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Entrevista

Os cartões de visita das antigas gangues de Chicago

Livro reúne as marcas registradas da vida das gangues em uma das cidades mais violentas dos EUA.

por Allie Conti; Traduzido por Marina Schnoor
06 Outubro 2017, 10:00am

Foto por Levi Mandel.

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE UK .

Brandon viu seu primeiro cartão de visita de gangue quando tinha uns 12 anos. Dentro da caixa de charutos onde o pai guardava seus canivetes antigos e peles de esquilo estava uma curiosidade amassada —"cumprimentos", ele dizia, de um grupo chamado Royal Capris. Quando o pré-adolescente perguntou quem eram Jester, Hooker, Sylvester, Cowboy e Lil Weasel, seu pai simplesmente respondeu que um amigo tinha feito o cartão numa aula de artes no colégio. Mais tarde, quando estava na faculdade, Johnson foi um pouco mais fundo e descobriu uma história ainda pouco contada sobre as gangues de Chicago.

Chicago é hoje um dos lugares mais mortais dos EUA. Em 2016, foram registrados mais de 4.300 tiroteios e 750 homicídios na cidade, alguns deles relacionados a atuação das gangues. É tentador ver esses cartões como uma volta a tempos mais simples ao considerar a violência que devasta Chicago atualmente, mas eles na verdade ajudam a contar a história de como a cidade acabou dividida por linhas raciais. Alguns dos cartões parecem bobos e apresentam desenhos como o coelho da Playboy, já outros mostram cavaleiros da KKK — uma reação à mudança dos padrões de imigração nos anos 60 e uma percepção entre os brancos de que sua cidade estava sob ameaça.

Johnson, agora com 32 anos, não tem relação nenhuma com gangues. Ele é só um cara do subúrbio com bacharelado em poesia e muitos suvenires que vem juntando num livro. Liguei para Johnson para perguntar como ele chegou a Thee Almighty & Insane, o que o livro nos conta sobre a história de uma cidade profundamente problemática, e por que essa subcultura impressa é superespecífica de Chicago.

VICE: Na sua pesquisa, você conseguiu descobrir quem eram os Royal Capris e por que seu pai tinha o cartão deles décadas depois?
Brandon Johnson: O Royal Capris era uma pequena gangue branca do lado noroeste de Chicago. Não consegui descobrir muito da história deles especificamente, mas meu pai cresceu perto do Aeroporto O'Hare nos subúrbios, e no colégio, um amigo dele era do Royal Capris. Na verdade, ele tinha chegado à escola do meu pai no último ano do colegial — acho que os pais dele estavam tentando afastá-lo da cidade e da vida de gangue, para que ele pudesse terminar a escola. Bom, meu pai ficou amigo dele, ele passou aquele cartão para o meu pai, e meu pai guardou o cartão porque era uma lembrança legal. Ele colocou o cartão numa caixa de charutos junto com outras coisas de sua infância, e a caixa acabou no sótão, onde o achei.

Cortesia de Brandon Johnson/zigmagazine.

Como você conseguiu mais deles?
Muitos antigos membros colecionavam os cartões quando estavam nas gangues. Quando os cartões eram feitos, havia muitas trocas. Então é meio que uma progressão natural: as pessoas colecionavam os cartões quando estavam nas gangues, depois ficavam mais velhas e saíam das gangues, mas ainda se encontravam com antigos rivais e todos se divertiam juntos, e trocavam lembranças como os cartões e jaquetas com patches. Consegui meus cartões através da internet de um ex-membro do Gaylords, que juntou uma coleção enorme comprando de outras pessoas com os anos. E também de um colecionador que era DJ de house nos anos 80. Ele conhecia alguém que estava vendendo uma coleção rara de cartões de gangues latinas.

Qual era o cenário típico onde esses cartões eram entregues? Quer dizer, eles não têm informações de contato ou qualquer coisa assim que poderia ser útil, certo?
A informação de contato era a esquina ou qualquer outro lugar onde eles se encontravam — seu território. Acho que era mais para representar a gangue mesmo, por orgulho da gangue, pelo prestígio de estar numa gangue. Ouvi dizer que os cartões eram usados para recrutar, então eles davam um desses para os caras mais novos no bairro e diziam "É, somos nós". Acho que também é um símbolo de afiliação. Se eles estivessem dando uma festa num bar ou algo assim, eles podiam dizer "Mostre seu cartão na porta e eles te deixam entrar". E acho que eles estavam se inspirando nos clubes sociais atléticos que existiam na cidade antes do tempo deles, e de onde as gangues tinham começado, como times de softball e tal. Então são cartões dos afiliados. Foi algo que eles adaptaram dos grupos de onde vinham.

