Foto: Divulgação

Karol Conká: "Eu não tenho tempo para ser vulnerável"

A rapper, que se prepara para lançar o segundo álbum de estúdio e se apresenta no festival MECA nesse sábado (8), fala sobre os sons e experiências que inspiraram o novo disco.

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06 Julho 2017, 4:00pm

Foto: Divulgação

A curitibana Karol Conká, depois de borrar a linha entre cantora pop e rapper, está também extrapolando seu território de artista para invadir a televisão, publicidade e moda. Apresentadora do Superbonita, no GNT, a cantora também estrela diversas campanhas como a da Dermacyd, NET e Nike; além de cantar em eventos de estilistas e ter sido convidada de honra de Reinaldo Lourenço na última São Paulo Fashion Week por conta de seus looks extravagantes.

Todos esses compromissos acabaram atrasando mais de uma vez o lançamento de Ambulante, segundo álbum de estúdio de Karol. O disco foi prometido para o final de 2016, adiado para o primeiro semestre de 2017 e agora paira sem uma data de lançamento definida.

Os singles, porém, têm feito bem o trabalho de manter o hype de Karol enquanto Ambulante não é vem ao mundo. "Tombei" e "É o Poder" são os criadores de bordões sobre os quais a cantora se sustenta desde 2014; "100% Feminista", parceria com MC Carol, levantou ainda mais a bandeira do feminismo que Karol já ostentava nos singles anteriores, e que causou ainda mais polêmica no mais recente, "Lalá", uma ode ao sexo oral em mulheres. As batidas — embora influenciadas ora por samba, ora por reggae, ora por funk — carregam sempre o peso EDM-baladinha proporcionado pelos produtores com quem a cantora normalmente trabalha, a dupla Tropkillaz e o conterrâneo Boss in Drama.

Fazendo uma média de dez shows por mês, Karol se prepara para uma apresentação especial como headliner do MECA Festival, que acontece nesse fim de semana no Inhotim. Por telefone, ela me contou dos novos sons e experiências que inspiraram o que não ouvimos ainda de Ambulante, além de falar da importância de passar uma mensagem de poder e confiança em suas músicas, e da impossibilidade de se mostrar vulnerável nesse ponto em sua carreira.

O que você está preparando para a apresentação no MECA?
Karol Conká: Como eu atrasei o lançamento do meu disco, eu vou tocar a música que eu acabei de lançar, que é "Lalá", e aí eu preparo umas brincadeiras com o meu DJ, mas é tudo meio que no dia. Pro show, eu vou cantar as músicas que eu canto de costume, com algumas intervenções e apresentar o single novo, "Lalá", ao vivo.

O disco novo já tem uma data oficial de lançamento?
Ainda não tenho, porque eu quero colocar mais canções nele. Acabei compondo com o tempo e achei válido colocá-las no disco. Só que como eu fico nessa de gravar o Superbonita, fazer show e publicidade, eu acabo com a agenda apertada, e aí demora pra finalizar a produção. Mas eu acredito que em setembro eu já esteja anunciando o lançamento dele.

Quais serão as maiores diferenças de Ambulante quanto ao seu antecessor, Batuk Freak?
Eu acho que não vai ficar muito diferente. Ele estará com uma roupagem nova, até mesmo porque são outros produtores, mas sempre trabalhando dentro da minha essência e do meu propósito. Então as canções vão ser carregadas da minha vivência. Eu gosto de me influenciar pelo meu cotidiano e nos meus sentimentos.

O disco vai ser bem diverso. Terá novidades, canções em estilos musicais que eu nunca lancei. Fui brincando mais com jazz e com blues em algumas situações. Me senti à vontade, aí fiz umas canções mais nessa pegada e gostei, achei bem bacana. Também vai ter muita batucada, batidas africanas, coisas que já fazem parte da minha essência.

Em "É o Poder", você diz que "o mundo é de quem faz". Você leva essa proatividade também para a sua música?
É bem a minha realidade. Eu costumo cantar sempre a minha realidade, então eu gosto de levar essa mensagem de autoestima para quem precisa e firmar essa coisa do poder. Acho que tudo que é diferente dá uma assustada. Eu recebo muito mais elogio do que crítica, mas é natural a gente manter o foco nas críticas. Eu sinceramente acho que crítica é bem-vinda. Acho que, assim como eu dou minha opinião, as pessoas têm que dar a opinião delas. Só que eu também não sou obrigada a levar aquilo como uma lei pra minha vida. As pessoas que não se identificam com o meu trabalho, acham que é estranho, estão no direito delas.

Por que você acha que sua figura gera esse estranhamento?
É pelo conjunto de tudo. Porque eu sou alegre, sarcástica. Ao mesmo tempo eu tenho minha vida pessoal reservada. Eu não faço muito rodeio pra falar as coisas, eu sou muito espontânea. Isso causa uma estranheza mas, ao mesmo tempo, as pessoas gostam desse tipo de coisa, porque no fundo o que todo mundo quer é liberdade pra ser o que a gente quer. Então às vezes, mesmo eu sendo como eu quero, eu não sou o que aquela pessoa gostaria que eu fosse. E aí é um problema da pessoa, não meu.

