Saúde

O que acontece quando um aborto não funciona corretamente

Tive um aborto incompleto ano passado. Aqui vai o que eu queria saber antes sobre isso.

por Rose Stokes; Traduzido por Marina Schnoor
20 Agosto 2019, 10:00am

Ano passado, fiz um aborto. Minhas razões são profundamente pessoais, dolorosas e problema meu. Quando decidi interromper a gravidez, uma mulher do Serviço de Aconselhamento de Gravidez Britânico (BPAS) me perguntou por telefone seu eu queria um aborto farmacológico – que ainda era possível no meu estágio de gestação (nove semanas) – ou um aborto cirúrgico. Eu não fazia a menor ideia.

“Qual a diferença?”, perguntei.

“Bom, em um você toma uma pílula e o outro é mais invasivo.”

Eu não tinha muito tempo para entrar em detalhes – e nem queria, honestamente – então escolhi o aborto farmacológico, achando que seria mais simples.

A enfermeira na consulta preliminar explicou que aborto farmacológico é mais eficiente se você tomar os dois conjuntos de pílulas com 24-48 horas de diferença. Tomei o primeiro comprimido (Mifepristona) naquele dia, e voltei dois dias depois para completar o procedimento, que envolvia inserir o segundo conjunto de pílulas (Misoprostol) na vagina. Senti isso como um ato de autoflagelação. Lembro de voltar pra sala de espera e me encolher nos braços da minha mãe – chorando com uma ferocidade que eu não experimentava desde a infância.

“Eu sei, eu sei”, ela dizia baixinho enquanto acariciava meu cabelo.

A clínica me disse que o aborto poderia começar a qualquer momento a a partir de tomar a medicação ou até duas semanas depois. Seria como uma menstruação pesada, e acabaria em um dia, mas que eu poderia experimentar uma leve cólica por até uma semana. Eu podia tomar paracetamol ou ibuprofeno se doesse muito.

Por volta de quatro horas depois que voltamos para o meu apartamento, senti uma dor estranha no fundo de mim, em algum lugar entre a base da espinha e o umbigo. Dentro de uma hora, entrei em trabalho de parto total – vou te poupar de uma longa descrição, mas: contrações, vômito, sangramento, choro e diarreia. Aquilo durou horas. Minha mãe foi incrível; eu fiquei traumatizada. Mas de algum jeito a experiência nos aproximou.

Cerca de 12 horas depois, as contrações se tornaram menos frequentes, o que achei que era um sinal de que o pior tinha passado. Mas uma semana depois, quando tentei sem sucesso voltar ao trabalho, as contrações persistiram, e procurei um clínico geral para me receitar remédios mais fortes. Lá ele tirou minha pressão – que estava “perigosamente baixa” – e me mandou direto para a emergência.

Depois de quatro horas chorando em agonia, deitada no chão da sala de espera da Unidade de Gravidez entre grávidas, um ultrassom revelou o que eu temia: o aborto não tinha dado certo e foi classificado como “incompleto”, uma palavra que eu lembrava vagamente de ouvir na primeira consulta. Em termos de entender as complicações que podem acontecer, é importante fazer uma distinção entre um aborto farmacológico “falho” e um aborto farmacológico “incompleto”. Um “aborto falho” é quando a paciente toma todas as pílulas e o processo de aborto não se inicia por qualquer razão. Um “aborto incompleto” é quando o processo se inicia mas o corpo não consegue expelir os “restos”.

Eles marcaram uma cirurgia para três dias depois para remover os “restos”, e consegui licença do trabalho por mais uma semana. O incidente me deixou física e emocionalmente acabada.

*

Como qualquer outra questão de saúde da mulher, aborto – o que ele envolve, qual a sensação, como você sabe se funcionou, quão diferente a experiência pode ser para cada pessoa – é um tópico onde nossa sociedade é lamentavelmente ignorante. Em vez de usar nossa energia para espalhar conhecimento e experiências úteis que permitam que as mulheres façam escolhas informadas sobre seus corpos, muitas vezes acabamos presas num debate infinito no Twitter sobre moralidade. Isso nos distrai da verdadeira questão, que é – gostando ou não – que as mulheres fazem abortos, independente de se o procedimento é apoiado pela lei, pela moral ou pelo sistema de saúde. Garantir que essas mulheres tenham acesso justo e honesto a informações detalhadas sobre os vários procedimentos envolvidos só pode ser descrito como uma questão de saúde pública.

“Como sabemos, abortos são incrivelmente comuns”, me diz a Dra. Yvonne Neubauer, diretora clínica do Marie Stopes UK, uma ONG de aborto. “Sabemos que uma em quatro mulheres vai interromper uma gravidez durante a vida, e que aborto farmacológico é de longe o método mais comum, com 9 de 10 abortos em 2018 sendo realizados antes das 13 semanas, quando o método é mais eficiente.” Desses, me diz a Dra. Neubauer, 70% são induzidos clinicamente, dos quais 95% têm “sucesso em provocar a passagem completa do produto retido”, o que torna minha experiência de um procedimento incompleto bastante – mas não extremamente – rara.

