comportamento

Como lidar com as divergências políticas entre você e sua família

A vontade de mandar se foder é um nó na garganta do brasileiro contemporâneo.

por Débora Lopes
10 Outubro 2018, 10:00am

Ilustração: Cassio Tisséo/VICE

Ah, o eterno desgaste em adentrar um embate com o seu tio bigodudo e reaça que trabalhou a vida inteira em banco e acha que meritocracia é a desculpa para todo e qualquer problema social existente, que traz mil e um argumentos contra as cotas raciais e que fala que homens e mulheres estão em pé de igualdade faz tempo. O Brasil tá fervendo com as eleições e esse mesmo fogo chega rasteiro nas nossas relações familiares totalmente polarizadas e, obviamente, no grupão de zap, o grande antro do contato humano com aqueles e aquelas que convivemos desde o nascimento. Existe solução pra isso? Será que em vez de mandar seu tio pra casa do caralho você não deveria regurgitar sua bílis rosa millennial cheia de florzinhas e gratiluz, demonstrando toda a paz e sabedoria de um seguidor do Osho mesmo diante do caos total e do desespero?

São questões difíceis, são questões que perpassam nossos espíritos destemperados. Uma coisa meio Ciro Gomes dando pescotapa no Mamãe Falei. A vontade de mandar se foder é um nó na garganta do brasileiro contemporâneo. Nos últimos dias, pipocaram boatos de que Bruna Marquezine e Neymar teriam brigado e até terminado o relacionamento porque o jogador supostamente teria votado em Bolsonaro. Se nem #Brumar resiste a tudo isso, o que será de nós, reles mortais sem milhões na conta? Bruna acabou desmentindo o término, e é aí que voltamos pras nossas vidinhas e tretas familiares.

Na ânsia de entender se a polarização política realmente tem refletido nos relacionamentos familiares, procurei Marília Alves, psicóloga clínica que atua como terapeuta de casal e família, mestre e doutora em psicologia da educação pela PUC-SP. Ela me conta que o Fla-Flu brasileiro tem impactado, sim, as emoções e relações interpessoais e que um exemplo disso são os questionamentos que tem ouvido de seus pacientes. "Os dois lados têm crenças e é muito difícil desconstruir uma crença num momento de crise", pontua.

Para ela, parar de falar temporariamente com alguém cujos princípios e valores diferem totalmente dos seus – mesmo quando essa pessoa é seu pai, primo etc –, não é o fim do mundo. "Se o distanciamento inicial ajudar a se preservar, pode ser uma estratégia interessante. É como se as pessoas precisassem se distanciar pra olhar o outro, e nesse distanciamento voltassem pra si para poderem se enxergar também. É um questionamento do seu processo de constituição enquanto sujeito", explica.

Até porque prever uma discussão acalorada sobre Haddad e Bolsonaro naquele almoção familiar de domingo é, além de um desgaste emocional, algo que pode se tornar físico e trazer sintomas reais. "Isso tudo tem se transformado em somatização. Dores de cabeça, insônia, gastrite", menciona a terapeuta. "O que me preocupa nisso tudo é ver as pessoas adoecendo."

Você pode até tuitar que não passa pano pra fascista, que não vota em racista, mas, no fundo, sabe que sua família continua sendo sua família. E, no final, cabe a cada um botar na balança a quantidade tolerável de relações e ambientes tóxicos que pode ou não suportar. "A ideia é se acalmar e esperar as coisas se acalmarem também", pondera Marília. Por isso, crianças, controlem seus espíritos Ciro Gomes. Ou não. Se quiserem azucrinar geral e evangelizar o tio bigodudo pra não votar no Bozo, temos aqui um belo guia.

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