Quando escrevi "Lalá", eu procurei falar da maneira que eu falo mesmo desse assunto, sem muito rodeio e sem precisar sujar, falar de uma maneira imunda, sabe? Em nenhum momento dessa música eu rebaixo os homens, eu tô dizendo que eles têm possibilidade de aprender. Mas alguns homens se sentiram ofendidos, lógico, e a intenção é incomodar. Minha intenção primeiramente é incomodar, mais do que agradar. Quando a gente se incomoda com alguma coisa, a gente se questiona. E é importante criar discussões e chegar até uma informação e ficar mais sábio.

Seu posicionamento feminista sempre foi algo intrínseco seu ou foi um despertar de consciência recente?
Eu sempre tive esse posicionamento que eu tenho hoje por ser do rap. As mulheres no rap sempre falam de direitos da mulher, porque a gente não tinha muito direito antigamente. Eu senti, na verdade, a sociedade dar mais importância pra esse assunto. Comigo é uma coisa que desde pequena minha avó conversava comigo, mas não usava a palavra "feminismo". Não era usada essa palavra constantemente como é hoje. A palavra que a gente usava no lugar de 'feminismo' era 'guerreira'". Depois que veio essa avalanche de informações de tudo quanto é lugar — muito legal isso, pois é um momento de reeducação cultural — eu percebi que meu posicionamento tava certo, mas que eu ainda tinha muito o que aprender. Porque, nessa sociedade machista, não existe uma mulher 100% feminista no sentido de saber tudo o que ela está falando. Quando eu e a MC Carol cantamos "Represento as mulheres/100% feminista" a gente tá querendo dizer exatamente isso – que a gente tinha muito pra aprender, e que a gente aprendeu e carrega essa camisa.

Seu público já entende essa mensagem? Ou você sente que atinge uma galera que não tem contato com feminismo?
Eu tenho um público que já é desconstruído, e um que ainda precisa se desconstruir. Eu vejo isso em camarins, quando converso com os fãs, quando recebo depoimentos pela internet. As pessoas estão aprendendo. Já teve caso de uma menina me escrever falando que sempre teve nojo de gays e negros, aí ouviu uma música minha sem saber que eu era negra, gostou e passou a ouvir e entender melhor. Aí, hoje, ela gosta de artistas gays, negros. Ela disse que é por conta da religião dela. A gente tem que pensar sempre em passar essa mensagem. Se eu tivesse falado com outro linguajar ou com ódio na minha rima, talvez essa mensagem não tivesse chegado a essa racista, essa ex-racista. É possível a gente transformar as pessoas em ex-racistas.

O objetivo da minha música é passar uma informação, mas também passar um sentimento de empatia, de você se colocar no lugar da outra pessoa. "Por que a Karol fala de poder, ela se acha?" As pessoas que me ouvem veem que não é bem isso. A minha voz é a tua voz, é a voz de todo mundo. Eu ouvi ao contrário, que eu não seria capaz de nada. Então eu preciso me autoafirmar como capaz de alguma coisa. Eu preciso passar essa mensagem pra alguém que está na mesma situação em que eu estive. A minha intenção é essa, passar uma mensagem de conforto.

Você acha que é importante passar momentos de vulnerabilidade nas suas músicas, para além de confiança e poder?
Eu acho. Mas tem que ver em qual momento, porque tem situações em que a sociedade já espera que você seja vulnerável. E aí tem que ver qual o lado do vulnerável, se é você ser fraco, perdedor, ou vulnerável por ser humano. É importante, ao mesmo tempo de passar esse lance do poder, passar esse lado vulnerável. Mas é uma coisa em que eu não paro pra pensar. Eu não tenho tempo de ser vulnerável. Eu me permito ser, mas não foco nisso.

Você se tornou uma figura importante para a moda, também. O quanto você acha que sua imagem influencia a recepção do seu som?
Eu gosto muito de trabalhar com aparência no sentido de passar a minha personalidade, não de me encaixar nos padrões. Gosto de passar minha personalidade através da imagem porque muitas vezes a pessoa não vai me ouvir, ela vai me ver só, de primeiro impacto. Então eu gosto de me aventurar. Hoje eu me sinto uma influência — quando eu recebi esse título, uns anos atrás, eu achava um pouco estranho, não entendia muito bem. Mas hoje eu entendo. Por eu ser espontânea, cara de pau, atrevida, tem umas coisas que eu uso que ficam bacanas em mim, mas as pessoas me falam que se fosse em outra pessoa, num outro momento, iam achar horrível. Com esse tipo de comentário, eu aprendi que pra você ser uma fashionista, você tem que saber carregar o que você veste, não importa a peça que você usa. Se for só pra ser uma regata e um jeans, vai ser a coisa mais linda do mundo se a personalidade que estiver dentro da roupa passar uma mensagem. A moda depende muito da mensagem que a pessoa passa.