Sexo

Como é fazer sexo quando você tem perda auditiva

Abraçar minhas limitações auditivas veio, de maneira meio contraintuitiva, a erotizá-las.

por Anna Pulley; Traduzido por Marina Schnoor
19 Junho 2019, 10:00am

Ilustração por Koji Yamamoto.

Nos 15 anos em que tento viver com aparelho auditivo, já me consultei com uma dezena de médicos, otorrinolaringologistas e fonoaudiólogos. Em todos esses encontros, zero deles abordaram como fazer sexo usando aparelho auditivo. Quando decidi ser ousada e perguntar, a resposta que sempre recebi me parecia simples demais e nada satisfatória: é só tirar o aparelho.

Fora dos consultórios, a única referência que encontrei em se tratando de sexo e aparelhos auditivos veio de um livro, que é excelente em outros tópicos, chamado Living Better with Hearing Loss: A Guide to Health, Happiness, Love, Sex, Work, Friends... and Hearing Aids, de Katherine Bouton. Apesar do “sexo” no título, essa parte tem só umas cem palavras. “Posso fazer sexo usando o aparelho auditivo?” escreve Bouton. “No geral, a resposta parece ser 'melhor tirar'. Se você tirá-los, como você se comunica – especialmente no escuro? Tem algumas maneiras, como todo mundo sabe.”

Tá bom, e quais são essas maneiras? O capítulo acaba aqui, junto com uma frase lembrando de avisar seu parceiro sobre sua perda auditiva e trabalhar na comunicação. E sim, todo mundo poderia estar se comunicando mais e melhor sobre nossas limitações na cama, mas faltam conselhos concretos de como navegar pelo mundo selvagem do sexo com perda auditiva.

Como escritora e entusiasta de sexo, passei anos experimentando com jeitos diferentes de lidar com sexo, consentimento e comunicação com aparelhos auditivos. Aqui vão minhas principais dicas, quer você use aparelho dentro da orelha (ITE), aparelho implantado cirurgicamente, ou atrás da orelha (BTE) como eu. Apesar de todos terem componentes externos que podem ser removidos, aparelhos diferentes vêm com níveis diferentes de conforto e exigem diferentes posições e técnicas.

Devo tirar meu aparelho pra transar?

Você pode tirar seu aparelho auditivo para transar, o que muita gente faz. Com base em entrevistas com pessoas com perda auditiva, algumas adoram transar sem aparelho porque a falta de distração auditiva ajuda a focar melhor e mais facilmente na sensação física, e ser mais atento com o parceiro.

Tirar seu aparelho auditivo evita que ele acabe molhando, o que pode danificá-lo. Nos EUA, aparelhos auditivos podem custar entre US$ 3 mil e US$ 7 mil o par (e isso decola para US$ 30 – US$ 50 mil para implante coclear) e raramente são cobertos pelos planos de saúde aqui, então estragar seu aparelho não é uma boa, não importa quanto você goste de um facial.

Tirar seu aparelho também garante que um amante não vai acidentalmente arrancá-lo da sua cabeça num momento de paixão desenfreada, quando você pode perdê-lo ou acabar pisando nele. Para evitar isso, Suzanne Baptiste, uma especialista em instrumentos auditivos de São Francisco, recomenda ter um aparelho que se encaixe bem para evitar perdê-lo nos lençóis. E tirá-lo garante que não vai ter aquele som horroroso de microfonia caso seu parceiro, por exemplo, aperte as coxas contra suas orelhas durante o sexo oral.

Mas há várias desvantagens em tirar seu aparelho. A maior e mais óbvia sendo que você não vai conseguir ouvir direito, o que tem um impacto na sua habilidade de se comunicar, dar e receber informação de consentimento, e usar dicas auditivas do parceiro. Baptiste aconselha a não tirar seu aparelho durante a atividade sexual considerando a importância da comunicação. “Aparelhos auditivos modernos são muito mais resistentes a umidade do que costumavam ser”, ela disse. “Não posso falar de todos os aparelhos, mas se o seu tem menos de dois ou três anos, não tem problema suar nele.”

