refuse/Resist”, vocês pensam em fazer uma turnê especial focada no Chaos AD, como já fizeram com o Roots e agora com o Arise e o Beneath the Remains?
Olha, essas turnês vêm de vez em quando e elas meio que vem do nada mesmo, cara. Quando Iggor e eu voltamos a tocar junto, a gente fez um pacto de irmãos no sentido de que tudo que a gente fizesse ia ser sem estresse e sem negatividade. E a gente ia fazer o lance por puro amor — pelo que a gente faz, pela música — e também pelo amor que a gente tem um pelo outro. Então todas essas turnês que a gente fez, "Return to Roots" e agora com o Beneath the Remains e o Arise, são todas esquematizadas nesse lance de não ter estresse. Então com certeza rolaria outra turnê, se chegar uma hora legal.

No ano que vem eu vou estar bem mais ligado no Soulfly novo, o Ritual, que acabou de sair e está tendo críticas bem favoráveis — talvez as melhores críticas que recebi num disco do Soulfly em muito tempo, acho que em uns 10, 15 anos, não sei. Então a gente tá super empolgado com esse disco. Por isso, acho que eu vou ficar bastante na estrada com o Soulfly no ano que vem. Porém, tem um lado que talvez role, principalmente com a data de aniversário do Chaos AD, que é um disco que, para mim, seria bem legal de tocar ao vivo, é um dos meus preferidos.

Aproveitando que você falou do Soulfly agora. Em 2018, completam 20 anos do lançamento primeiro disco da banda, quando a formação ainda tinha o Roy Mayorga (Amebix, Stone Sour) e o Lúcio Maia (Nação Zumbi). Quais as suas lembranças dessa época? E como enxerga a trajetória da banda nessas duas décadas? Vocês passaram por diversos estilos e formações, sem se preocupar em ficar presos, digamos, a um gênero específico de metal ou algo assim.
Ah, é legal pra caramba comemorar 20 anos. Eu nunca achei que ia chegar a tanto assim. Você não pensa nessas coisas quando você tá fazendo os discos. Na época que eu fiz o primeiro do Soulfly, a única coisa que eu tava querendo era sobreviver. Era algo como: “Espero que eu sobreviva à essa fase”. Que era começar sem o Sepultura, começar de novo, do zero, com uma banda nova, que ninguém conhece. Eu tava meio baixo astral, mas ao mesmo tempo era tipo a música “No Hope = No Fear” — sem medo, mas também sem esperança. Então, quando você tá nessa situação, você bota pra fuder, você tão tá nem aí. Então acho que o Soulfly nasceu desse jeito, mas aos poucos as pessoas foram se acostumando com o Soulfly e foi legal, cara. Acho quecada disco mostrou um lance diferente, cresceu bastante, e agora a gente conseguiu fazer algo que une todas as sonoridades que fazem parte do mundo do Soulfly, e tão mais presentes no Ritual, que acho que é um dos discos mais completos da banda. Mas eu adoro todas as fases. Acho que o que a gente fez no primeiro disco foi mágico, com o Lúcio e o Roy — as guitarras do Lúcio Maia foram maravilhosas naquele disco. Foram lances muito legais que eu tenho muito orgulho.

O Soulfly tem um espaço bem especial no meu coração porque é a banda que me deu a segunda chance na vida. Eu não tinha muita esperança, são muito poucos os músicos que conseguem fazer uma segunda carreira. Acho que o Ozzy conseguiu, mas muitos não conseguiram, porque é um lance bem difícil mesmo, né? Porque os fãs gostam dos lances antigos, não gostam de coisa nova, não querem saber (risos). Mas acho que, aos poucos, o Soulfly, pela própria qualidade do material, porque a gente fez músicas boas, que ficaram impregnadas na galera, né? Tipo “Eye for an Eye”, “Back to the Primitive”, “Prophecy”, essas músicas foram grandes, cara — e viraram grandes hits para tocar ao vivo. Acho que isso deu uma maneira que a gente conseguiu sobreviver, não só sobreviver, mas deu muitos frutos. Como o lance de tocar com o meu filho, o Zyon, que tá na batera — acho essa é uma história muito legal, de incluir o meu filho na banda. E principalmente agora que ele tá tocando super bem nesse disco novo. Então acho que a história do Soulfly é bem legal, bem interessante, e eu curto muito.

Agora as duas últimas. Eu sempre gosto de fazer essa pergunta. Por favor, me fala três discos que mudaram a sua vida e por que eles fizeram isso.
Pô, vai botar na parede mesmo? Caralho (risos). Deixa eu ver aqui. Acho que o Sabotage (1975), do Black Sabbath, porque é muito foda e os riffs do Tony Iommi são os mais fodas do mundo. Acho que a “Sympton of the Universe” (nota: faixa que o Sepultura regravou nos anos 1990) é talvez a minha música preferida do mundo inteiro. Então com certeza o Sabotage, do Black Sabbath.

Aí eu diria o Hear Nothing, See Nothing, Say Nothing (1982), do Discharge, que é muito foda. É uma parede de guitarra com punk e metal misturado. A gente ficava louco quando ouvia isso aqui. Na época, punk e metal não era nem misturado, mas a gente já ouvia essas coisas e adorava. Então o Discharge sempre foi uma banda muito poderosa aos meus olhos, sempre gostei muito. E esse disco principalmente, que é uma parede, é um paredão de guitarras mesmo, não sei como é que os caras gravaram essa porra.

E acho que depois, deixa eu ver aqui, uma outra coisa bastante influenciadora. Vou dizer o Motörhead, principalmente o Ace of Spades (1980), que é um disco eterno, né? Acho que o Motörhead é a banda que criou o thrash metal — e do thrash metal veio o death metal e o black metal. Acho que os caras foram os pioneiros mesmo. Então eu sempre adorei Motörhead e esse disco principalmente, porque os caras tão com uma imagem meio de mexicano, de bandoleiro mexicano. É de arrepiar mesmo, é muito legal. A imagem é legal, o som é foda, a ideia, o visual. As ideias do Lemmy, aquele lance de não se vender nunca, de integridade, isso aí pega forte comigo. Então esses três discos são fodas.

Agora a última pergunta. Além dos clássicos com o Sepultura e desses 20 anos com o Soulfly, você também tem ou teve projetos como Nailbomb e Killer Be Killed. Por isso, queria saber do que tem mais orgulho nesses mais de 30 anos de carreira?
Tenho bastante orgulho do primeiro do Soulfly, que eu te falei que é um disco meio mágico. Também gosto bastante do Nailbomb, que foi a primeira vez que eu fiz um projeto, que é aquela coisa de sair um pouco da regra, do lance do Sepultura, de fazer um lance um pouco diferente ao lado. E o Killer be Killed veio com o mesmo gosto, que foi bem legal. E poder tocar com músicos de quem eu sou fã, como o Troy (Sanders), do Mastodon, e o Greg (Puciato), do Dillinger Escape Plan, que são bandas maravilhosas e que eu adoro. E a gente vai fazer um disco novo até o ano que vem, vamos trabalhar em cima de um disco novo. E também acho que o Cavalera Conspiracy, principalmente o Psychosis, que acho que foi a coisa mais parecida com as coisas antigas do Sepultura que a gente já fez. É um disco que eu gostei muito de fazer com o Iggor, a gravação foi muito legal.

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