Quando Diana*, uma contadora, tinha 19 anos e era caloura na faculdade, ela fez um aborto farmacológico. “Na época, eu não conhecia ninguém que tinha feito um aborto, ainda mais um aborto incompleto”, ela diz. O procedimento aconteceu como planejado, e Diana foi mandada pra casa, esperando deixar a experiência para trás o quanto antes. Mas, algumas semanas depois, quando ela estava numa viagem de férias com a família, o sangramento não parava. “Foi horrível. Eu tomava banho, depois olhava pra baixo e o chão estava vermelho. Todos os absorventes acabavam vazando muito rápido, e eu não podia nem pensar em nadar.”

Diana percebeu que tinha algo muito errado quando, no avião pra casa, o sangramento se tornou ainda mais intenso. “Parecia que o sangue estava jorrando de mim, ele manchou meu vestido e o assento do avião. Foi humilhante e assustador.” Depois do pouso, Diana e sua família foram direto para o hospital. Lá, disseram que o aborto tinha sido incompleto e que ela precisava fazer uma cirurgia.

“Fiquei traumatizada por muito tempo e acabei largando a faculdade”, ela diz. Além do trauma, ela se sentia culpada e envergonhada por causa das complicações. “Senti que estava sendo punida pela minha decisão de abortar.”

O problema é que, como com qualquer coisa relativa a saúde reprodutiva, a experiência de mulher pra mulher varia muito – baseado no que a Dra. Neubauer já viu – até a mesma pessoa pode responder diferente ao mesmo procedimento em duas ocasiões. “Aconselhamos com base na experiência mediana”, ela me diz.

Todo mundo já ouviu histórias de uma mulher que espirrou e viu seu primeiro filho sair depois de duas horas de contrações leves, e todo mundo já ouviu histórias de uma mulher que precisou fazer uma cesariana de emergência depois de 72 horas de agonia. É tipo aquela amiga que diz que nunca tem cólica e aquela que precisa ficar deitada quatro dias por mês sem conseguir sair de casa. “Nossos corpos são complexos e variam muito, e nenhuma experiência de aborto é igual”, diz a Dra. Neubauer. “Por isso nossa prioridade é apoio antes, durante e depois do processo, e dar acesso a uma variedade de recursos, incluindo uma linha para tirar dúvidas 24 horas.”

Mas e quanto aos casos extremamente raros (menos de 1%) onde o aborto farmacológico simplesmente falha?

*

Depois de passar por um aborto farmacológico com 9 semanas de gestação, Zoë Beaty, jornalista freelance, foi para casa, e esperou o processo começar. Ela esperou e esperou. Horas viraram dias, e nada aconteceu. Sem poder ir trabalhar por medo de abortar lá, e não podendo voltar para a clínica até duas semanas depois do tratamento, ela ficou abandonada em casa.

“Foi tão frustrante”, ela me conta. “Eu sabia que ainda estava grávida, eu conseguia sentir dentro de mim, mas ninguém me levou a sério até a clínica confirmar duas semanas depois por ultrassom.” Essa inevitabilidade teve um preço emocional. “Parecia que as coisas estavam fora de controle. Eu nunca tinha ouvido falar de aborto falho, e toda vez que buscava isso no Google, eu só encontrava besteira pseudo-religiosa me dizendo que aquilo era um 'sinal', o que obviamente não ajudava em nada.” Zoë acabou conseguindo marcar uma cirurgia com 11 semanas de gestação, e a gravidez foi interrompida.

Abortos falhos podem ser difíceis de processar psicologicamente. Em alguns casos, o sangramento começa depois de tomar a medicação, mas a gravidez continua. Se você mora na Inglaterra, isso pode ser remediado por um procedimento cirúrgico quando fica confirmado que a gravidez não foi interrompida. Mas esse não é o caso em vários países.

Mara Clarke, fundadora da Abortion Support Nerwork, uma organização de caridade que ajuda mulheres obrigadas a viajar para conseguir aborto seguro e legal, diz que isso é particularmente devastador se a janela de espera de duas semanas mais consulta empurra a paciente para fora do limite para ter acesso a um aborto legal. Isso pode acontecer num país como a Irlanda, por exemplo, onde aborto só é acessível até 12 semanas de gestação. “É de partir o coração”, ela diz, “é incrivelmente complexo processar emocionalmente tudo que isso envolve”. Felizmente, um referendo recente sobre acesso igual a aborto na Irlanda do Norte e Irlanda, mais planos de permitir que mulheres na Inglaterra tomem pílulas de aborto em casa, são grandes progressos.

Não me arrependo nem por um segundo da decisão de interromper minha gravidez, que era a coisa certa pra mim e para a criança em potencial. Aborto é um procedimento médico seguro, e muitas mulheres que abortam não passam por nenhuma complicação. Ainda assim, esta é uma matéria que eu queria de ter lido antes do procedimento e depois, para que eu pudesse estar realmente informada e preparada para o que poderia acontecer com meu corpo, em vez de descobrir durante o processo. Não quero que ninguém mais passe pelo que passei. Como a Dra. Neubauer diz: “A única maneira de nos ajudarmos é sendo honestas e abertas... e falando sobre aborto”.

@RoseStokes

Matéria originalmente publicada na VICE Reino Unido.

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