Tirar o aparelho auditivo para o sexo nunca foi uma boa opção pra mim. Descobri que sinto muita ansiedade pensando em concordar acidentalmente com alguma coisa que não quero fazer, ou fazer algo que o parceiro não queira, porque não ouvi direito. Além disso, não tem nada mais sexy que ouvir a outra pessoa gemer. Mesmo que o sexo geralmente seja muito suado pra mim, descobri que um pouco de bom senso vai longe quando se trata de usar meu aparelho durante atividades molhadas. (Claro, nada de sexo no chuveiro nem water sports!) Nunca cheguei a estragá-lo nem um pouco. Escolha o que funciona pra você – você sempre pode tirar e colocar de volta se precisar.

Encontre jeitos alternativos de se comunicar e dar consentimento

Consentimento e comunicação durante o sexo podem ser uma coisa espinhosa pra todo mundo, não só pessoas com perda auditiva. Limites às vezes são cruzados acidentalmente, mesmo com o parceiro mais bem-intencionado e respeitoso. O lado bom do sexo com aparelho auditivo é que isso obriga o casal a ser muito mais explícito, intencional e direto, particularmente quando navegando uma experiência de primeira vez.

Para esse fim, você sempre, sempre, sempre precisa dizer para seu parceiro que tem dificuldade para ouvir. Revelar sua perda auditiva nunca vai ser mais estranho que violar o consentimento do parceiro. Além disso, ser direto e honesto sobre sua perda auditiva tira um pouco do estigma. Se você não contar pro parceiro que usa aparelho auditivo, a pessoa não vai poder acomodar suas necessidades.

Quando e como comentar sobre sua perda auditiva com um parceiro vai de você, mas recomendo que seja antes de começar a pegação. Se você não falar, tem o risco do parceiro agarrar seu rosto no cinema pra te beijar e acabar derrubando seu aparelho, te obrigando a procurá-lo no chão todo sujo de pipoca e refrigerante com a lanterna do seu celular. (Hipoteticamente.)

Em termos de se comunicar durante o sexo quando alguém usar aparelho auditivo, descobri que é uma boa tirar dicas dos fetiches, usando palavras de segurança, sinais e gestos para se comunicar. Se uma pessoa está amordaçada, por exemplo, vai ser difícil usar palavras. Mas você pode apertar a mão do parceiro, fazer que sim com a cabeça três vezes ou empregar um sinal tátil ou visual. A mesma linha de pensamento pode ser aplicada no sexo com aparelho auditivo, independente de quão baunilha for. Sinais com a cabeça e contato visual são ótimos, e se você precisa ir mais devagar ou rápido, geralmente pode indicar isso só com o corpo. Também curto usar o básico joia pra cima/joia pra baixo, se suas mãos não estiverem amarradas, por exemplo. (Também sou conhecida por dar um toca aqui durante o sexo, então dá pra ver que curto muitos gestos visuais.)

Aceite os momentos constrangedores – e que você provavelmente vai ter que pedir para a pessoa repetir o que acabou de dizer

A primeira dica, apesar de mais relevante para o sexo com aparelho auditivo, se aplica a qualquer tipo de sexo, e envolve humor. Sexo é constrangedor. Se você nunca teve uma leve concussão batendo a cabeça na cabeceira ou acidentalmente deu uma cotovelada no genital de alguém, você provavelmente não fez tanto sexo bom assim.

Não importa seu gênero, a coisa mais broxante do mundo é a ansiedade. Se você fica constantemente interrogando cada movimento para que seu amante não toque acidentalmente seu aparelho auditivo, você não vai aproveitar muito o sexo em si. Você pode reconhecer que coisas constrangedoras acontecem, rir e seguir em frente – ou, pode ignorar o que aconteceu e ainda seguir em frente. Vai de você como seguir a corrente, mas prefiro rir, como uma parceira e eu fizemos uma vez em que achei que ela tinha dito “Posso cuspir no seu ouvido?” quando na verdade ela tinha dito “Posso sussurrar no seu ouvido?” Foi um momento que ajudou a formar um laço entre nós – o que significou sexo melhor dali em diante.

Como evitar microfonia no seu aparelho auditivo durante o sexo

Microfonia é um pé no saco. Pra mim, pelo menos, microfonia acontece em momentos aleatórios. Às vezes um abraço de leve já faz meu aparelho gritar, mas sexo vigoroso não. Às vezes tirar o óculos de sol dá microfonia, outras vezes, isso acontece ouvindo Jewel no fone de ouvido. (Pare de julgar meu gosto musical, ô, aparelho!)