A ascensão das gangues em Chicago tem a ver com o declínio na participação de organizações cívicas, que alguns historiadores dizem ter caracterizado o meio do século 20 nos EUA?
Acho que isso pode ser verdade para gangues que vieram de clubes de softball, mas o Latin Kings era um grupo político nos anos 60. E havia gangues de moleques se juntando para defender território e impressionar as garotas, coisas assim. O que aconteceu nos anos 70 e 80 foi que muitos imigrantes chegaram à cidade e as coisas começaram a ser divididas em linhas raciais. As gangues brancas sentiam que estavam defendendo seu bairro dos latinos que estavam se mudando para onde eles moravam, e simultaneamente os brancos estavam fugindo desses bairros. As gangues latinas sentiam que estavam se defendendo da discriminação, cuidando de seu povo, e tentando defender uma vida para pessoas como eles em Chicago. Folheando o livro, você vê por exemplo que o Gaylords tinha símbolos de poder branco e coisas assim, e ouvi dizer que era só uma postura, mas está ali. Mesmo assim, havia alianças entre as raças.

"O que aconteceu nos anos 70 e 80 foi que muitos imigrantes chegaram à cidade e as coisas começaram a ser divididas em linhas raciais."

Você aprendeu a ler os cartões pesquisando história urbana ou só estudando a estética deles?
Acho que um pouco dos dois. Fica evidente pelos cartões quem era membro da Folk Nation e quem era da People Nation — essas [gangues] começaram no final dos anos 70. Folk Nation começou com Larry Hoover, o líder do Gangster Disciples, ele estava na prisão na época e falou com diferentes linhas raciais para criar um tipo de aliança. Em reação a isso, as gangues que não foram incluídas criaram outra aliança. No final dos anos 70, tinha essa grande dinâmica rolando. Folk e People tinham símbolos diferentes. Então você consegue ver quem estava contra quem aqui. Tem alguns livros escritos por ex-membros que dão um relato em primeira mão disso, além de sites que fornecem a história para essas coisas.

Você pode falar um pouco sobre a iconografia desses cartões? Tudo parece bem Olde English, e há imagens como unicórnios, o que parece meio estranho para caras que queriam ser vistos como gangsteres. No que devemos nos focar?
Como alguém de fora, você vê essa estética bizarra, tipo "Os Poderosos Gaylords de Tal e Tal" e pensa "O que isso significa?" Mas sei lá, isso fazia sentido para eles de certa maneira. Colocar símbolos de cabeça para baixo era um sinal de desrespeito, por exemplo. E acho que certas coisas eram os símbolos que o cara da gráfica tinha disponível, porque eles usavam o que tinham à mão e viam o que as outras gangues estavam fazendo. As decisões de design eram meio limitadas pelo que você encontrava ou conseguia desenhar.

Como esses cartões eram feitos, e a qualidade deles conferia um status especial, como naquela cena de Psicopata Americano?
Com certeza a qualidade variava, e pelo que posso ver, todos eram feitos com impressora offset. Parece que havia muitas lojas de impressão locais na cidade onde as gangues conseguiam 500 cartões por US$20 ou algo assim. São cartões de visita bem comuns, mas alguns deles, como um dos Latin Kings que tenho, são dourados brilhante com letras pretas, o que seria algo mais premium. Alguns parecem mais tridimensionais e têm um efeito meio que de diamante, o que é mais desejável em se tratando de coleção.

Você pode falar um pouco de como fatores externos alimentaram a narrativa de recém-chegados versus grupos estabelecidos, e como isso ajudou na formação dessas gangues?
Nos anos 60 e 70, as pessoas estavam abandonando as cidades pelos subúrbios, e havia muito migrantes chegando por volta de 1965, quando o Congresso fez mudanças em suas políticas de imigração como resultado dos movimentos pelos direitos civis. E isso permitiu que pessoas de fora da Europa viessem para os EUA. Então houve uma grande imigração de latinos, e muitos deles foram para Chicago, porque havia muitas oportunidades na cidade na época. Grandes projetos estavam acontecendo, como a expansão da Universidade de Ilinóis em Chicago, a construção nas estradas, etc., e diferentes grupos que já estavam estabelecidos como os porto-riquenhos, que estavam aqui há gerações, estavam sendo despejados. E eles precisavam de outro lugar para morar, então foram para lugares como Humboldt Park, Logan Square, Wicker Park. E muita gente estava saindo dos subúrbios porque os latinos estavam chegando nesses bairros. Então a dinâmica estava mudando e as pessoas que ficaram para trás sentiam que seus bairros estavam sendo invadidos. Tudo isso ajudou a criar conflitos nas ruas entre adolescentes, que com certeza eram influenciados por pessoas mais velhas de sua comunidade e seus pais em certas visões.

Mas essa história aconteceu em todo os EUA. A cultura dos cartões de visita é específica de Chicago?
É única de Chicago, sim, e isso é algo que acho muito interessante e especial sobre eles. Sou dos subúrbios de Chicago, então tenho algum orgulho daquela cidade, por isso acho legal que esse seja um fenômeno idiossincrático dessa forma. Não sei dizer por que isso aconteceu apenas em Chicago, mas agora isso é parte da história da cidade, um subcultura de impressão única que existiu logo antes das coisas se tornarem digitais.

Saiba mais sobre o livro de Brandon Johnson aqui .

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