'A Nova Califórnia, baseado no conto homônimo de Lima Barreto. Imagens: Game E Arte/Divulgação.

'A Nova Califórnia' e a luta pela representatividade negra nos games

Qual é a importância de um jogo baseado em um conto de Lima Barreto, primeiro autor a se declarar negro no Brasil?

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29 março 2018, 3:45pm

'A Nova Califórnia, baseado no conto homônimo de Lima Barreto. Imagens: Game E Arte/Divulgação.

Bibliotecas espalhadas pela cidade de São Paulo receberam uma atração inusitada em janeiro deste ano: crianças e adolescentes se reuniram para conferir um jogo que trazia, entre suas missões, roubar ossos de um cemitério e receitar remédios para hemorroida. 108 anos antes, em 1910, Lima Barreto escrevia "A Nova Califórnia", conto satírico que deu origem ao jogo em questão e que explorava a ganância dos moradores do pequeno município carioca de Tubiacanga.

Por mais visionário que tenha sido, e estamos falando de um dos autores mais brilhantes da nossa literatura, Lima dificilmente imaginava que um dia sua obra seria homenageada dessa forma, em uma experiência interativa.

Como um jogo baseado em um conto do início do século passado está dialogando com o público de hoje? Foi que o perguntamos pro próprio casal responsável pela adaptação.

“Resolvemos tirar o narrador onisciente e transformar a narração em experiência”, conta Tainá Félix (28), produtora do jogo. Ela e Jaderson Souza (34), seu companheiro no trabalho e na vida, são fundadores da empresa Game E Arte, situada na Vila Mazzei, nos confins da zona norte de São Paulo.

Jaderson e Tainá, da Game E Arte, durante a SBGames 2017, em Curitiba. Foto: Pedro Falcão/VICE Brasil.

Os dois dedicaram os últimos quatro anos ao desenvolvimento de A Nova Califórnia, jogo independente que tem a cabeluda tarefa de traduzir os ácidos e imortais parágrafos do conto homônimo de Lima Barreto em uma experiência que leve a essência de sua obra para uma nova geração de jogadores.

Refletindo sobre suas inspirações, Jaderson afirma que a motivação para apostar no projeto veio acima de tudo da força do conto original. “É um conto que fala sobre ganância, e ele conta de uma maneira muito sarcástica as formas bizarras que nós encontramos para garimparmos nosso ouro. É um tema atemporal”, ele diz. “[O conto] 'A Nova Califórnia' é um olhar para um Brasil atual. Conversa com o povo e suas vontades mais escondidas, suas ações antiéticas e formas de agir”, conclui Tainá.

“A gente tem essa ideia de que as pessoas querem sempre um tipo de jogo ou tipo de mecânica, mas talvez elas estejam saturadas disso. Será que elas não querem ter novas histórias?" - Tainá.

A escolha do autor a ser adaptado não foi feita de modo aleatório e carrega um significado bem simbólico. Lembrado como o primeiro escritor brasileiro a se declarar negro em um meio artístico predominantemente branco, Lima Barreto nunca pisou em ovos para fazer críticas sociais e abordar temas populares em sua obra.

Paralelamente, Tainá e Jaderson lutam por mais inclusão e visibilidade de desenvolvedores negros na cena de jogos independentes, algo ainda bastante raro no Brasil e no mundo.

“Quando olhamos pros jogos, a gente não se vê neles”, lamenta Tainá. Ela acredita que videogames não precisam obrigatoriamente espelhar a realidade, mas considera importante que pessoas diversas se vejam naquilo que elas consomem. “A gente tem essa ideia de que as pessoas querem sempre um tipo de jogo ou tipo de mecânica, mas talvez elas estejam saturadas disso. Será que elas não querem ter novas histórias? Que elas sejam diversas e que partam de pontos de vista diferentes?”

É bem plausível imaginar que o caminho para uma maior diversidade de histórias e temas passa pela diversificação das pessoas por trás dessas histórias. Pensando nisso, a Game E Arte promove iniciativas para tornar o processo criativo em torno dos jogos mais acessível, especialmente em comunidades mais carentes. O casal trabalha não apenas com ações educativas e culturais envolvendo videogames, mas também com oficinas de desenvolvimento, pensando na formação inicial da molecada em diversas partes de São Paulo, para que essa nova geração comece também a transformar as próprias histórias em jogos.

A Nova Califórnia foi lançado no Steam em novembro de 2017, na semana da Consciência Negra, e desde então vem sendo inserido nessas iniciativas culturais com uma recepção bastante positiva.

“A galera da quebrada foi demais”, conta Jaderson. “Nas bibliotecas, tivemos sessões de bate-papo sobre o jogo, mostramos um pouco do processo de criação e, é claro, a molecada jogou. Mesmo trabalhando desde 2009 através da Game E Arte com o público da periferia, foi emocionante ver a forma com que eles jogaram.”

Nesse contexto podemos entender A Nova Califórnia como uma iniciativa para não apenas enaltecer a produção cultural brasileira do passado, mas também fomentar a que está por vir. Tainá vê esse potencial latente com otimismo: “Sob o ponto de vista educacional, pensem nas comunidades periféricas que podem ter contato com experiências potentes nos games, de modo que seu olhar para a realidade seja amplificado para além de seu território. O jogo pra um guri na periferia é uma janela para um mundo que lhe parece distante. Nosso dever é mostrar que essa distância pode diminuir.”

Em 1910, Lima Barreto escreveu A Nova Califórnia buscando satirizar nossos valores, expressar sua visão sobre ganância e, através disso, contar um pouco de sua história. Hoje, 108 anos depois, a adaptação do seu conto para os videogames surge como um incentivo para que você também conte a sua.

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