Dito isso, tem certas posições para prestar atenção e evitar a microfonia. Por exemplo, as posições que colocam pressão nas orelhas ou perto delas, como durante o sexo oral que descrevi acima, e o 69 preguiçoso, onde sua cabeça fica descansando na coxa do parceiro. Papai e mamãe pode ser uma aposta se seu parceiro gosta de pressionar o rosto no seu pescoço quando está por cima. Falando no geral, posições onde a pessoa com aparelho auditivo fica por cima são ótimas porque permitem controlar mais aspectos do sexo, e portanto ajuda a não dar passo em falso. Experimentação é a chave para descobrir o que funciona e o que não funciona pra cada um.

Se microfonia acontecer apesar das suas manobras, você sempre pode tirar um ou os dois aparelhos, ou passar para outra atividade por um tempo. O principal é saber perdoar você mesmo e o parceiro. Você é biônico! Melhoras tecnológicas sempre veem com dificuldades técnicas.

Incorporar limitações auditivas nas brincadeiras eróticas

Abraçar minhas limitações veio, de maneira meio contraintuitiva, a erotizá-las. Brincar intencionalmente com algo que me disseram que eu devia me sentir mal me ensinou que não sou “quebrada”, “deficiente” ou “estou perdendo alguma coisa”. Essa perda nem sempre precisa ser uma perda. Quando abordo minha perda auditiva explícita e intencionalmente durante o sexo para virar uma brincadeira, me sinto mais compreendida e apreciada de um jeito que poucas coisas conseguem fazer. Em parte porque isso é tabu e muitos tabus são eróticos. Se um amante morde ou chupa minhas orelhas (o que tem que ser negociado antes, porque: consentimento!) – mesmo se ainda estou usando o aparelho, ou que dê microfonia – o ato me faz sentir reconhecida, como se a pessoa estivesse dizendo “Vejo sua limitação, e não te desejo menos por isso”.

Também gosto de brincar com a audição do parceiro (que tenha audição normal), porque isso iguala um pouco o campo de jogo e dá a ele um vislumbre de como o sexo é pra mim. Tirar qualquer sentido – com uma venda, tampões de ouvido, ou fones tocando ruído branco – aumenta seus outros sentidos e te permite experimentar o sexo de novas maneiras. Jogar com cheiro e gosto é mais difícil, mas você pode tirar os cheiros ao redor colocando um pouco de mentol em baixo do nariz da pessoa ou fazer ela usar uma mordaça ou lenço com cheiro sobre a boca. Para o toque, a pessoa pode ser amarrada. Você também pode enrolar o parceiro num tecido em particular, como cetim (agradável) ou juta (desagradável).

Quando você treina seus sentidos para notar coisas diferentes, sentir sensações diferentes e se comunicar de outras maneiras, você fica mais curioso e em sintonia com seu corpo e o corpo do parceiro.

Gerencie vergonha em potencial sobre dificuldades auditivas

Uma barreira menos aparente do sexo com aparelho auditivo é navegar a vergonha, que é um subproduto infeliz de viver num mundo capacitista e que muitas vezes não acomoda quem é diferente. Há um estigma cercando perda auditiva e surdez, particularmente quando você é jovem. Vergonha, como a ansiedade, é muito broxante.

Aprender a ligar o foda-se ajuda, mas leva tempo, paciência e às vezes terapia. Enquanto você trabalha nisso, corte a vergonha praticando a vulnerabilidade. Se você não sabe que palavras ou ações desencadeiam sua vergonha, então não terá como evitá-las.

Minha vergonha geralmente é desencadeada por falar putaria, o que gosto muito – mas que não posso mais fazer. Uma vez uma peguete sugeriu fazer sexo pelo telefone, e evitei as ligações dela por um ano porque sentia muita ansiedade com isso. Talvez tecnologia de closed caption ao vivo me ajude a falar putaria no futuro, mas, por enquanto, digo aos meus parceiros para usar menos palavras e mais gestos visuais se não querem que eu diga “Quê?” mil vezes.

Quando você percebe quais coisas desencadeiam sua vergonha, você pode falar com o parceiro para evitar que isso te atrapalhe no futuro. Acidentes acontecem, e mesmo os parceiros mais respeitosos podem pisar na bola às vezes. Mas é assim que a gente aprende.

Evitar ou esconder o que você te dá vergonha só dá a essas coisas mais poder. Não deixe isso acontecer. Vergonha é uma porcaria que não merece estar na cama com você.

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Matéria originalmente publicada na VICE EUA.

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